Complô, às 13h45
Abre a maratona “Complô”, de João Miller Guerra, um retrato imersivo de Bruno Furtado, conhecido como Ghoya, rapper crioulo nascido no bairro da Fontainhas, na Amadora, filho de mãe são-tomense e pai cabo-verdiano. O documentário acompanha cerca de uma década da vida de Ghoya, incluindo longos períodos de reclusão, retratando a prisão não como um fim mas como um espaço de resistência, inspiração e denúncia. Ao longo de 85 minutos, o filme cruza crioulo cabo-verdiano e referências afro-portuguesas na música de Ghoya para abordar discriminação, violência policial, requalificação urbana e o legado colonial português. Segundo o próprio realizador, “Complô surgiu de um envolvimento profundo com o Bruno, a sua comunidade, a sua história e a luta política que eles personificam”, uma abordagem que privilegiou deliberadamente a colaboração em vez da simples observação externa. O filme estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Marselha em 2025, antes da estreia nacional no Doclisboa.
Memórias do Teatro da Cornucópia, às 15h10
Segue-se “Memórias do Teatro da Cornucópia”, de Solveig Nordlund, um retrato dos 43 anos de vida de uma das companhias mais emblemáticas do teatro interventivo português, fundada em 1973 por Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo ainda sob a obscuridade do Estado Novo, precisamente para combater a ditadura através do palco. Cintra, que se manteve o rosto mais identificável da Cornucópia ao longo de décadas, partilha o testemunho ao lado da cenógrafa Cristina Reis, sua cúmplice artística permanente e corresponsável pela direção da companhia depois da saída de Silva Melo em 1980. Nordlund, que assistiu de perto aos primórdios da Cornucópia enquanto amiga pessoal dos dois fundadores, decidiu avançar com o projeto precisamente no momento em que o teatro encerrou portas, transformando o documentário numa despedida tão afetiva quanto historicamente relevante.
A Minha Vida Como Roger Moore, às 16h45
Pela primeira vez em Portugal, chega também “A Minha Vida Como Roger Moore” (“From Roger Moore with Love”), produção da BBC realizada por Jack Cocker, feita em estreita colaboração com o espólio e a família do ator, com acesso privilegiado a arquivos pessoais, incluindo cartas e filmes caseiros nunca antes mostrados publicamente. O documentário traça o percurso improvável de Moore, de jovem modelo de malhas da classe trabalhadora do sul de Londres a ícone global, culminando no papel que definiria a sua carreira: James Bond, personagem a que Moore trouxe um humor e um charme muito próprios, distintos da interpretação mais dura que Sean Connery tinha consagrado antes dele, tornando a sua estreia em “007 – Vive e Deixa Morrer” um sucesso imediato.
Bardot, às 18h15
Fecha a maratona “Bardot”, de Alain Berliner, o realizador de “Ma Vie en Rose”, e Elora Thevenet, um retrato íntimo construído com o apoio total da própria Brigitte Bardot e da sua equipa, que participou ativamente no projeto e chega mesmo a narrar partes do próprio filme. Construído a partir de arquivos inéditos, entrevistas e reconstituições, o documentário revisita o percurso de uma mulher que se tornou simultaneamente ícone do cinema francês e uma das ativistas mais persistentes na defesa dos direitos dos animais, sem esconder as dificuldades e provações pessoais que marcaram essa dupla trajetória. O filme estreou no Festival de Cannes antes da passagem pelos cinemas franceses no final de 2025.
A fechar o dia, às 19h45, chega “A História de Michael Jackson”, a minissérie documental da BBC já anteriormente destacada nesta redação, sobre a qual mantemos disponível o artigo dedicado publicado esta semana.
]]>“Fauda” termina com a quinta e mais pesada temporada, dois anos depois do 7 de outubro
Criada por Greg Daniels, o mesmo responsável pela adaptação americana de “The Office”, e Michael Koman, “The Paper” segue Ned Sampson, interpretado por Domhnall Gleeson, um editor improvável tentando salvar um pequeno jornal local em Toledo, no Ohio. A série não é uma sequela direta, mas partilha universo com “The Office” através da mesma equipa de documentaristas fictícios que acompanha agora esta nova redação, com Oscar Nuñez a reprisar o seu papel de Oscar Martinez, um dos raros elos diretos entre as duas produções. Na segunda temporada, o fio condutor passa pela procura incessante da próxima grande história por parte de Ned e da sua equipa de jornalistas, obrigando-os a confrontar as consequências reais, por vezes incómodas, de perseguir reportagens de impacto, com subtramas paralelas, incluindo um tornado que atinge a cidade, a gerarem efeitos inesperados ao longo da temporada.
Talvez o dado mais relevante para os fãs mais céticos de “The Office” seja precisamente a evolução crítica que esta segunda temporada representa. Depois de uma primeira temporada recebida com reservas consideráveis, acusada de tentar demasiado imitar o ritmo e o humor de outras sitcoms de sucesso como “Parks and Recreation”, as primeiras análises à segunda temporada descrevem um afastamento claro e bem-sucedido dessa sombra, com uma escrita mais afiada, um elenco secundário mais confiante e um ritmo consideravelmente mais rápido e seguro daquilo que a série quer ser. Não há unanimidade, longe disso: alguns críticos continuam a apontar um excesso de reviravoltas dramáticas que por vezes soam a esforço excessivo, mas o consenso geral aponta para uma série que, pela primeira vez, consegue ser vista ao lado de “The Office” em vez de ser constantemente comparada, de forma desfavorável, a ela.
Vale lembrar que a Peacock já tinha renovado “The Paper” para esta segunda temporada ainda antes da estreia da primeira, um voto de confiança pouco habitual que reflete a aposta clara da plataforma em construir, a partir do legado de “The Office”, uma segunda geração de comédias de formato documental ambientadas em espaços de trabalho. Falta agora saber se este salto de qualidade na segunda temporada será suficiente para garantir uma terceira, uma decisão que, ao contrário da anterior, a Peacock e a NBC ainda não confirmaram publicamente, preferindo provavelmente esperar pela reação do público a este novo capítulo antes de comprometerem recursos adicionais a uma série que, até agora, tem vivido sobretudo da paciência e da expectativa dos fãs da sitcom original.
]]>A ação retoma dois anos depois desse ataque, com Doron Kavillio, personagem interpretada pelo próprio Lior Raz desde a primeira temporada, a lidar com um stress pós-traumático que o próprio ator descreve como o retrato mais cru já feito da personagem. É esse estado emocional debilitado que o arrasta para uma missão de vingança não autorizada, promovida por um velho amigo, levando-o a uma operação secreta de infiltração em Marselha, França, numa mudança de cenário pouco habitual para uma série que sempre esteve firmemente ancorada no território israelo-palestiniano. Ao elenco habitual, que inclui Itzik Cohen, Doron Ben-David e Yaakov Zada Daniel, juntam-se agora a atriz francesa Melanie Laurent e o ator Hakim Djaziri, um sinal claro da expansão geográfica da narrativa nesta reta final. A realização ficou a cargo de Omri Givon, também responsável por “Hostages”, com argumento de Omri Shenhar, criador de “Tehran”.
O mais interessante nesta última temporada é a forma como se recusa a oferecer ao público o desfecho triunfalista que uma série de ação sobre contraterrorismo poderia facilmente ter escolhido. Segundo as primeiras críticas publicadas, “Fauda” fecha não com uma vitória, mas com luto, memória e uma oração pela paz, depois de uma temporada inteira construída à volta do impulso de vingança, uma escolha temática que parece querer responder a uma pergunta incómoda que os próprios criadores admitem ter querido colocar: será que a vingança muda alguma coisa, ou apenas mantém o ciclo de violência em movimento? É uma nota final marcadamente mais sóbria e reflexiva do que a tensão puramente física que sempre foi a marca registada da série, um tom que a crítica tem recebido de forma dividida, com alguns a elogiar a maturidade da abordagem e outros a considerar o resultado emocionalmente pesado até para os padrões já de si intensos de “Fauda”.
Criada em 2015, “Fauda” tornou-se um fenómeno global pouco habitual para uma produção israelita, conquistando audiências bem para além do mercado local graças à sua abordagem pouco convencional para o género: em vez de retratar o conflito israelo-palestiniano através de uma lente estritamente heroica ou propagandística, a série sempre fez questão de humanizar também os seus antagonistas palestinianos, uma escolha narrativa que lhe valeu tanto elogios pela complexidade moral como críticas de diferentes lados do espectro político ao longo dos seus dez anos de existência. Que a série tenha decidido encerrar a sua história precisamente através do acontecimento mais traumático e mais divisivo da história recente da região sublinha até que ponto os seus criadores sempre encararam “Fauda” como um espelho, ainda que dramatizado, da realidade política e humana que procurava retratar.
Com este final, a Netflix perde uma das suas produções internacionais mais duradouras e mais consistentemente premiadas, mas os próprios criadores parecem ter escolhido terminar no momento certo, antes que a série arriscasse tornar-se repetitiva, optando por um fecho que privilegia a reflexão em detrimento do espetáculo fácil.
Ambientada na vila fictícia ártica de Ice Cove, no Nunavut, a série acompanha Siaja, uma jovem inuk de 26 anos interpretada por Anna Lambe, que decide publicamente afastar-se do casamento com um marido bem-intencionado mas desligado da realidade, procurando reconstruir a sua própria identidade sem deixar de permanecer enraizada na comunidade onde cresceu. Como organizadora de eventos no centro comunitário local, Siaja lida com tudo, desde noites dedicadas aos mais idosos até eventos mais peculiares e culturalmente específicos, enquanto tenta, ao longo da primeira temporada, convencer a vila a acolher um novo centro de investigação, um fio narrativo que serve de pretexto para explorar as tensões entre tradição, modernidade e ambição pessoal numa comunidade pequena e isolada.
O verdadeiro trunfo de “North of North” é aquilo que a tornou, desde a estreia em 2025, um caso raro de representação genuína na televisão de streaming: a série é a primeira produção original canadiana da Netflix, co-encomendada pela CBC em associação com a Aboriginal Peoples Television Network, e foi criada por Alethea Arnaquq-Baril e Stacey Aglok MacDonald, ambas inuk e residentes no Ártico, para quem contar esta história significava também dar visibilidade autêntica à sua própria comunidade e cultura. Esse compromisso com a autenticidade estendeu-se muito para além da sala de argumentistas: para um dos episódios da primeira temporada, a designer inuk Victoria Kakuktinniq viajou três horas de moto de neve para entregar pessoalmente o atigi, o casaco tradicional inuktitut, usado no casamento da personagem principal, um nível de detalhe cultural que a crítica destacou repetidamente como um dos pontos fortes da produção.
Esse cuidado traduziu-se em reconhecimento imediato: a primeira temporada arrecadou uma pontuação de 100% no Rotten Tomatoes e venceu cinco prémios nos Directors Guild of Canada Awards de 2025, incluindo Melhor Realização em Série de Comédia para Danis Goulet, além de outros reconhecimentos que a colocaram entre as estreias mais bem recebidas da televisão canadiana dos últimos anos. Para a segunda temporada, Anna Lambe já avisou que a história promete ficar “mais louca” e mais intensa do que a primeira, ao mesmo tempo que permite ao público conhecer as personagens secundárias com muito mais profundidade, com nomes convidados como o comediante canadiano Bruce McCulloch, dos lendários Kids in the Hall, e a cantora inuk Elisapie a juntarem-se ao elenco.
Numa paisagem televisiva ainda dominada por representações limitadas ou estereotipadas de comunidades indígenas árticas, “North of North” continua a destacar-se precisamente por recusar tanto o exotismo como o vitimismo fácil, optando antes por uma comédia calorosa, específica e genuinamente enraizada na vida quotidiana de uma comunidade raramente vista com este grau de nuance no ecrã.
]]>O grande nome da secção é, sem dúvida, Mike Flanagan, o realizador responsável por êxitos de terror televisivo como “A Maldição da Residência Hill” e “O Andar do Meio”, que apresenta em Toronto a sua nova adaptação de “Carrie”, o romance de Stephen King, escolhida para encerrar a programação Primetime deste ano. A abrir a secção está “Below”, uma produção canadiana realizada por Jesse McKeown, escolhida precisamente para abrir a programação com uma voz nacional, uma decisão simbólica que sublinha a intenção do TIFF de dar palco de honra ao seu próprio país num ano particularmente significativo para o festival. Entre os títulos mais aguardados está ainda “Crystal Lake”, a esperada série que funciona como prelúdio à mitologia de “Sexta-Feira 13”, assinada por Brad Caleb Kane e Michael Lennox, um projeto que os fãs do género de terror slasher têm vindo a acompanhar de perto desde o anúncio.
O lado canadiano da programação inclui ainda “Yaga”, de Kat Sandler, Rachel Talalay e David Frazee, com Hudson Williams no elenco, e “Alice”, uma coprodução franco-canadiana realizada por Virginie Verrier e Guillaume Lonergan, protagonizada por François Arnaud. Do lado internacional, a secção reserva ainda espaço para “American Hostage”, criada por Shawn Ryan com a colaboração de Eileen Myers e Adam Arkin, “Blindspot Berlin”, do realizador alemão David Nawrath, “2.6 Seconds: Death in the Outback”, documentário australiano de Darren Dale, e “Oxygen Masks Will (Not) Drop Automatically”, produção brasileira de Marcelo Gomes e Carol Minêm, um sinal de como o TIFF continua a fazer questão de equilibrar a sua seleção entre diferentes continentes e tradições televisivas. A sexta temporada de “Slow Horses”, já estreada este mês na Apple TV+, integra também a seleção, uma escolha que confirma o estatuto da série de espionagem britânica como uma das apostas mais seguras e mais consistentemente aclamadas da televisão de prestígio atual.
Santo António Ganha Filme, os Oasis Reencontram-se, e Mais 3 Estreias Esta Semana
Elencos de peso completam o quadro: nomes como Bérénice Bejo, Linda Cardellini, Jon Hamm, Carrie-Anne Moss e Gary Oldman surgem associados a diferentes projetos da secção, um indicador claro de que a fasquia de estrelas dispostas a trabalhar em formato televisivo de prestígio continua a subir ano após ano, um fenómeno que já não surpreende ninguém na indústria mas que continua a alimentar a relevância crescente destas secções televisivas dentro de festivais historicamente pensados apenas para cinema.
A escolha de destacar tão fortemente vozes canadianas nesta edição, tanto na programação Primetime como no resto do festival, não é acidental: numa altura em que a indústria audiovisual canadiana tem procurado ativamente maior visibilidade internacional face à hegemonia de produções americanas, o TIFF parece disposto a usar o seu peso simbólico como um dos maiores festivais do mundo para reforçar precisamente essa causa, sem por isso abdicar de continuar a atrair os maiores nomes internacionais da televisão de autor.
]]>A história acompanha Jo e Raissa, duas melhores amigas de infância nas Filipinas dos anos 90, que prometem uma à outra permanecer unidas para sempre na noite em que celebram o final do liceu. Nessa mesma noite, as duas descobrem um portal misterioso que as transporta para Nakali, uma ilha mágica que se alimenta gradualmente das memórias de quem nela entra. Quando percebem que o preço a pagar para regressar a casa é esquecerem-se de toda a amizade que construíram ao longo da vida, Jo e Raissa têm de correr contra o tempo para encontrar uma forma de escapar antes de se esquecerem uma da outra para sempre, um conceito que consegue transformar uma premissa de aventura fantástica num retrato genuinamente comovente sobre a fragilidade e o valor da memória partilhada.
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As vozes originais de Jo e Raissa ficam a cargo de H.E.R. e Liza Soberano, ambas de ascendência filipina, uma escolha de casting deliberada por parte dos realizadores Joel Crawford e Januel Mercado, que quiseram garantir autenticidade cultural em cada etapa da produção. O elenco inclui ainda Dave Franco no papel de Raww, um lobisomem bem-intencionado mas desajeitado, Jenny Slate como Batiba, personagem inspirada na Batibat, uma criatura da mitologia filipina, e Lea Salonga, lendária voz de Disney conhecida por “Mulan” e “Aladdin”, no papel da temida Manananggal, uma das criaturas mais assustadoras do panteão de monstros filipinos.
O compromisso da equipa criativa com a autenticidade cultural não se ficou pelas escolhas de elenco. Segundo revelaram os próprios realizadores, Crawford e Mercado passaram seis anos a desenvolver a história e viajaram até às Filipinas na primavera de 2025 numa investigação de dez dias que os levou por várias ilhas do arquipélago e por Manila, trabalhando lado a lado com centenas de artistas filipinos e americanos ao longo da produção. Mercado é filipino-americano, enquanto Crawford, realizador também de “O Gato das Botas 2”, tem uma família filipina própria, e chegou a dedicar publicamente o filme à mulher, uma escolha pessoal que ajuda a explicar o cuidado extremo com que a mitologia local é tratada ao longo da narrativa, evitando a apropriação superficial que por vezes tem marcado tentativas anteriores de Hollywood em retratar culturas menos representadas no ecrã.
A receção crítica antes da estreia tem sido descrita como um verdadeiro “cartão de amor” à cultura filipina, com vários meios especializados em representação a destacarem como o filme consegue fazer com que espectadores de ascendência filipina se sintam genuinamente vistos, um objetivo que raramente é alcançado com este nível de fidelidade em produções de animação de grande orçamento destinadas ao mercado global.
Vale notar que a data de estreia em Portugal, 1 de outubro, surge uma semana depois da estreia norte-americana, marcada para 25 de setembro, e um dia depois da estreia brasileira, a 24 de setembro, seguindo o padrão habitual de desfasamento entre mercados que a Universal costuma aplicar aos seus lançamentos de animação internacionais.
O teledisco que fiz com a minha filha – A Aura está a Carregar!
]]>Realizada por Sophie Fuller e produzida pela 72 Films, a série percorre a vida de Jackson desde a ascensão à fama ainda criança, num contexto de segregação racial na América dos anos 60, até à queda pública marcada por décadas de escândalo mediático e judicial. Estruturada originalmente pela BBC em três episódios, intitulados “Fame”, “The Reckoning” e “Resurrection”, a produção combina material de arquivo raro com testemunhos de pessoas que conviveram de perto com o artista: a irmã La Toya Jackson, a cantora Dionne Warwick, o antigo agente Dieter Wiesner, o guarda-costas Bill Whitfield, o advogado da família Brian Oxman e o procurador Ron Zonen, uma escolha de entrevistados que abrange tanto vozes próximas do círculo familiar como figuras do sistema judicial que acompanharam de perto os processos que marcaram a segunda metade da carreira de Jackson.
O documentário não evita aquele que continua a ser o capítulo mais controverso e mais difícil da história de Jackson: as alegações de abuso sexual de menores que o perseguiram ao longo de mais de uma década, culminando no julgamento criminal de 2005, do qual saiu absolvido de todas as acusações. É importante notar, para contextualizar devidamente o momento em que esta série chega às televisões portuguesas, que o tema está longe de ser meramente histórico: Wade Robson e James Safechuck, os dois homens cujos testemunhos sustentaram o documentário “Leaving Neverland” em 2019 e que acusam Jackson de abuso sexual durante a infância, continuam com processos civis a decorrer contra o espólio do artista, reclamando 400 milhões de dólares em indemnizações, com um julgamento agendado para o final de 2026. O espólio de Jackson mantém a posição de que “as acusações não têm fundamento e Michael é inocente”, uma disputa legal que, segundo a própria série, é abordada como parte de um legado que continua ativamente a gerar tanto receitas milionárias como controvérsia.
“O Brutalista”, vencedor de três Óscares, estreia na televisão portuguesa a 11 de setembro
Essa tensão entre o valor comercial persistente da obra de Jackson e a sombra das acusações que a acompanham é, aliás, um dos eixos centrais da abordagem da série: o espólio do artista, gerido desde a sua morte em 2009, transformou uma herança inicialmente mergulhada em quase meio milhão de dólares de dívidas numa operação avaliada atualmente em milhares de milhões de dólares, um sucesso financeiro que a própria série procura confrontar com a pergunta incómoda sobre até que ponto é possível, ou desejável, separar a obra artística da pessoa e das alegações que a rodeiam.
Vale notar, para efeitos de rigor informativo, que o comunicado que acompanha esta estreia em Portugal refere a série como estando dividida em quatro episódios exibidos numa só sessão, uma diferença face à estrutura original de três episódios anunciada pela própria BBC, possivelmente resultante de um reformato específico para o mercado português; de qualquer forma, o conteúdo e a abordagem mantêm-se fiéis à produção original.
Santo António Ganha Filme, os Oasis Reencontram-se, e Mais 3 Estreias Esta Semana
Mais do que uma simples cronologia de sucessos musicais, “A História de Michael Jackson” posiciona-se como um estudo sobre a dificuldade de reconciliar genialidade artística inquestionável com um legado pessoal profundamente contestado, uma tensão que, quase duas décadas depois da morte do artista, continua longe de estar resolvida tanto nos tribunais como na opinião pública.
]]>Comédia fantástica romântica realizada por Susanne Bier, com Sandra Bullock e Nicole Kidman a reprisarem os papéis das irmãs bruxas Sally e Gillian Owens, vinte e cinco anos depois do filme original. O elenco inclui ainda Joey King, Lee Pace, Maisie Williams e Xolo Maridueña. A história, passada duas décadas e meia depois, segue a família Owens na descoberta de novos segredos sobre a origem da sua magia. Argumento de Akiva Goldsman, coguionista do primeiro filme. Distribuído pela Cinemundo.
Comédia romântica realizada por Ruben Alves, com Rita Blanco, Joaquim Monchique e Maria Rueff, sobre dois funcionários da Câmara de Lisboa que arriscam o emprego para reinventar os tradicionais Casamentos de Santo António. Estreia nas salas a 10 de setembro e, depois da passagem pelo circuito de cinemas, torna-se o primeiro filme português a chegar à plataforma Disney+. Guião coescrito pelo próprio Ruben Alves e pelo argumentista espanhol Fer Pérez. Distribuído pela NOS Audiovisuais.
Documentário realizado por Will Lovelace e Dylan Southern, com argumento de Steven Knight, sobre a digressão de reunião dos Oasis. Reúne imagens de ensaios, bastidores e concertos, e a primeira entrevista conjunta de Liam e Noel Gallagher em mais de quinze anos de afastamento. Estreou fora de competição no Festival de Veneza a 5 de setembro, com críticas favoráveis. Distribuído pela NOS Audiovisuais.
Thriller de ficção científica e ação realizado por Na Hong-jin, com Hwang Jung-min, Zo In-sung e Hoyeon. Segue o chefe da polícia de uma aldeia isolada e o seu jovem adjunto na defesa da comunidade contra uma criatura misteriosa, depois de incêndios florestais cortarem todas as comunicações. Produção sul-coreana orçada em 46 milhões de dólares, com 156 minutos de duração. Distribuído pela Big Picture.
Drama realizado por Safy Nebbou, com Romain Duris, Cristiana Capotondi e Vithaya Pansringarm, remake do filme norueguês “Hjertestart” (2017). Um pai vê-se viúvo pouco depois de adotar uma criança tailandesa de quatro anos, sem ainda ter criado com ela qualquer laço, e decide regressar à Tailândia para tentar encontrar a família biológica do filho. Distribuído pela Outsider Films.
]]>Um dos detalhes mais reveladores sobre a produção, entretanto confirmado pelo próprio Pitt, é que o ator passou cerca de 95% do tempo de rodagem a contracenar diretamente com um cão verdadeiro, em vez de recorrer a efeitos digitais ou a um animal robótico, uma escolha que Ayer descreveu como um dos desafios mais exigentes de toda a sua carreira como realizador. O papel de Odin, o cão de combate reformado que acompanha a personagem de Pitt, o oficial das Forças Especiais James Belmont, ficou a cargo de um pastor-alemão chamado Uber, com três dos seus próprios descendentes reais, Seeka, Ryker e Hondo, a servirem de duplos ao longo das filmagens. Pitt chegou a assumir publicamente que se sentiu, em determinados momentos, mais como o “ator secundário” da produção do que como a estrela principal, obrigado a gerir o comportamento imprevisível do animal, que podia distrair-se com algo tão trivial como uma abelha a voar por perto, sem nunca sair da personagem.
“O Brutalista”, vencedor de três Óscares, estreia na televisão portuguesa a 11 de setembro
Apesar de a história se passar no Alasca, a produção decidiu filmar a maior parte das cenas na Ilha Sul da Nova Zelândia, incluindo localizações glaciares remotas de tal forma inacessíveis que a equipa técnica teve de se deslocar de helicóptero, limitada a transportar apenas algumas cargas de equipamento por viagem, uma logística que ajuda a explicar por que motivo Ayer descreveu esta rodagem como uma das mais fisicamente exigentes que já enfrentou. Pitt, por seu lado, descreveu a sua personagem como “uma alma assombrada”, e o próprio realizador não hesitou em elogiar publicamente a entrega do ator: “É uma fera. Expôs-se de uma forma vulnerável que nunca tinha visto antes”, afirmou Ayer numa entrevista recente à revista GQ, acrescentando que um comentário recorrente entre quem já viu o filme é precisamente o quão crua, credível e profunda é a interpretação de Pitt.
O filme já começou também a percorrer o circuito de festivais antes da estreia comercial, tendo sido anunciado como uma das adições ao Festival de San Sebastián, marcando o regresso de Pitt a um certame que já visitou anteriormente, um movimento estratégico que sugere que a Paramount está a apostar em “Heart of the Beast” não apenas como um produto de entretenimento de género, mas também como uma peça com alguma ambição de reconhecimento crítico, à boleia das comparações que já começaram a surgir com “O Renascido”, de Alejandro González Iñárritu, o filme que rendeu a Leonardo DiCaprio o seu primeiro Óscar.
O teledisco que fiz com a minha filha – A Aura está a Carregar!
Em termos comerciais, as previsões apontam para uma estreia moderada nos Estados Unidos, entre 15 e 25 milhões de dólares no fim de semana de abertura, uma vez que o filme vai competir diretamente contra o relançamento de “Vingadores: Endgame” e a estreia de “Forgotten Island”, da DreamWorks, com Dave Franco e Jenny Slate. Ainda assim, para Pitt, que continua a alternar com sucesso entre grandes produções, como “F1”, e apostas mais pessoais e intimistas como esta, “Heart of the Beast” surge como mais uma prova de versatilidade numa fase da carreira em que o ator parece cada vez mais seletivo, mas também cada vez mais disposto a arriscar fisicamente em papéis exigentes.
]]>O filme acompanha László Tóth, arquiteto judeu húngaro que, depois de sobreviver aos horrores da Segunda Guerra Mundial, emigra com a mulher Erzsébet (Felicity Jones) para os Estados Unidos, fugindo à pobreza e à devastação de uma Europa em ruínas. Ao longo de quatro décadas, o filme acompanha a tentativa de Tóth construir não só uma carreira num país que o fascina e o desafia em igual medida, mas também uma identidade inteiramente nova, longe do trauma que carrega. Os seus projetos monumentais em betão, a marca visual mais reconhecível do filme, tornam-se assim tanto um símbolo de ambição e reinvenção como um reflexo dos fantasmas que insiste em não conseguir deixar completamente para trás, sobretudo à medida que a sua relação com o rico mecenas americano que financia o seu trabalho, interpretado por Guy Pearce, se revela cada vez mais tóxica e desigual.
Vale a pena esclarecer, para quem for ver o filme pela primeira vez, que László Tóth é uma personagem inteiramente fictícia, uma amálgama de vários arquitetos reais do século XX que trabalharam sobretudo com o género brutalista, entre eles Marcel Breuer, László Moholy-Nagy e Louis Kahn. O nome escolhido gerou alguma curiosidade entre cinéfilos mais atentos à história da arte, já que existiu um László Tóth real, geólogo húngaro que em 1972 vandalizou a “Pietà” de Michelangelo no Vaticano, alegando ser Jesus Cristo. Os realizadores já esclareceram não existir qualquer ligação intencional entre as duas figuras, mas a ironia não deixa de ser notada por muitos: enquanto o Tóth real destruiu uma obra-prima, o Tóth fictício dedica a vida a construir as suas próprias.
“O Brutalista” tornou-se também um dos filmes mais discutidos da temporada de prémios por razões que pouco têm que ver com a sua qualidade artística, amplamente reconhecida pela crítica: a revelação, feita pelo próprio editor húngaro do filme, Dávid Jancsó, de que tecnologia de inteligência artificial tinha sido usada para refinar pontualmente a pronúncia húngara de Adrien Brody e Felicity Jones em determinadas falas no idioma original, através da ferramenta Respeecher. Importa sublinhar que a tecnologia foi aplicada exclusivamente às falas em húngaro, para aperfeiçoar vogais e consoantes específicas, e que todas as falas em inglês permaneceram exatamente como gravadas no set, sem qualquer intervenção digital. Ainda assim, a revelação gerou um debate intenso sobre transparência e ética no uso de inteligência artificial na interpretação, sem que isso, no entanto, tenha impedido Brody de arrecadar o seu segundo Óscar de Melhor Ator, mais de vinte anos depois de “O Pianista”.
O teledisco que fiz com a minha filha – A Aura está a Carregar!
Realizado por Brady Corbet, um dos nomes mais promissores da sua geração de cineastas americanos, com um currículo que já incluía “The Childhood of a Leader” e “Vox Lux”, “O Brutalista” consolidou-se como uma referência incontornável do cinema de autor da década, um épico ambicioso sobre imigração, arte, trauma e a promessa, sempre incerta, do sonho americano. Com um elenco encabeçado por Adrien Brody, Felicity Jones e Guy Pearce, e uma banda sonora original premiada com o Óscar da autoria de Daniel Blumberg, esta é seguramente uma das estreias televisivas mais relevantes do mês de setembro.
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