Taíssa Stivanin, da RFI
O acúmulo de glicogênio dentro dos lisossomos das células musculares gera danos aos músculos e, às vezes, ao coração, causando perda parcial ou até total das funções motora e respiratória. Na forma infantil, a doença aparece no primeiro ano de vida e evolui rapidamente, explica a geneticista Carolina Fishinger, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Ela pode ser detectada no teste do pezinho ampliado, mas apenas Minas Gerais e o Distrito Federal incluem a doença de Pompe na triagem neonatal.
Os sintomas da patologia são hipotonia (diminuição do tônus muscular), fraqueza muscular, dificuldade de deglutição e de respiração e problemas cardíacos graves, com necessidade de intervenções hospitalares urgentes e precoces.
Quando a doença se manifesta na idade adulta, em geral, a atividade enzimática que provoca os sintomas pode ser um pouco mais elevada, e esse acúmulo ocorre de forma mais lenta. “Os pacientes têm fraqueza muscular, intolerância ao exercício, cãibras, mas sem problemas cardíacos. Normalmente, esses pacientes têm dificuldade para subir escadas, para levantar-se da cama e para andar", explica a geneticista.
"Eles fazem uma marcha 'dançante' para tentar adaptar a perda de força dos músculos do quadríceps. Pode ter escápula alada por causa da fraqueza dos músculos intercostais. Há dor, sofrimento e, com o passar do tempo, esse acúmulo causa também dificuldades respiratórias que, muitas vezes, levam o paciente à ventilação mecânica.”
A especialista alerta para sintomas aparentemente banais, como fadiga, dificuldade muscular ou suspeita de alguma distrofia. A forma adulta muitas vezes confunde não só os pacientes, mas também os médicos. Esse foi o caso do administrador de empresas Ismael Oliveira de Lima, 38, do Rio de Janeiro. Ele conta que, aos 13 anos, começou a ter dificuldades para fazer exercícios. Na escola, jogar bola com os amigos, por exemplo, tornou-se um desafio diário.
“Toda vez que eu fazia algum esforço físico, sentia dores no abdômen e uma certa dificuldade na respiração. Isso me acendeu um alerta. Comentava isso em casa com meus pais. Até que um dia fui ao médico para falar sobre essas dificuldades e foram feitos alguns exames de sangue”, conta.
Nos testes laboratoriais foram detectadas alterações nas enzimas hepáticas TGO e TGP e nos níveis de creatinina, o que levantou a suspeita da doença. Mas vários anos se passaram até Ismael consultar um reumatologista e descobrir, por volta de 2013, que tinha a condição. Atualmente, o diagnóstico pode ser feito por meio da dosagem enzimática ou por exames genéticos que detectam alterações no gene GAA. “Dei graças a Deus por ter descoberto e fechado o diagnóstico”, conta Ismael.
A dificuldade agora é obter o tratamento. Desde novembro, Ismael aguarda os medicamentos de reposição enzimática, que têm alto custo. Para consegui-los, precisou recorrer à Justiça contra o governo federal, mas os processos seguem suspensos. “Não só eu, mas uma grande parte desses pacientes está ficando desassistida. A partir do momento em que a gente fica sem fazer o tratamento, percebe o quanto a doença afeta o nosso dia a dia”, afirma.
O tratamento não é disponibilizado pelo SUS para pacientes adultos. Para se ter uma ideia, o custo anual da terapia, que varia de acordo com o peso do paciente, pode ultrapassar R$ 1 milhão. “Isso é um horror, porque os pacientes com a forma adulta enfrentam sofrimento e progressão da doença tão graves quanto os das crianças”, lamenta Carolina Fishinger.
“Apenas os pacientes com a forma infantil têm acesso ao tratamento. Normalmente, dependendo da gravidade do quadro, é necessário adotar um protocolo de imunossupressão nos dois primeiros meses para que o organismo aceite a enzima administrada e não desenvolva uma reação contra ela”, explica.
Segundo a especialista, a forma adulta não requer imunossupressão, apenas a terapia de reposição enzimática a cada 14 dias. “O tratamento busca reduzir o acúmulo de glicogênio dentro das células e os danos progressivos causados por ele. Com isso, é possível estabilizar e melhorar a condição clínica dos pacientes, a capacidade respiratória e o desempenho físico. Nas crianças, também há benefícios para a função cardíaca.”
Carolina Fishinger destaca a importância de ampliar o conhecimento sobre a doença de Pompe e aumentar a suspeita clínica entre os profissionais de saúde. “O tratamento é fundamental e deve ser iniciado o mais cedo possível para evitar sequelas e a destruição do tecido muscular.”
]]>Taíssa Stivanin, da RFI
O acúmulo de glicogênio dentro dos lisossomos das células musculares gera danos aos músculos e, às vezes, ao coração, causando perda parcial ou até total das funções motora e respiratória. Na forma infantil, a doença aparece no primeiro ano de vida e evolui rapidamente, explica a geneticista Carolina Fishinger, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Ela pode ser detectada no teste do pezinho ampliado, mas apenas Minas Gerais e o Distrito Federal incluem a doença de Pompe na triagem neonatal.
Os sintomas da patologia são hipotonia (diminuição do tônus muscular), fraqueza muscular, dificuldade de deglutição e de respiração e problemas cardíacos graves, com necessidade de intervenções hospitalares urgentes e precoces.
Quando a doença se manifesta na idade adulta, em geral, a atividade enzimática que provoca os sintomas pode ser um pouco mais elevada, e esse acúmulo ocorre de forma mais lenta. “Os pacientes têm fraqueza muscular, intolerância ao exercício, cãibras, mas sem problemas cardíacos. Normalmente, esses pacientes têm dificuldade para subir escadas, para levantar-se da cama e para andar", explica a geneticista.
"Eles fazem uma marcha 'dançante' para tentar adaptar a perda de força dos músculos do quadríceps. Pode ter escápula alada por causa da fraqueza dos músculos intercostais. Há dor, sofrimento e, com o passar do tempo, esse acúmulo causa também dificuldades respiratórias que, muitas vezes, levam o paciente à ventilação mecânica.”
A especialista alerta para sintomas aparentemente banais, como fadiga, dificuldade muscular ou suspeita de alguma distrofia. A forma adulta muitas vezes confunde não só os pacientes, mas também os médicos. Esse foi o caso do administrador de empresas Ismael Oliveira de Lima, 38, do Rio de Janeiro. Ele conta que, aos 13 anos, começou a ter dificuldades para fazer exercícios. Na escola, jogar bola com os amigos, por exemplo, tornou-se um desafio diário.
“Toda vez que eu fazia algum esforço físico, sentia dores no abdômen e uma certa dificuldade na respiração. Isso me acendeu um alerta. Comentava isso em casa com meus pais. Até que um dia fui ao médico para falar sobre essas dificuldades e foram feitos alguns exames de sangue”, conta.
Nos testes laboratoriais foram detectadas alterações nas enzimas hepáticas TGO e TGP e nos níveis de creatinina, o que levantou a suspeita da doença. Mas vários anos se passaram até Ismael consultar um reumatologista e descobrir, por volta de 2013, que tinha a condição. Atualmente, o diagnóstico pode ser feito por meio da dosagem enzimática ou por exames genéticos que detectam alterações no gene GAA. “Dei graças a Deus por ter descoberto e fechado o diagnóstico”, conta Ismael.
A dificuldade agora é obter o tratamento. Desde novembro, Ismael aguarda os medicamentos de reposição enzimática, que têm alto custo. Para consegui-los, precisou recorrer à Justiça contra o governo federal, mas os processos seguem suspensos. “Não só eu, mas uma grande parte desses pacientes está ficando desassistida. A partir do momento em que a gente fica sem fazer o tratamento, percebe o quanto a doença afeta o nosso dia a dia”, afirma.
O tratamento não é disponibilizado pelo SUS para pacientes adultos. Para se ter uma ideia, o custo anual da terapia, que varia de acordo com o peso do paciente, pode ultrapassar R$ 1 milhão. “Isso é um horror, porque os pacientes com a forma adulta enfrentam sofrimento e progressão da doença tão graves quanto os das crianças”, lamenta Carolina Fishinger.
“Apenas os pacientes com a forma infantil têm acesso ao tratamento. Normalmente, dependendo da gravidade do quadro, é necessário adotar um protocolo de imunossupressão nos dois primeiros meses para que o organismo aceite a enzima administrada e não desenvolva uma reação contra ela”, explica.
Segundo a especialista, a forma adulta não requer imunossupressão, apenas a terapia de reposição enzimática a cada 14 dias. “O tratamento busca reduzir o acúmulo de glicogênio dentro das células e os danos progressivos causados por ele. Com isso, é possível estabilizar e melhorar a condição clínica dos pacientes, a capacidade respiratória e o desempenho físico. Nas crianças, também há benefícios para a função cardíaca.”
Carolina Fishinger destaca a importância de ampliar o conhecimento sobre a doença de Pompe e aumentar a suspeita clínica entre os profissionais de saúde. “O tratamento é fundamental e deve ser iniciado o mais cedo possível para evitar sequelas e a destruição do tecido muscular.”
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Após alguns anos nos Estados Unidos, onde passou por instituições como o Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, Alexandre Detappe desenvolveu um projeto com uma equipe do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que utiliza nanopartículas para transportar medicamentos. A equipe incorporava anticorpos e proteínas à superfície dos materiais para que reconhecessem as células tumorais.
Na França, o alvo das pesquisas do cientista passou a ser as células do sistema imunológico. Esta é a base do seu atual projeto, o Nano-BITE, que acaba de receber financiamento do ERC (Conselho Europeu de Pesquisa), principal agência da União Europeia de fomento à pesquisa científica de excelência. O cientista francês obteve uma bolsa de € 150 mil (cerca de R$ 884 mil) destinada a pesquisadores que buscam aplicações práticas para suas descobertas.
O foco inicial dos estudos é a atividade celular de um subtipo de câncer de mama conhecido como HER-2 positivo. Este tipo de doença é caracterizado por uma quantidade excessiva da proteína HER2 e considerado mais agressivo. “A ideia é ativar o sistema imunológico adicionando certos anticorpos à superfície das nanopartículas. Nesse caso, elas funcionam como um meio de transporte, onde podemos colocar imunoterapias ou moléculas que vão estimular o sistema imunológico”, explica.
A eficácia da imunoterapia ainda permanece limitada em muitos tumores sólidos. As duas principais dificuldades são atrair uma quantidade suficiente de células imunitárias para o local do tumor e fazer com que elas permaneçam ativas por longos períodos, o que exige uma carga maior de medicamentos e aumenta o risco de efeitos colaterais. Nesse contexto, as nanopartículas funcionam como uma espécie de cavalo de Troia mais sofisticado, levando as moléculas terapêuticas de forma mais eficaz e estratégica, eliminando esses dois obstáculos.
“Fizemos nossas primeiras provas de conceito e validamos a hipótese de que, dependendo do tipo de nanopartícula utilizado, haverá uma determinada influência na resposta imune. A seleção foi feita após a análise de muitas nanopartículas, entre elas uma à base de PLGA, que é um pequeno polímero. Foi assim que surgiu o projeto Nano-BITE.”
As nanopartículas medem entre 60 e 100 nanômetros e são formadas por gordura, colesterol e cadeias de polímeros sintéticos utilizados em diversos produtos, como xampus, por exemplo. Elas são cerca de 10 mil vezes menores que um fio de cabelo.
A título de comparação, os anticorpos incorporados à sua superfície têm cerca de 10 nanômetros. “É como uma emulsão com gotículas finas, estabilizada por um polímero chamado PLGA. A ideia é criar esferas minúsculas, com esses anticorpos na superfície, adicionando o princípio ativo, ou seja, a molécula terapêutica que nos interessa”, explica Detappe. O PLGA, sigla para poliácido láctico-co-glicólico, é um polímero biodegradável e biocompatível utilizado em medicina e farmacologia.
A grande questão agora, diz o cientista francês, é confirmar a possibilidade de inserir essa nanopartícula na interface entre a célula tumoral e a imunológica. Sua função seria criar uma ponte de reconhecimento entre as duas células, ativando ao mesmo tempo a resposta imunitária que combaterá o tumor.
“O interesse deste projeto de prova de conceito no Gustave Roussy é o acesso a amostras de pacientes e a toda a estrutura clínica que o centro oferece para acelerar nossas pesquisas. A ideia é desenvolver nanopartículas de acordo com as necessidades de cada caso, dependendo do tumor ou da célula que será alvo do medicamento.”
De acordo com o cientista, é possível fabricar rapidamente uma nanopartícula personalizada na plataforma criada pelo laboratório do instituto francês, tecnologia que poderá futuramente ser aplicada a outros tipos de câncer.
Após a validação da prova de conceito, o objetivo de Alexandre é buscar novos financiamentos europeus para realizar testes clínicos e viabilizar o uso desse meio de transporte biológico inovador como aliada das imunoterapias contra tumores malignos, em um futuro possivelmente próximo,
“A transição do meio acadêmico para o setor produtivo pode ser muito rápida. É apenas uma questão de captação de recursos e financiamento, como quase sempre ocorre. A ideia é que, ao longo dos próximos 18 meses, consigamos validar o máximo possível do ponto de vista acadêmico e pré-clínico”, observa.
“O processo já existe. Depois, será necessário captar recursos e convencer um médico pesquisador a levar o projeto para os ensaios clínicos. O tempo dos ensaios clínicos em si não pode ser encurtado, porque envolve o recrutamento de pacientes. A fase 1 pode durar de um a dois anos, seguida pelas fases 2 e 3. Devemos prever entre sete e dez anos até uma eventual aprovação para uso no mercado. No entanto, o acesso ao primeiro paciente, se tudo correr bem, poderá ocorrer dentro de dois a três anos”, aposta.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Após alguns anos nos Estados Unidos, onde passou por instituições como o Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, Alexandre Detappe desenvolveu um projeto com uma equipe do MIT (Massachusetts Institute of Technology) que utiliza nanopartículas para transportar medicamentos. A equipe incorporava anticorpos e proteínas à superfície dos materiais para que reconhecessem as células tumorais.
Na França, o alvo das pesquisas do cientista passou a ser as células do sistema imunológico. Esta é a base do seu atual projeto, o Nano-BITE, que acaba de receber financiamento do ERC (Conselho Europeu de Pesquisa), principal agência da União Europeia de fomento à pesquisa científica de excelência. O cientista francês obteve uma bolsa de € 150 mil (cerca de R$ 884 mil) destinada a pesquisadores que buscam aplicações práticas para suas descobertas.
O foco inicial dos estudos é a atividade celular de um subtipo de câncer de mama conhecido como HER-2 positivo. Este tipo de doença é caracterizado por uma quantidade excessiva da proteína HER2 e considerado mais agressivo. “A ideia é ativar o sistema imunológico adicionando certos anticorpos à superfície das nanopartículas. Nesse caso, elas funcionam como um meio de transporte, onde podemos colocar imunoterapias ou moléculas que vão estimular o sistema imunológico”, explica.
A eficácia da imunoterapia ainda permanece limitada em muitos tumores sólidos. As duas principais dificuldades são atrair uma quantidade suficiente de células imunitárias para o local do tumor e fazer com que elas permaneçam ativas por longos períodos, o que exige uma carga maior de medicamentos e aumenta o risco de efeitos colaterais. Nesse contexto, as nanopartículas funcionam como uma espécie de cavalo de Troia mais sofisticado, levando as moléculas terapêuticas de forma mais eficaz e estratégica, eliminando esses dois obstáculos.
“Fizemos nossas primeiras provas de conceito e validamos a hipótese de que, dependendo do tipo de nanopartícula utilizado, haverá uma determinada influência na resposta imune. A seleção foi feita após a análise de muitas nanopartículas, entre elas uma à base de PLGA, que é um pequeno polímero. Foi assim que surgiu o projeto Nano-BITE.”
As nanopartículas medem entre 60 e 100 nanômetros e são formadas por gordura, colesterol e cadeias de polímeros sintéticos utilizados em diversos produtos, como xampus, por exemplo. Elas são cerca de 10 mil vezes menores que um fio de cabelo.
A título de comparação, os anticorpos incorporados à sua superfície têm cerca de 10 nanômetros. “É como uma emulsão com gotículas finas, estabilizada por um polímero chamado PLGA. A ideia é criar esferas minúsculas, com esses anticorpos na superfície, adicionando o princípio ativo, ou seja, a molécula terapêutica que nos interessa”, explica Detappe. O PLGA, sigla para poliácido láctico-co-glicólico, é um polímero biodegradável e biocompatível utilizado em medicina e farmacologia.
A grande questão agora, diz o cientista francês, é confirmar a possibilidade de inserir essa nanopartícula na interface entre a célula tumoral e a imunológica. Sua função seria criar uma ponte de reconhecimento entre as duas células, ativando ao mesmo tempo a resposta imunitária que combaterá o tumor.
“O interesse deste projeto de prova de conceito no Gustave Roussy é o acesso a amostras de pacientes e a toda a estrutura clínica que o centro oferece para acelerar nossas pesquisas. A ideia é desenvolver nanopartículas de acordo com as necessidades de cada caso, dependendo do tumor ou da célula que será alvo do medicamento.”
De acordo com o cientista, é possível fabricar rapidamente uma nanopartícula personalizada na plataforma criada pelo laboratório do instituto francês, tecnologia que poderá futuramente ser aplicada a outros tipos de câncer.
Após a validação da prova de conceito, o objetivo de Alexandre é buscar novos financiamentos europeus para realizar testes clínicos e viabilizar o uso desse meio de transporte biológico inovador como aliada das imunoterapias contra tumores malignos, em um futuro possivelmente próximo,
“A transição do meio acadêmico para o setor produtivo pode ser muito rápida. É apenas uma questão de captação de recursos e financiamento, como quase sempre ocorre. A ideia é que, ao longo dos próximos 18 meses, consigamos validar o máximo possível do ponto de vista acadêmico e pré-clínico”, observa.
“O processo já existe. Depois, será necessário captar recursos e convencer um médico pesquisador a levar o projeto para os ensaios clínicos. O tempo dos ensaios clínicos em si não pode ser encurtado, porque envolve o recrutamento de pacientes. A fase 1 pode durar de um a dois anos, seguida pelas fases 2 e 3. Devemos prever entre sete e dez anos até uma eventual aprovação para uso no mercado. No entanto, o acesso ao primeiro paciente, se tudo correr bem, poderá ocorrer dentro de dois a três anos”, aposta.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Para reverter essa tendência, o governo disponibilizou a vacina Pneumo 20 (vacina pneumocócica conjugada 20-valente, VPC20) nas unidades básicas de saúde e pontos de vacinação para crianças menores de cinco anos e grupos especiais.
Entre eles, povos indígenas sem histórico de vacinação pneumocócica conjugada, idosos a partir de 60 anos acamados e/ou institucionalizados e pessoas com condições clínicas especiais atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
A Pneumo 20 substituirá a Pneumo 10, incluída no calendário vacinal infantil em 2010. O novo imunizante amplia a proteção de 10 para 20 sorotipos da bactéria pneumococo e inclui novos sorotipos, como 3, 6A e 19A, que causam doença pneumocócica invasiva. Mais de seis milhões de doses poderão ser disponibilizadas em 2026, de acordo com o governo brasileiro. Disponível na rede privada, o custo do imunizante pode chegar a R$ 600.
A obstetra Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil, explicou quais são os benefícios da vacina e por que ela apresenta um nível maior de proteção. A executiva é especialista em ginecologia e obstetrícia, com atuação em medicina fetal, tem pós-graduação em gerenciamento de projetos pela Universidade da Califórnia, em Irvine, e está na Pfizer desde 2011.
“A PCV10, que era a vacina disponível na rede pública, não oferecia proteção contra dois sorotipos importantes do pneumococo, especialmente os sorotipos 3 e 19. Esses sorotipos estavam associados a mais de 50% das internações pela doença", lembra. O novo imunizante também amplia a proteção contra outros sorotipos prevalentes no país, como 8, 10A, 11A, 12F e 15B, aumentando a cobertura vacinal.
“É uma vacina que já estava disponível na rede privada e agora também integra a rede pública. No SUS, ela é oferecida para crianças de até 5 anos e para pacientes de risco atendidos pelos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE)", explica. Entre esses pacientes estão pessoas com imunidade comprometida, diabetes, hipertensão ou em tratamento oncológico com imunossupressão. Ao todo, mais de 20 condições dão direito à vacinação.
"Até então, o sistema público utilizava a vacina PCV10 para criança e a cobertura oferecida pela PCV10 havia caído para cerca de 3%, porque os sorotipos predominantes da bactéria mudaram ao longo do tempo”, explica a executiva. “A vacina cumpriu seu papel, mas deixou de proteger contra os sorotipos que passaram a causar mais casos da doença. Com a introdução da PCV20, essa proteção sobe para cerca de 77%, representando um avanço significativo para a saúde pública.”
O laboratório tem acesso a uma vigilância epidemiológica global de vírus e bactérias para antecipar tendências e preparar futuros imunizantes. “À medida que a circulação dos sorotipos muda, novas variantes podem emergir e ganhar relevância epidemiológica. É fundamental manter vigilância constante e estar preparado para desenvolver e incorporar novas vacinas que ampliem a proteção da população contra os sorotipos mais prevalentes.”
Essa metodologia faz com que o imunizante seja eficaz em diferentes continentes. A vacina, explica Adriana Ribeiro, é conjugada e protege contra vários tipos de pneumococo ao mesmo tempo. “Em termos simples, é como se houvesse 20 ‘minivacinas’ dentro de uma única vacina. Ela utiliza a tecnologia de vacina conjugada conhecida pela comunidade científica”, detalha a diretora médica do laboratório.
Segundo a executiva, essa tecnologia é utilizada pela Pfizer há muitos anos nas vacinas pneumocócicas e tem um histórico consolidado de segurança e eficácia. No caso da PCV20 e de suas versões anteriores, os açúcares da cápsula dos 20 sorotipos do pneumococo são ligados a uma proteína chamada CRM197, uma versão inativada da toxina da difteria. Essa proteína ativa o sistema imunológico e ajuda o organismo a reconhecer melhor os sorotipos, gerando proteção.
Nos últimos anos, a adesão vacinal voltou a crescer no Brasil e, após um período de queda, desde 2022 há uma recuperação das coberturas vacinais infantis, segundo dados do Ministério da Saúde.
Para a diretora da Pfizer, a disseminação da desinformação contribuiu para esse cenário. Apresentadas com aparência de conteúdo científico, muitas notícias confundem o público. Embora pareçam baseadas em evidências, transmitem informações “falsas ou distorcidas”, ressalta.
Esse fenômeno, lembra ela, não é exclusivo do Brasil. O crescimento da desinformação relacionada à saúde e às vacinas, diz, tem sido observado em diversos países e representa um desafio global para as estratégias de imunização e para a confiança da população nas vacinas. “É importante destacar que, para uma vacina ser incorporada ao mercado brasileiro, ela precisa passar por todas as etapas de desenvolvimento clínico e obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, diz Adriana.
A agência, reitera, é reconhecida pelo rigor de seus critérios regulatórios, o que garante que apenas vacinas com segurança e eficácia comprovadas sejam disponibilizadas à população. Esse processo contribuiu para a recuperação das coberturas vacinais observada nos últimos anos. No caso da vacina pneumocócica, por exemplo, o país já possui uma tradição consolidada de vacinação, o que favorece altas taxas de adesão.
“Ao mesmo tempo, é fundamental que a população não apenas mantenha o calendário vacinal em dia, mas também esteja atenta às vacinas que exigem reforços ou revacinação ao longo da vida. É o caso, por exemplo, da vacina contra o tétano e de imunizantes recomendados em fases específicas, como a gestação."
Em diferentes momentos da vida, é importante verificar a situação vacinal e atualizar a proteção quando necessário. A ampliação da cobertura depende tanto do acesso às vacinas quanto da oferta de informações confiáveis. Por isso, o combate à desinformação continua sendo um trabalho essencial e coletivo para fortalecer a confiança da população na vacinação.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Para reverter essa tendência, o governo disponibilizou a vacina Pneumo 20 (vacina pneumocócica conjugada 20-valente, VPC20) nas unidades básicas de saúde e pontos de vacinação para crianças menores de cinco anos e grupos especiais.
Entre eles, povos indígenas sem histórico de vacinação pneumocócica conjugada, idosos a partir de 60 anos acamados e/ou institucionalizados e pessoas com condições clínicas especiais atendidas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
A Pneumo 20 substituirá a Pneumo 10, incluída no calendário vacinal infantil em 2010. O novo imunizante amplia a proteção de 10 para 20 sorotipos da bactéria pneumococo e inclui novos sorotipos, como 3, 6A e 19A, que causam doença pneumocócica invasiva. Mais de seis milhões de doses poderão ser disponibilizadas em 2026, de acordo com o governo brasileiro. Disponível na rede privada, o custo do imunizante pode chegar a R$ 600.
A obstetra Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil, explicou quais são os benefícios da vacina e por que ela apresenta um nível maior de proteção. A executiva é especialista em ginecologia e obstetrícia, com atuação em medicina fetal, tem pós-graduação em gerenciamento de projetos pela Universidade da Califórnia, em Irvine, e está na Pfizer desde 2011.
“A PCV10, que era a vacina disponível na rede pública, não oferecia proteção contra dois sorotipos importantes do pneumococo, especialmente os sorotipos 3 e 19. Esses sorotipos estavam associados a mais de 50% das internações pela doença", lembra. O novo imunizante também amplia a proteção contra outros sorotipos prevalentes no país, como 8, 10A, 11A, 12F e 15B, aumentando a cobertura vacinal.
“É uma vacina que já estava disponível na rede privada e agora também integra a rede pública. No SUS, ela é oferecida para crianças de até 5 anos e para pacientes de risco atendidos pelos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE)", explica. Entre esses pacientes estão pessoas com imunidade comprometida, diabetes, hipertensão ou em tratamento oncológico com imunossupressão. Ao todo, mais de 20 condições dão direito à vacinação.
"Até então, o sistema público utilizava a vacina PCV10 para criança e a cobertura oferecida pela PCV10 havia caído para cerca de 3%, porque os sorotipos predominantes da bactéria mudaram ao longo do tempo”, explica a executiva. “A vacina cumpriu seu papel, mas deixou de proteger contra os sorotipos que passaram a causar mais casos da doença. Com a introdução da PCV20, essa proteção sobe para cerca de 77%, representando um avanço significativo para a saúde pública.”
O laboratório tem acesso a uma vigilância epidemiológica global de vírus e bactérias para antecipar tendências e preparar futuros imunizantes. “À medida que a circulação dos sorotipos muda, novas variantes podem emergir e ganhar relevância epidemiológica. É fundamental manter vigilância constante e estar preparado para desenvolver e incorporar novas vacinas que ampliem a proteção da população contra os sorotipos mais prevalentes.”
Essa metodologia faz com que o imunizante seja eficaz em diferentes continentes. A vacina, explica Adriana Ribeiro, é conjugada e protege contra vários tipos de pneumococo ao mesmo tempo. “Em termos simples, é como se houvesse 20 ‘minivacinas’ dentro de uma única vacina. Ela utiliza a tecnologia de vacina conjugada conhecida pela comunidade científica”, detalha a diretora médica do laboratório.
Segundo a executiva, essa tecnologia é utilizada pela Pfizer há muitos anos nas vacinas pneumocócicas e tem um histórico consolidado de segurança e eficácia. No caso da PCV20 e de suas versões anteriores, os açúcares da cápsula dos 20 sorotipos do pneumococo são ligados a uma proteína chamada CRM197, uma versão inativada da toxina da difteria. Essa proteína ativa o sistema imunológico e ajuda o organismo a reconhecer melhor os sorotipos, gerando proteção.
Nos últimos anos, a adesão vacinal voltou a crescer no Brasil e, após um período de queda, desde 2022 há uma recuperação das coberturas vacinais infantis, segundo dados do Ministério da Saúde.
Para a diretora da Pfizer, a disseminação da desinformação contribuiu para esse cenário. Apresentadas com aparência de conteúdo científico, muitas notícias confundem o público. Embora pareçam baseadas em evidências, transmitem informações “falsas ou distorcidas”, ressalta.
Esse fenômeno, lembra ela, não é exclusivo do Brasil. O crescimento da desinformação relacionada à saúde e às vacinas, diz, tem sido observado em diversos países e representa um desafio global para as estratégias de imunização e para a confiança da população nas vacinas. “É importante destacar que, para uma vacina ser incorporada ao mercado brasileiro, ela precisa passar por todas as etapas de desenvolvimento clínico e obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, diz Adriana.
A agência, reitera, é reconhecida pelo rigor de seus critérios regulatórios, o que garante que apenas vacinas com segurança e eficácia comprovadas sejam disponibilizadas à população. Esse processo contribuiu para a recuperação das coberturas vacinais observada nos últimos anos. No caso da vacina pneumocócica, por exemplo, o país já possui uma tradição consolidada de vacinação, o que favorece altas taxas de adesão.
“Ao mesmo tempo, é fundamental que a população não apenas mantenha o calendário vacinal em dia, mas também esteja atenta às vacinas que exigem reforços ou revacinação ao longo da vida. É o caso, por exemplo, da vacina contra o tétano e de imunizantes recomendados em fases específicas, como a gestação."
Em diferentes momentos da vida, é importante verificar a situação vacinal e atualizar a proteção quando necessário. A ampliação da cobertura depende tanto do acesso às vacinas quanto da oferta de informações confiáveis. Por isso, o combate à desinformação continua sendo um trabalho essencial e coletivo para fortalecer a confiança da população na vacinação.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Nas doenças autoimunes, o sistema imunológico passa a atacar células e tecidos saudáveis do próprio organismo. No caso do lúpus, esse processo gera inflamações que podem atingir diferentes órgãos e sistemas.
De acordo com a reumatologista Luciana Seguro, integrante da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia e do Grupo Latino-Americano de Estudo do Lúpus, especialistas defendem que a patologia não seja considerada uma única doença, mas uma síndrome. “Cada paciente apresenta manifestações diferentes. Essa compreensão também reforça a necessidade de uma abordagem individualizada. O paciente deve ser avaliado para receber um tratamento personalizado”, diz a especialista.
O lúpus erimatoso cutâneo ocorre com mais frequência em mulheres entre 20 e 40 anos. “É muito comum haver inflamação na pele. Existem pacientes que apresentam apenas a forma cutânea da doença. Essa manifestação pode ocorrer de forma isolada ou estar associada ao lúpus eritematoso sistêmico”, explica Luciana Seguro.
Mas a doença pode afetar qualquer órgão e se manifestar de diversas maneiras, provocando queda de cabelo, inflamação nos pulmões, convulsões, formigamentos e, mais raramente, manifestações intestinais, como diarreia. Também são comuns anemia e redução das taxas de glóbulos brancos e plaquetas no sangue, diz a reumatologista.
A mineira Katiuscia Francieli, de Indianópolis (MG), começou a sentir os primeiros sintomas da doença há 14 anos, aos 24 anos. As dores eram intensas, e ela passou a ter dificuldades para realizar movimentos simples. Após consultar um reumatologista e realizar exames, descobriu que tinha um distúrbio de coagulação sanguínea, mas não tinha lúpus, de acordo com a avaliação dos especialistas na época.
“Continuei sentindo muita dor, e isso passou a limitar minha rotina e as atividades do dia a dia, inclusive os cuidados com a casa. As crises eram intensas e frequentes, o que me levou a procurar atendimento hospitalar várias vezes para receber medicação", diz.
Com o tempo, alguns médicos passaram a sugerir que os seus sintomas tinham "origem emocional", conta. "Em determinado momento, acabei acreditando nisso também: que tudo poderia estar relacionado ao meu estado emocional ou até ser algo da minha cabeça”, descreve Katiusca. “Foram anos vivendo essa situação, voltando com frequência ao hospital, sem uma explicação definitiva para o que estava acontecendo.”
Os sintomas pioraram e, além das dores nas articulações, ela passou a perder cabelo e ter manchas roxas na pele. Suas dores também ficaram cada vez mais intensas. “Tinha muitas limitações. Quando eu ia pedalar, colocava o pé no chão e caía. Minha mão não conseguia mais segurar as coisas. Eu não tinha mais nenhuma destreza nos movimentos.”
Após novas consultas, o diagnóstico foi confirmado em dezembro de 2024. Com o início do tratamento, ela melhorou e agora leva uma vida normal. “Hoje eu tenho qualidade de vida, convivo muito bem com o tratamento. Recuperei minha massa muscular, que havia perdido durante os períodos mais graves da doença, e recobrei a força que não tinha”, conta.
As pesquisas ainda não identificaram os gatilhos da doença. No entanto, predisposição genética, fatores hormonais e ambientais, como tabagismo e exposição solar, estão associados ao desenvolvimento do lúpus.
“O paciente tende a apresentar novamente os tipos de inflamação que já teve antes. Por isso o diagnóstico precoce é importante, para dar início, rapidamente, a um tratamento adequado. De modo geral, é nos primeiros cinco anos que podem aparecer novas manifestações do lúpus. Depois disso, quando a doença volta, o mais comum é que ela se apresente da mesma forma que ocorreu inicialmente.”
O lúpus pode ser controlado com diagnóstico precoce, que requer exames como o FAN (fator antinuclear). O teste ajuda a identificar a presença de autoanticorpos, produzidos pelo organismo contra estruturas das próprias células. A avaliação do quadro clínico do paciente também é essencial.
“O diagnóstico do lúpus depende da combinação entre um quadro clínico sugestivo e a identificação de autoanticorpos, já que se trata de uma doença autoimune”, resume a reumatologista. “Nessa condição, o organismo produz anticorpos contra estruturas do próprio corpo, em vez de direcioná-los apenas à defesa contra agentes externos. O exame de FAN é utilizado como teste de triagem e está positivo em praticamente todos os pacientes com lúpus eritematoso sistêmico”, diz.
Mas seu resultado isolado não é suficiente para confirmar o diagnóstico: uma parcela da população sem lúpus também pode apresentar FAN positivo, o que torna fundamental a interpretação do exame em conjunto com os sinais clínicos e outros testes laboratoriais, como a dosagem do complemento, especialmente C3 e C4”, explica a médica.
Já existem pesquisas que investigam os efeitos do tratamento na fase pré-clínica da doença, ou seja, antes do aparecimento dos sintomas. “Alguns grupos de pesquisa estudam justamente a fase pré-clínica do lúpus, quando o paciente apresenta alterações imunológicas e autoanticorpos, mas ainda não desenvolveu sintomas da doença", esclarece a reumatologista.
"Não há evidências conclusivas de que o tratamento nessa fase modifique a evolução do quadro, mas essa é uma hipótese que vem sendo investigada”, aponta a médica. O tratamento para controlar a doença inclui o uso de corticoides, imunossupressores e outras moléculas.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Nas doenças autoimunes, o sistema imunológico passa a atacar células e tecidos saudáveis do próprio organismo. No caso do lúpus, esse processo gera inflamações que podem atingir diferentes órgãos e sistemas.
De acordo com a reumatologista Luciana Seguro, integrante da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia e do Grupo Latino-Americano de Estudo do Lúpus, especialistas defendem que a patologia não seja considerada uma única doença, mas uma síndrome. “Cada paciente apresenta manifestações diferentes. Essa compreensão também reforça a necessidade de uma abordagem individualizada. O paciente deve ser avaliado para receber um tratamento personalizado”, diz a especialista.
O lúpus erimatoso cutâneo ocorre com mais frequência em mulheres entre 20 e 40 anos. “É muito comum haver inflamação na pele. Existem pacientes que apresentam apenas a forma cutânea da doença. Essa manifestação pode ocorrer de forma isolada ou estar associada ao lúpus eritematoso sistêmico”, explica Luciana Seguro.
Mas a doença pode afetar qualquer órgão e se manifestar de diversas maneiras, provocando queda de cabelo, inflamação nos pulmões, convulsões, formigamentos e, mais raramente, manifestações intestinais, como diarreia. Também são comuns anemia e redução das taxas de glóbulos brancos e plaquetas no sangue, diz a reumatologista.
A mineira Katiuscia Francieli, de Indianópolis (MG), começou a sentir os primeiros sintomas da doença há 14 anos, aos 24 anos. As dores eram intensas, e ela passou a ter dificuldades para realizar movimentos simples. Após consultar um reumatologista e realizar exames, descobriu que tinha um distúrbio de coagulação sanguínea, mas não tinha lúpus, de acordo com a avaliação dos especialistas na época.
“Continuei sentindo muita dor, e isso passou a limitar minha rotina e as atividades do dia a dia, inclusive os cuidados com a casa. As crises eram intensas e frequentes, o que me levou a procurar atendimento hospitalar várias vezes para receber medicação", diz.
Com o tempo, alguns médicos passaram a sugerir que os seus sintomas tinham "origem emocional", conta. "Em determinado momento, acabei acreditando nisso também: que tudo poderia estar relacionado ao meu estado emocional ou até ser algo da minha cabeça”, descreve Katiusca. “Foram anos vivendo essa situação, voltando com frequência ao hospital, sem uma explicação definitiva para o que estava acontecendo.”
Os sintomas pioraram e, além das dores nas articulações, ela passou a perder cabelo e ter manchas roxas na pele. Suas dores também ficaram cada vez mais intensas. “Tinha muitas limitações. Quando eu ia pedalar, colocava o pé no chão e caía. Minha mão não conseguia mais segurar as coisas. Eu não tinha mais nenhuma destreza nos movimentos.”
Após novas consultas, o diagnóstico foi confirmado em dezembro de 2024. Com o início do tratamento, ela melhorou e agora leva uma vida normal. “Hoje eu tenho qualidade de vida, convivo muito bem com o tratamento. Recuperei minha massa muscular, que havia perdido durante os períodos mais graves da doença, e recobrei a força que não tinha”, conta.
As pesquisas ainda não identificaram os gatilhos da doença. No entanto, predisposição genética, fatores hormonais e ambientais, como tabagismo e exposição solar, estão associados ao desenvolvimento do lúpus.
“O paciente tende a apresentar novamente os tipos de inflamação que já teve antes. Por isso o diagnóstico precoce é importante, para dar início, rapidamente, a um tratamento adequado. De modo geral, é nos primeiros cinco anos que podem aparecer novas manifestações do lúpus. Depois disso, quando a doença volta, o mais comum é que ela se apresente da mesma forma que ocorreu inicialmente.”
O lúpus pode ser controlado com diagnóstico precoce, que requer exames como o FAN (fator antinuclear). O teste ajuda a identificar a presença de autoanticorpos, produzidos pelo organismo contra estruturas das próprias células. A avaliação do quadro clínico do paciente também é essencial.
“O diagnóstico do lúpus depende da combinação entre um quadro clínico sugestivo e a identificação de autoanticorpos, já que se trata de uma doença autoimune”, resume a reumatologista. “Nessa condição, o organismo produz anticorpos contra estruturas do próprio corpo, em vez de direcioná-los apenas à defesa contra agentes externos. O exame de FAN é utilizado como teste de triagem e está positivo em praticamente todos os pacientes com lúpus eritematoso sistêmico”, diz.
Mas seu resultado isolado não é suficiente para confirmar o diagnóstico: uma parcela da população sem lúpus também pode apresentar FAN positivo, o que torna fundamental a interpretação do exame em conjunto com os sinais clínicos e outros testes laboratoriais, como a dosagem do complemento, especialmente C3 e C4”, explica a médica.
Já existem pesquisas que investigam os efeitos do tratamento na fase pré-clínica da doença, ou seja, antes do aparecimento dos sintomas. “Alguns grupos de pesquisa estudam justamente a fase pré-clínica do lúpus, quando o paciente apresenta alterações imunológicas e autoanticorpos, mas ainda não desenvolveu sintomas da doença", esclarece a reumatologista.
"Não há evidências conclusivas de que o tratamento nessa fase modifique a evolução do quadro, mas essa é uma hipótese que vem sendo investigada”, aponta a médica. O tratamento para controlar a doença inclui o uso de corticoides, imunossupressores e outras moléculas.
]]>Como a nicotina gera dependência, abandonar o cigarro é um verdadeiro desafio individual e de saúde pública. A substância chega ao cérebro em poucos segundos, e sua ausência provoca irritação e ansiedade, e é por isso que é difícil controlar a vontade de continuar fumando.
Como buscar ajuda? Colocar a decisão em prática requer disciplina e determinação, e é comum que várias tentativas ocorram antes da interrupção definitiva do consumo, lembra a psiquiatra francesa Mathilde Sennhauser, do Hospital Sainte-Anne, especialista em dependência química.
“Cada pessoa terá sua própria motivação. Para algumas delas, será a saúde. Para outras, serão os filhos, as finanças, a pele, os dedos e os dentes que ficam amarelos. As motivações podem ser variadas”, diz a psiquiatra francesa.
O processo de desintoxicação é lento e parecido com o de outras drogas, já que a nicotina “ativa os mesmos circuitos cerebrais”, lembra a psiquiatra francesa. “A nicotina faz parte das substâncias mais viciantes, ou seja, daquelas que favorecem o surgimento de uma dependência”, alerta Mathilde Sennhauser.
A francesa Marie, de 47 anos, demorou anos para conseguir se livrar definitivamente do cigarro. Ela tentou hipnose e outras técnicas, mas só conseguiu colocar um fim ao vício após buscar acompanhamento psicológico.
As sessões ajudaram Marie a entender como ela se relacionava com o cigarro e por que era tão difícil parar. A gestão das emoções relacionadas ao ato de fumar, conta, ajudou-a a atingir seu objetivo.
“Na verdade, eu estava realmente farta de fumar, de procurar meus cigarros por toda parte, de ser dependente, de ter que correr para comprar porque não tinha mais nenhum maço”, explica. “Decidi buscar acompanhamento porque sabia que já tinha acumulado vários fracassos nas minhas tentativas de parar de fumar”.
A psiquiatra lembra que a síndrome de abstinência, como ocorre com qualquer droga, é um momento decisivo. “Há a abstinência física, que ocorre logo depois de parar de fumar. Podemos ficar mais tensos, mais irritados, até meio tristes. Em seguida, temos as medidas que vão ajudar a não voltar a fumar a longo prazo”.
O cigarro eletrônico, que surgiu como uma alternativa para fumantes que querem abandonar o vício, gera novos riscos, alerta a psiquiatra. E, no caso dos adolescentes, pode ser uma porta de entrada para o cigarro.
“A ideia é transformar o cigarro eletrônico em um objeto da moda, com embalagens coloridas e múltiplos sabores. Isso é problemático porque, como contém nicotina, desencadeia essa dependência. Mesmo sem nicotina, estabelece-se um hábito, essa dependência comportamental de ter sempre o gesto de fumar alguma coisa. Isso pode realmente favorecer o surgimento do tabagismo mais tarde”.
A psiquiatra francesa lembra algumas dicas que podem ajudar no processo: evitar ambientes onde outras pessoas fumam e outras situações propícias ao consumo, ter em mente o custo do vício, beber bastante água e praticar exercícios físicos são algumas das medidas que podem ajudar a abandonar definitivamente o cigarro.
]]>Como a nicotina gera dependência, abandonar o cigarro é um verdadeiro desafio individual e de saúde pública. A substância chega ao cérebro em poucos segundos, e sua ausência provoca irritação e ansiedade, e é por isso que é difícil controlar a vontade de continuar fumando.
Como buscar ajuda? Colocar a decisão em prática requer disciplina e determinação, e é comum que várias tentativas ocorram antes da interrupção definitiva do consumo, lembra a psiquiatra francesa Mathilde Sennhauser, do Hospital Sainte-Anne, especialista em dependência química.
“Cada pessoa terá sua própria motivação. Para algumas delas, será a saúde. Para outras, serão os filhos, as finanças, a pele, os dedos e os dentes que ficam amarelos. As motivações podem ser variadas”, diz a psiquiatra francesa.
O processo de desintoxicação é lento e parecido com o de outras drogas, já que a nicotina “ativa os mesmos circuitos cerebrais”, lembra a psiquiatra francesa. “A nicotina faz parte das substâncias mais viciantes, ou seja, daquelas que favorecem o surgimento de uma dependência”, alerta Mathilde Sennhauser.
A francesa Marie, de 47 anos, demorou anos para conseguir se livrar definitivamente do cigarro. Ela tentou hipnose e outras técnicas, mas só conseguiu colocar um fim ao vício após buscar acompanhamento psicológico.
As sessões ajudaram Marie a entender como ela se relacionava com o cigarro e por que era tão difícil parar. A gestão das emoções relacionadas ao ato de fumar, conta, ajudou-a a atingir seu objetivo.
“Na verdade, eu estava realmente farta de fumar, de procurar meus cigarros por toda parte, de ser dependente, de ter que correr para comprar porque não tinha mais nenhum maço”, explica. “Decidi buscar acompanhamento porque sabia que já tinha acumulado vários fracassos nas minhas tentativas de parar de fumar”.
A psiquiatra lembra que a síndrome de abstinência, como ocorre com qualquer droga, é um momento decisivo. “Há a abstinência física, que ocorre logo depois de parar de fumar. Podemos ficar mais tensos, mais irritados, até meio tristes. Em seguida, temos as medidas que vão ajudar a não voltar a fumar a longo prazo”.
O cigarro eletrônico, que surgiu como uma alternativa para fumantes que querem abandonar o vício, gera novos riscos, alerta a psiquiatra. E, no caso dos adolescentes, pode ser uma porta de entrada para o cigarro.
“A ideia é transformar o cigarro eletrônico em um objeto da moda, com embalagens coloridas e múltiplos sabores. Isso é problemático porque, como contém nicotina, desencadeia essa dependência. Mesmo sem nicotina, estabelece-se um hábito, essa dependência comportamental de ter sempre o gesto de fumar alguma coisa. Isso pode realmente favorecer o surgimento do tabagismo mais tarde”.
A psiquiatra francesa lembra algumas dicas que podem ajudar no processo: evitar ambientes onde outras pessoas fumam e outras situações propícias ao consumo, ter em mente o custo do vício, beber bastante água e praticar exercícios físicos são algumas das medidas que podem ajudar a abandonar definitivamente o cigarro.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
As pesquisas sobre o efeito do uso de canetas emagrecedoras no câncer começaram há cerca de cinco anos, e mais dados são necessários para confirmar o benefício. Mas os análogos de GLP-1 são uma pista inovadora na busca de novos tratamentos contra a doença.
Segundo o oncologista clínico brasileiro Paulo Henrique Costa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, que também atua nos hospitais da Rede Mater Dei, os estudos são retrospectivos, o que significa que são menos representativos em termos estatísticos. “Não é um ensaio clínico randomizado. Nesse tipo de estudo, você divide os participantes em grupos: um recebe o tratamento, e outro, não, o que permite obter uma evidência muito mais sólida, quase irrefutável”.
Ele reitera a necessidade de outras pesquisas para confirmar a ação das moléculas em certos cânceres. Essa precaução, diz, é ainda mais necessária diante da existência de um mercado paralelo de canetas emagrecedoras, obtidas sem receita ou recomendação médica. Segundo o oncologista, controlar os fatores de risco ainda é a melhor maneira de prevenir o câncer e outras doenças. Isso inclui ter uma dieta adequada e o controle da obesidade, “sem sair usando esse medicamento de forma indiscriminada”, insiste o especialista, que participou do congresso.
“À medida que se reduz a obesidade, que é um fator de risco para o câncer, há benefício na redução da incidência da doença e em seu controle”, explica o especialista. O uso das canetas emagrecedoras, diz, tornou esse benefício “ainda mais evidente”. A taxa de incidência de câncer também parece ser menor nos pacientes que utilizam a medicação.
“No caso de pacientes que já têm câncer e fazem o uso, o desfecho oncológico parece melhor: a doença progride menos e há menor risco de aparecimento de metástases. Isso leva a pensar que, ao controlar o fator de risco obesidade, que é central, há avanço no controle oncológico. A doença progride menos e há menos metástases.”
O estudo apresentado no evento analisou dados de mais de 12 mil pacientes de várias regiões do mundo. Eles tinham diferentes tipos de câncer, que iam de estágios iniciais a intermediários. A pesquisa comparou pacientes tratados com análogos de GLP-1 (liraglutida, pramlintida, dulaglutida, tirzepatida, lixisenatida ou semaglutida) a outros que receberam outros tipos de medicação antidiabética, como os inibidores de DPP-4.
Os resultados mostraram redução significativa na progressão de metástases, especialmente em quatro tipos de câncer: pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado. Em outros tumores, como próstata, pâncreas e rim, houve tendência de benefício, mas sem significância estatística.
Os estudos preliminares apresentados durante o congresso da ASCO também indicam que, além de controlar a glicose e o peso, os agonistas de GLP-1 também podem ajudar a modular o sistema imunológico e a inflamação, além de melhorar a taxa de sobrevida global. “Existem novas evidências de que pode haver um efeito direto", diz o oncologista.
"Nas células tumorais existem vários receptores e proteínas na membrana celular, e parece que essas classes de drogas também exercem alguma ação direta sobre elas. Esse efeito ainda está sendo estudado. Vale lembrar que não é uma evidência definitiva, ela ainda é indireta, mas também pode contribuir para esse controle”.
O câncer se desenvolve em um contexto inflamatório, que levam a erros de replicação das células. A ação dos análogos de GLP-1 poderia contribuir para reduzir esse risco. “O paciente com câncer, ou com maior risco para a doença, desenvolve o tumor em um ambiente de inflamação. Essas moléculas também parecem atuar na redução desse grau de inflamação proprício ao câncer”, reitera.
O especialista lembra que a ASCO é uma oportunidade para acompanhar a evolução dos tratamentos e grandes descobertas. Mais de sete mil estudos foram apresentados nesta edição, com destaque para o daraxonrasib, o primeiro medicamento a agir de forma efetiva contra o câncer do Pâncreas, um dos mais letais. O remédio bloqueia a proteína KRAS, que atua na proliferação das células cancerígenas.
“A oncologia é construída assim: ela vai somando conhecimento ao longo do tempo. Com certeza, tudo o que chega para a gente com dados tão importantes como esses amplia o nosso entendimento da doença e contribui para o controle de uma condição que ainda é tão desafiadora para o mundo”, diz.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
As pesquisas sobre o efeito do uso de canetas emagrecedoras no câncer começaram há cerca de cinco anos, e mais dados são necessários para confirmar o benefício. Mas os análogos de GLP-1 são uma pista inovadora na busca de novos tratamentos contra a doença.
Segundo o oncologista clínico brasileiro Paulo Henrique Costa, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, que também atua nos hospitais da Rede Mater Dei, os estudos são retrospectivos, o que significa que são menos representativos em termos estatísticos. “Não é um ensaio clínico randomizado. Nesse tipo de estudo, você divide os participantes em grupos: um recebe o tratamento, e outro, não, o que permite obter uma evidência muito mais sólida, quase irrefutável”.
Ele reitera a necessidade de outras pesquisas para confirmar a ação das moléculas em certos cânceres. Essa precaução, diz, é ainda mais necessária diante da existência de um mercado paralelo de canetas emagrecedoras, obtidas sem receita ou recomendação médica. Segundo o oncologista, controlar os fatores de risco ainda é a melhor maneira de prevenir o câncer e outras doenças. Isso inclui ter uma dieta adequada e o controle da obesidade, “sem sair usando esse medicamento de forma indiscriminada”, insiste o especialista, que participou do congresso.
“À medida que se reduz a obesidade, que é um fator de risco para o câncer, há benefício na redução da incidência da doença e em seu controle”, explica o especialista. O uso das canetas emagrecedoras, diz, tornou esse benefício “ainda mais evidente”. A taxa de incidência de câncer também parece ser menor nos pacientes que utilizam a medicação.
“No caso de pacientes que já têm câncer e fazem o uso, o desfecho oncológico parece melhor: a doença progride menos e há menor risco de aparecimento de metástases. Isso leva a pensar que, ao controlar o fator de risco obesidade, que é central, há avanço no controle oncológico. A doença progride menos e há menos metástases.”
O estudo apresentado no evento analisou dados de mais de 12 mil pacientes de várias regiões do mundo. Eles tinham diferentes tipos de câncer, que iam de estágios iniciais a intermediários. A pesquisa comparou pacientes tratados com análogos de GLP-1 (liraglutida, pramlintida, dulaglutida, tirzepatida, lixisenatida ou semaglutida) a outros que receberam outros tipos de medicação antidiabética, como os inibidores de DPP-4.
Os resultados mostraram redução significativa na progressão de metástases, especialmente em quatro tipos de câncer: pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado. Em outros tumores, como próstata, pâncreas e rim, houve tendência de benefício, mas sem significância estatística.
Os estudos preliminares apresentados durante o congresso da ASCO também indicam que, além de controlar a glicose e o peso, os agonistas de GLP-1 também podem ajudar a modular o sistema imunológico e a inflamação, além de melhorar a taxa de sobrevida global. “Existem novas evidências de que pode haver um efeito direto", diz o oncologista.
"Nas células tumorais existem vários receptores e proteínas na membrana celular, e parece que essas classes de drogas também exercem alguma ação direta sobre elas. Esse efeito ainda está sendo estudado. Vale lembrar que não é uma evidência definitiva, ela ainda é indireta, mas também pode contribuir para esse controle”.
O câncer se desenvolve em um contexto inflamatório, que levam a erros de replicação das células. A ação dos análogos de GLP-1 poderia contribuir para reduzir esse risco. “O paciente com câncer, ou com maior risco para a doença, desenvolve o tumor em um ambiente de inflamação. Essas moléculas também parecem atuar na redução desse grau de inflamação proprício ao câncer”, reitera.
O especialista lembra que a ASCO é uma oportunidade para acompanhar a evolução dos tratamentos e grandes descobertas. Mais de sete mil estudos foram apresentados nesta edição, com destaque para o daraxonrasib, o primeiro medicamento a agir de forma efetiva contra o câncer do Pâncreas, um dos mais letais. O remédio bloqueia a proteína KRAS, que atua na proliferação das células cancerígenas.
“A oncologia é construída assim: ela vai somando conhecimento ao longo do tempo. Com certeza, tudo o que chega para a gente com dados tão importantes como esses amplia o nosso entendimento da doença e contribui para o controle de uma condição que ainda é tão desafiadora para o mundo”, diz.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Um dos objetivos do estudo, publicado em maio na revista Journal of Experimental Biology, foi entender se os insetos que transmitem doenças são capazes de aprender e memorizar informações. Em diversos experimentos, os cientistas analisaram percevejos, vetores da doença de Chagas, e mosquitos, e observaram que eles podem se adaptar e reduzir sua sensibilidade ao repelente, o que sugere a presença de processos de aprendizagem cognitiva.
A equipe utilizou um protocolo clássico de psicologia experimental para condicionar os animais. Ele estabelece associações, como tocar uma campainha antes de oferecer comida, por exemplo. Esse método, explicam os cientistas, funciona com cães, mas também com abelhas, algumas espécies de moscas e outros bichos.
O problema é que, nesses estudos, os estímulos não têm significado negativo. O som de uma campainha não provoca nenhuma reação específica, apenas indica que é hora da comida. Já no caso dos repelentes, a reação instintiva do mosquito é escapar.
Para contornar esse problema, os pesquisadores ofereceram alimento ao mosquito e, em seguida, apresentaram o repelente. Esse tipo de protocolo é chamado, na psicologia experimental, de condicionamento invertido. Após vários testes, a estratégia deu certo. “Os mosquitos estavam tão estimulados a se alimentar que aceitaram o repelente sem escapar. Para eles, a comida e o cheiro do repelente eram percebidos ao mesmo tempo”, explica Claudio Lazzari.
O DEET passou a ser associado a algo positivo, como alimento. “Testamos com sangue, mas também com açúcar, já que os mosquitos têm alimentação dupla: consomem tanto néctar de flores quanto sangue. Nos dois casos, o sangue e o açúcar foram capazes de modificar o comportamento dos mosquitos diante do repelente”, detalha o entomólogo.
Durante o experimento, os pesquisadores colocaram uma fêmea de Aedes aegypti em um tubo isolado e ofereceram sangue de amostras disponíveis para a pesquisa. Após exatamente quatro picadas, os cientistas aplicaram o repelente por 10 segundos, com intervalos de 5 minutos.
Segundo Clement Vinauger, o sangue foi colocado atrás de uma membrana que imitava a pele, feita com uma barreira de um material parecido com parafina. Durante a experiência, o mosquito podia picar através da membrana e ingerir o sangue líquido, aquecido em um dispositivo criado para o experimento.
“Depois, controlamos a quantidade de alimento ingerida pelo mosquito cronometrando o tempo, ou seja, deixando-o se alimentar por um período determinado. Como os mosquitos comem, em média, a uma taxa semelhante, conseguimos associar duração e volume”, explica o neurocientista.
Cerca de 30 insetos participaram do estudo. De acordo com Claudio Lazzari, as experiências foram repetidas durante meses para validar dados estatísticos, e a conclusão é que, após se alimentarem com o sangue, os mosquitos mudaram sua percepção em relação ao repelente. Os resultados permitiram à equipe entender o que ocorre no cérebro do mosquito, explica o neurocientista Clement Vinauger.
A equipe pôde visualizar a atividade neuronal dos insetos por meio de técnicas de imagem ou utilizando a eletrofisiologia, que consiste em inserir eletrodos diretamente no cérebro do mosquito e registrar a atividade elétrica dos neurônios.
“O que também havíamos observado em nossos estudos com mosquitos é que o centro de integração da informação olfativa, ou seja, a parte do cérebro que recebe as informações das antenas, funciona da seguinte forma: todos os odores que o mosquito detecta são percebidos pelas antenas, e esses sinais convergem para estruturas específicas no cérebro", diz.
"Já nesse primeiro nível de transmissão, ocorre integração e modulação de como os odores são representados, dependendo de terem sido aprendidos ou não, ou de ter havido experiência prévia. Assim, temos uma ideia geral dos circuitos envolvidos nesse tipo de aprendizado.”
Esse aprendizado sensorial modifica a maneira como o mosquito percebe o repelente. A descoberta abre novas perspectivas sobre a capacidade de adaptação cognitiva dos insetos, mas é importante continuar usando repelente para se proteger, alertam Claudio Lazzari e Clement Vinauger.
O DEET continua sendo o principal e mais eficaz repelente, especialmente em áreas com risco de doenças como dengue, chikungunya e febre amarela, transmitidas pelo Aedes aegypti. Os resultados do estudo foram obtidos em laboratório e não indicam que mosquitos na natureza estejam desenvolvendo resistência ao produto.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Um dos objetivos do estudo, publicado em maio na revista Journal of Experimental Biology, foi entender se os insetos que transmitem doenças são capazes de aprender e memorizar informações. Em diversos experimentos, os cientistas analisaram percevejos, vetores da doença de Chagas, e mosquitos, e observaram que eles podem se adaptar e reduzir sua sensibilidade ao repelente, o que sugere a presença de processos de aprendizagem cognitiva.
A equipe utilizou um protocolo clássico de psicologia experimental para condicionar os animais. Ele estabelece associações, como tocar uma campainha antes de oferecer comida, por exemplo. Esse método, explicam os cientistas, funciona com cães, mas também com abelhas, algumas espécies de moscas e outros bichos.
O problema é que, nesses estudos, os estímulos não têm significado negativo. O som de uma campainha não provoca nenhuma reação específica, apenas indica que é hora da comida. Já no caso dos repelentes, a reação instintiva do mosquito é escapar.
Para contornar esse problema, os pesquisadores ofereceram alimento ao mosquito e, em seguida, apresentaram o repelente. Esse tipo de protocolo é chamado, na psicologia experimental, de condicionamento invertido. Após vários testes, a estratégia deu certo. “Os mosquitos estavam tão estimulados a se alimentar que aceitaram o repelente sem escapar. Para eles, a comida e o cheiro do repelente eram percebidos ao mesmo tempo”, explica Claudio Lazzari.
O DEET passou a ser associado a algo positivo, como alimento. “Testamos com sangue, mas também com açúcar, já que os mosquitos têm alimentação dupla: consomem tanto néctar de flores quanto sangue. Nos dois casos, o sangue e o açúcar foram capazes de modificar o comportamento dos mosquitos diante do repelente”, detalha o entomólogo.
Durante o experimento, os pesquisadores colocaram uma fêmea de Aedes aegypti em um tubo isolado e ofereceram sangue de amostras disponíveis para a pesquisa. Após exatamente quatro picadas, os cientistas aplicaram o repelente por 10 segundos, com intervalos de 5 minutos.
Segundo Clement Vinauger, o sangue foi colocado atrás de uma membrana que imitava a pele, feita com uma barreira de um material parecido com parafina. Durante a experiência, o mosquito podia picar através da membrana e ingerir o sangue líquido, aquecido em um dispositivo criado para o experimento.
“Depois, controlamos a quantidade de alimento ingerida pelo mosquito cronometrando o tempo, ou seja, deixando-o se alimentar por um período determinado. Como os mosquitos comem, em média, a uma taxa semelhante, conseguimos associar duração e volume”, explica o neurocientista.
Cerca de 30 insetos participaram do estudo. De acordo com Claudio Lazzari, as experiências foram repetidas durante meses para validar dados estatísticos, e a conclusão é que, após se alimentarem com o sangue, os mosquitos mudaram sua percepção em relação ao repelente. Os resultados permitiram à equipe entender o que ocorre no cérebro do mosquito, explica o neurocientista Clement Vinauger.
A equipe pôde visualizar a atividade neuronal dos insetos por meio de técnicas de imagem ou utilizando a eletrofisiologia, que consiste em inserir eletrodos diretamente no cérebro do mosquito e registrar a atividade elétrica dos neurônios.
“O que também havíamos observado em nossos estudos com mosquitos é que o centro de integração da informação olfativa, ou seja, a parte do cérebro que recebe as informações das antenas, funciona da seguinte forma: todos os odores que o mosquito detecta são percebidos pelas antenas, e esses sinais convergem para estruturas específicas no cérebro", diz.
"Já nesse primeiro nível de transmissão, ocorre integração e modulação de como os odores são representados, dependendo de terem sido aprendidos ou não, ou de ter havido experiência prévia. Assim, temos uma ideia geral dos circuitos envolvidos nesse tipo de aprendizado.”
Esse aprendizado sensorial modifica a maneira como o mosquito percebe o repelente. A descoberta abre novas perspectivas sobre a capacidade de adaptação cognitiva dos insetos, mas é importante continuar usando repelente para se proteger, alertam Claudio Lazzari e Clement Vinauger.
O DEET continua sendo o principal e mais eficaz repelente, especialmente em áreas com risco de doenças como dengue, chikungunya e febre amarela, transmitidas pelo Aedes aegypti. Os resultados do estudo foram obtidos em laboratório e não indicam que mosquitos na natureza estejam desenvolvendo resistência ao produto.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
As rotinas compartilhadas por influenciadores no Tiktok incluem dietas restritas, exercícios físicos intensos, suplementos e outros protocolos de "detox" para facilitar a gravidez. Os influenciadores recomendam, por exemplo, banir esmaltes que teriam metais pesados na composição, tintura de cabelo, roupas e até medicamentos. Para conhecer o fenômeno mais de perto, Pedro Porto acessou algumas das contas nas redes sociais que promovem a trend e preconizam rotinas espartanas.
“O que mais tenho visto são dietas muito restritivas, com grande redução calórica, associadas a exercícios em excesso e milimetricamente planejados. Há uma lógica de controle absoluto, como se a gestação fosse totalmente previsível e controlável”, explica. “Isso é preocupante porque cria uma falsa sensação de cuidado e de melhora da fertilidade. Mas muitas dessas práticas não têm base científica, e algumas podem ser prejudiciais, como a interrupção de medicações necessárias”, acrescenta o ginecologista.
“O que me chama atenção nessa tendência do TikTok são duas coisas. A primeira é o investimento crescente em radicalismo, com práticas bastante extremas. A segunda é que a medicina já estabelece que um casal jovem, sem problemas de saúde, com relações frequentes, em média quatro vezes por semana, e sem preservativo, pode levar até um ano para engravidar”, explica o ginecologista brasileiro.
Segundo ele, existem, sim, mudanças no estilo de vida que devem ser adotadas antes da concepção, mas o preparo do corpo é um conceito relativo. “Mudanças nos três meses anteriores à concepção são importantes. É válido pensar sobre alguns hábitos, mas essas mudanças não fazem sentido se não forem mantidas ao longo do período que pode ser necessário para uma gestação bem-sucedida”, afirma o ginecologista.
Há problemas de saúde como pré-eclâmpsia, obesidade ou diabetes gestacional que exigem monitoramento, mas a demanda pode ser simplesmente estética. Aí é que mora o perigo. Segundo Pedro Porto, a pressão pela imagem perfeita no Brasil leva algumas mulheres a tomar decisões que podem colocar em risco não só a própria saúde, mas também a do bebê.
De acordo com o ginecologista, uma revisão sistemática publicada na revista Human Reproduction Update, referência na área médica, mostrou que essas medidas radicais não melhoram a saúde reprodutiva. O estudo foi feito com 7.905 mulheres.
“Entre aquelas que já tinham boa saúde e qualidade de vida, intervenções feitas nos três meses antes da tentativa de engravidar não aumentaram a fertilidade nem reduziram as taxas de abortamento. Isso indica que, para mulheres saudáveis, esses protocolos mais radicais do chamado ‘trimestre zero’ não apresentam benefício significativo. A ciência disponível até o momento não sustenta a ideia de que essas mudanças tragam melhora relevante nos desfechos reprodutivos”, afirma o especialista.
O ginecologista brasileiro costuma atender em seu consultório pacientes que planejam manter o corpo perfeito durante a gravidez com exercícios intensos. “Uma das minhas pacientes, por exemplo, perguntou se poderia correr uma meia maratona entre as 25 e 30 semanas de gravidez. Também há gestantes muito preocupadas com o ganho de peso. Tivemos um caso de uma atleta que fazia crossfit, musculação e natação durante a gestação e precisou de intervenção não só na dieta, que era muito restritiva, como na carga de exercícios”, diz.
“Eu não costumo desencorajar atividade física. Ao contrário, geralmente incentivo, mas, nesse caso, foi necessário reduzir o treino por causa de uma restrição de crescimento fetal. Ou seja, o bebê não estava evoluindo como o esperado. Temos visto esse movimento no consultório, de encarar a gestação como situação de desempenho, no sentido esportivo do termo”, afirma o médico.
O ginecologista explica que muitas pacientes incluem o bebê nesse "pacote" de sucesso pessoal e minimizam os riscos naturais inerentes à gestação, como os abortos espontâneos. “O abortamento não é um evento raro, embora muitas pessoas tenham essa impressão. Ele é mais frequente do que parece, mas, por vergonha, questões psíquicas ou até por essa lógica de performance, muitas mulheres evitam falar sobre o tema. Isso faz parecer que se trata de algo incomum, quando não é.”
De acordo com ele, a principal causa de abortamento no primeiro trimestre é genética. O corpo humano está em constante evolução, e podem ocorrer alterações que não são compatíveis com a vida naquele momento, observa. "Há poucas intervenções capazes de reduzir de fato essa taxa. Muitas vezes, a paciente chega dizendo que quer ‘fazer tudo’ para evitar um novo abortamento, mas é importante esclarecer que existem medidas possíveis e outras que não dependem de intervenção médica", afirma.
Outro ponto importante, ressalta, é a chamada reserva ovariana, definida ainda na vida intrauterina. Ao longo da vida, há uma perda progressiva de óvulos. Em geral, a partir dos 35 anos, observa-se uma queda mais acentuada na quantidade e na qualidade. "Isso não significa que seja impossível engravidar depois dessa idade. Isso é possível e cada vez mais comum, mas pode ser mais difícil, o que exige um acompanhamento mais cuidadoso e planejamento.”
Para o especialista, o segredo é investir na educação e na luta contra a desinformação, trabalho que ele faz durante seus atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde de São Paulo. “Desmentir as informações que circulam e explicar para as pacientes faz parte do trabalho. Gosto muito de usar analogias, porque acredito que ensinar é justamente traduzir algo complexo, como a medicina, em uma linguagem simples, que qualquer pessoa consiga entender.”
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
As rotinas compartilhadas por influenciadores no Tiktok incluem dietas restritas, exercícios físicos intensos, suplementos e outros protocolos de "detox" para facilitar a gravidez. Os influenciadores recomendam, por exemplo, banir esmaltes que teriam metais pesados na composição, tintura de cabelo, roupas e até medicamentos. Para conhecer o fenômeno mais de perto, Pedro Porto acessou algumas das contas nas redes sociais que promovem a trend e preconizam rotinas espartanas.
“O que mais tenho visto são dietas muito restritivas, com grande redução calórica, associadas a exercícios em excesso e milimetricamente planejados. Há uma lógica de controle absoluto, como se a gestação fosse totalmente previsível e controlável”, explica. “Isso é preocupante porque cria uma falsa sensação de cuidado e de melhora da fertilidade. Mas muitas dessas práticas não têm base científica, e algumas podem ser prejudiciais, como a interrupção de medicações necessárias”, acrescenta o ginecologista.
“O que me chama atenção nessa tendência do TikTok são duas coisas. A primeira é o investimento crescente em radicalismo, com práticas bastante extremas. A segunda é que a medicina já estabelece que um casal jovem, sem problemas de saúde, com relações frequentes, em média quatro vezes por semana, e sem preservativo, pode levar até um ano para engravidar”, explica o ginecologista brasileiro.
Segundo ele, existem, sim, mudanças no estilo de vida que devem ser adotadas antes da concepção, mas o preparo do corpo é um conceito relativo. “Mudanças nos três meses anteriores à concepção são importantes. É válido pensar sobre alguns hábitos, mas essas mudanças não fazem sentido se não forem mantidas ao longo do período que pode ser necessário para uma gestação bem-sucedida”, afirma o ginecologista.
Há problemas de saúde como pré-eclâmpsia, obesidade ou diabetes gestacional que exigem monitoramento, mas a demanda pode ser simplesmente estética. Aí é que mora o perigo. Segundo Pedro Porto, a pressão pela imagem perfeita no Brasil leva algumas mulheres a tomar decisões que podem colocar em risco não só a própria saúde, mas também a do bebê.
De acordo com o ginecologista, uma revisão sistemática publicada na revista Human Reproduction Update, referência na área médica, mostrou que essas medidas radicais não melhoram a saúde reprodutiva. O estudo foi feito com 7.905 mulheres.
“Entre aquelas que já tinham boa saúde e qualidade de vida, intervenções feitas nos três meses antes da tentativa de engravidar não aumentaram a fertilidade nem reduziram as taxas de abortamento. Isso indica que, para mulheres saudáveis, esses protocolos mais radicais do chamado ‘trimestre zero’ não apresentam benefício significativo. A ciência disponível até o momento não sustenta a ideia de que essas mudanças tragam melhora relevante nos desfechos reprodutivos”, afirma o especialista.
O ginecologista brasileiro costuma atender em seu consultório pacientes que planejam manter o corpo perfeito durante a gravidez com exercícios intensos. “Uma das minhas pacientes, por exemplo, perguntou se poderia correr uma meia maratona entre as 25 e 30 semanas de gravidez. Também há gestantes muito preocupadas com o ganho de peso. Tivemos um caso de uma atleta que fazia crossfit, musculação e natação durante a gestação e precisou de intervenção não só na dieta, que era muito restritiva, como na carga de exercícios”, diz.
“Eu não costumo desencorajar atividade física. Ao contrário, geralmente incentivo, mas, nesse caso, foi necessário reduzir o treino por causa de uma restrição de crescimento fetal. Ou seja, o bebê não estava evoluindo como o esperado. Temos visto esse movimento no consultório, de encarar a gestação como situação de desempenho, no sentido esportivo do termo”, afirma o médico.
O ginecologista explica que muitas pacientes incluem o bebê nesse "pacote" de sucesso pessoal e minimizam os riscos naturais inerentes à gestação, como os abortos espontâneos. “O abortamento não é um evento raro, embora muitas pessoas tenham essa impressão. Ele é mais frequente do que parece, mas, por vergonha, questões psíquicas ou até por essa lógica de performance, muitas mulheres evitam falar sobre o tema. Isso faz parecer que se trata de algo incomum, quando não é.”
De acordo com ele, a principal causa de abortamento no primeiro trimestre é genética. O corpo humano está em constante evolução, e podem ocorrer alterações que não são compatíveis com a vida naquele momento, observa. "Há poucas intervenções capazes de reduzir de fato essa taxa. Muitas vezes, a paciente chega dizendo que quer ‘fazer tudo’ para evitar um novo abortamento, mas é importante esclarecer que existem medidas possíveis e outras que não dependem de intervenção médica", afirma.
Outro ponto importante, ressalta, é a chamada reserva ovariana, definida ainda na vida intrauterina. Ao longo da vida, há uma perda progressiva de óvulos. Em geral, a partir dos 35 anos, observa-se uma queda mais acentuada na quantidade e na qualidade. "Isso não significa que seja impossível engravidar depois dessa idade. Isso é possível e cada vez mais comum, mas pode ser mais difícil, o que exige um acompanhamento mais cuidadoso e planejamento.”
Para o especialista, o segredo é investir na educação e na luta contra a desinformação, trabalho que ele faz durante seus atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde de São Paulo. “Desmentir as informações que circulam e explicar para as pacientes faz parte do trabalho. Gosto muito de usar analogias, porque acredito que ensinar é justamente traduzir algo complexo, como a medicina, em uma linguagem simples, que qualquer pessoa consiga entender.”
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
O anticorpo NP 137 atua como um tratamento coadjuvante e é capaz de bloquear um dos mecanismos de resistência das células cancerígenas, explicou o pesquisador Patrick Mehlen, que liderou a equipe de cientistas do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), do Centro Léon Bérard e da Universidade Claude Bernard Lyon 1, que realizou a pesquisa. Os resultados foram publicados em abril na revista científica Nature.
A terapia, ainda em fase de testes clínicos, poderá ser associada ao daraxonrasib, novo medicamento que promete revolucionar o tratamento contra a doença, apresentado durante o congresso da Associação Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que ocorreu no fim de maio. A nova molécula atua nas mutações do gene KRAS, presentes em cerca de 90% dos pacientes que têm câncer de pâncreas.
A sigla KRAS (Kirsten Rat Sarcoma) é uma referência à pesquisa sobre vírus que causavam câncer em ratos, que resultou na descoberta do oncogene, nos anos 80. A expectativa é que o daraxonrasib esteja disponível já em 2027.
“Nossa descoberta abre muitas perspectivas para o tratamento de pacientes com câncer de pâncreas. Nosso anticorpo não concorre com o daraxonrasib, eles estão em sinergia. A ideia no futuro é justamente associar essas duas moléculas para ampliar ainda mais a sobrevida dos pacientes.”
Avaliado pela equipe do cientista francês em um ensaio clínico de fase 1b, o anticorpo melhorou a resposta dos pacientes à quimioterapia e aumentou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas localmente avançado, com contraindicação para cirurgia.
“Nossa pesquisa está centrada em um processo celular importante durante o desenvolvimento embrionário e mais especificamente por um mecanismo que permite que as células se desloquem. Esse processo tem um nome um pouco técnico, chamado EMT, transição epitélio-mesenquimal. É um termo complicado, mas, basicamente, ele permite que a célula mude de forma e saia de um lugar para ir para outro. Ele é essencial durante o desenvolvimento.”
Pesquisas anteriores mostraram que, graças a esse processo, as células tumorais se tornam mais móveis, invadem outros tecidos e formam metástases. No estudo, os pesquisadores franceses descreveram como uma proteína chamada netrina‑1 influencia esse mecanismo e ajuda as células cancerígenas a adquirir a capacidade de migrar e resistir aos tratamentos. A equipe então desenvolveu um anticorpo terapêutico capaz de inibir sua ação. Após a fase pré-clínica, o tratamento foi testado em 43 pacientes.
“O estudo não revelou sinais de toxicidade. O anticorpo foi administrado de maneira isolada, e os pacientes incluídos geralmente estavam em estágio avançado da doença, muitas vezes sem outras opções terapêuticas. A fase 1 reúne pacientes voluntários, que aceitam receber o tratamento principalmente com o objetivo de contribuir para a pesquisa.”
A ausência de toxicidade era esperada e em alguns pacientes, os cânceres até mesmo diminuíram. Após as análises de biópsias tumorais antes e depois do tratamento, os cientistas também verificaram que o anticorpo bloqueava os processos celulares que levam ao câncer e melhorava a resposta à quimioterapia.
“Combinamos a quimioterapia com o nosso anticorpo. O estudo foi conduzido com 43 pacientes com câncer de pâncreas chamado localmente avançado, ou seja, quando o tumor já se espalhou dentro do pâncreas, mas ainda não atingiu outros órgãos. Nós os tratamos com quimioterapia associada ao anticorpo que desenvolvemos.”
Os cientistas também observaram que, nos pacientes que apresentam o receptor da netrina‑1, a sobrevida aumentou e houve menos recaídas após a quimioterapia. Os dados mais recentes, apresentados no congresso da ASCO, em Chicago, mostram que o anticorpo permite que a quimioterapia funcione por mais tempo e com maior eficácia. A quimioterapia e as imunoterapias tendem a eliminar células que se multiplicam rapidamente, mas algumas células cancerígenas se tornam menos sensíveis aos medicamentos.
O número de pacientes que podem ser operados após o tratamento também cresceu. Em geral, apenas cerca de 6% das pessoas com câncer de pâncreas avançado se beneficiam da cirurgia após a quimioterapia. Esse número chega a 23% no total e pode atingir 40% entre aqueles que apresentam o receptor da netrina‑1.
A próxima etapa da pesquisa, que deve durar alguns anos, é comparar os resultados da quimioterapia isolada com os da quimioterapia combinada, incluindo o novo anticorpo. Além do câncer de pâncreas, o tratamento também poderá ser aplicado a outros tipos de tumor, como os de cabeça e pescoço, combinando o anticorpo com imunoterapia.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
O anticorpo NP 137 atua como um tratamento coadjuvante e é capaz de bloquear um dos mecanismos de resistência das células cancerígenas, explicou o pesquisador Patrick Mehlen, que liderou a equipe de cientistas do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), do Centro Léon Bérard e da Universidade Claude Bernard Lyon 1, que realizou a pesquisa. Os resultados foram publicados em abril na revista científica Nature.
A terapia, ainda em fase de testes clínicos, poderá ser associada ao daraxonrasib, novo medicamento que promete revolucionar o tratamento contra a doença, apresentado durante o congresso da Associação Americana de Oncologia Clínica (ASCO), que ocorreu no fim de maio. A nova molécula atua nas mutações do gene KRAS, presentes em cerca de 90% dos pacientes que têm câncer de pâncreas.
A sigla KRAS (Kirsten Rat Sarcoma) é uma referência à pesquisa sobre vírus que causavam câncer em ratos, que resultou na descoberta do oncogene, nos anos 80. A expectativa é que o daraxonrasib esteja disponível já em 2027.
“Nossa descoberta abre muitas perspectivas para o tratamento de pacientes com câncer de pâncreas. Nosso anticorpo não concorre com o daraxonrasib, eles estão em sinergia. A ideia no futuro é justamente associar essas duas moléculas para ampliar ainda mais a sobrevida dos pacientes.”
Avaliado pela equipe do cientista francês em um ensaio clínico de fase 1b, o anticorpo melhorou a resposta dos pacientes à quimioterapia e aumentou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas localmente avançado, com contraindicação para cirurgia.
“Nossa pesquisa está centrada em um processo celular importante durante o desenvolvimento embrionário e mais especificamente por um mecanismo que permite que as células se desloquem. Esse processo tem um nome um pouco técnico, chamado EMT, transição epitélio-mesenquimal. É um termo complicado, mas, basicamente, ele permite que a célula mude de forma e saia de um lugar para ir para outro. Ele é essencial durante o desenvolvimento.”
Pesquisas anteriores mostraram que, graças a esse processo, as células tumorais se tornam mais móveis, invadem outros tecidos e formam metástases. No estudo, os pesquisadores franceses descreveram como uma proteína chamada netrina‑1 influencia esse mecanismo e ajuda as células cancerígenas a adquirir a capacidade de migrar e resistir aos tratamentos. A equipe então desenvolveu um anticorpo terapêutico capaz de inibir sua ação. Após a fase pré-clínica, o tratamento foi testado em 43 pacientes.
“O estudo não revelou sinais de toxicidade. O anticorpo foi administrado de maneira isolada, e os pacientes incluídos geralmente estavam em estágio avançado da doença, muitas vezes sem outras opções terapêuticas. A fase 1 reúne pacientes voluntários, que aceitam receber o tratamento principalmente com o objetivo de contribuir para a pesquisa.”
A ausência de toxicidade era esperada e em alguns pacientes, os cânceres até mesmo diminuíram. Após as análises de biópsias tumorais antes e depois do tratamento, os cientistas também verificaram que o anticorpo bloqueava os processos celulares que levam ao câncer e melhorava a resposta à quimioterapia.
“Combinamos a quimioterapia com o nosso anticorpo. O estudo foi conduzido com 43 pacientes com câncer de pâncreas chamado localmente avançado, ou seja, quando o tumor já se espalhou dentro do pâncreas, mas ainda não atingiu outros órgãos. Nós os tratamos com quimioterapia associada ao anticorpo que desenvolvemos.”
Os cientistas também observaram que, nos pacientes que apresentam o receptor da netrina‑1, a sobrevida aumentou e houve menos recaídas após a quimioterapia. Os dados mais recentes, apresentados no congresso da ASCO, em Chicago, mostram que o anticorpo permite que a quimioterapia funcione por mais tempo e com maior eficácia. A quimioterapia e as imunoterapias tendem a eliminar células que se multiplicam rapidamente, mas algumas células cancerígenas se tornam menos sensíveis aos medicamentos.
O número de pacientes que podem ser operados após o tratamento também cresceu. Em geral, apenas cerca de 6% das pessoas com câncer de pâncreas avançado se beneficiam da cirurgia após a quimioterapia. Esse número chega a 23% no total e pode atingir 40% entre aqueles que apresentam o receptor da netrina‑1.
A próxima etapa da pesquisa, que deve durar alguns anos, é comparar os resultados da quimioterapia isolada com os da quimioterapia combinada, incluindo o novo anticorpo. Além do câncer de pâncreas, o tratamento também poderá ser aplicado a outros tipos de tumor, como os de cabeça e pescoço, combinando o anticorpo com imunoterapia.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Segundo a cirurgiã vascular Nathassia Domingues, uma das principais características do Lipedema é o padrão desigual de distribuição da gordura. A parte superior do corpo pode permanecer relativamente fina, mas pernas e quadris apresentam aumento de volume resistente a dietas e exercícios físicos.
“É uma alteração que muitas mulheres já tinham, mas não sabiam que era um problema, e ele acabava sendo perpetuado. Trata-se de uma doença crônica e inflamatória, caracterizada pelo acúmulo de gordura, principalmente nas pernas, de forma desproporcional”, explica Nathassia Domingues.
“É uma gordura doente, inflamatória. Geralmente, são mulheres que acabam sendo rotuladas, com coxas e quadris mais largos e cintura mais fina. Muitas descrevem essa desproporção como a sensação de serem uma pessoa da cintura para cima e outra da cintura para baixo”, acrescenta.
Além do aspecto estético, a condição costuma provocar sintomas físicos, como dor, sensação de peso, inchaço, cansaço e sensibilidade ao toque. Hematomas espontâneos também são comuns. O diagnóstico é clínico e depende da avaliação de um profissional com experiência na doença. Ainda assim, há grande desconhecimento, inclusive entre médicos. "Há alguns exames que nos auxiliam, nos direcionam, mas não dá para fechar o diagnóstico de lipedema e sim para complementação de outros diagnósticos diferenciais.
A origem do lipedema envolve fatores genéticos e hormonais, e a estimativa é de que cerca de 12% das mulheres tenham a doença. A puberdade, a gravidez e a menopausa são descritas como possíveis gatilhos para o agravamento dos sintomas.
“Os gatilhos para a piora dos sintomas geralmente estão ligados às fases da vida da mulher em que há oscilação hormonal. Isso acontece na menarca, na primeira menstruação, durante a gravidez, na menopausa ou em tratamentos com influência hormonal”, explica a cirurgiã vascular.
O quadro pode estar associado a outras condições, como varizes, que estão presentes em cerca de metade das pacientes, embora nem sempre haja comprometimento vascular. O tratamento visa controlar a doença e melhorar a qualidade de vida, adotando uma alimentação equilibrada, com restrição de alimentos considerados inflamatórios — como glúten, açúcar, álcool, ultraprocessados.
A prática de atividade física também é recomendada, especialmente exercícios de baixo impacto, como hidroginástica, natação e caminhada na água. “O tratamento não envolve uma única solução específica. Muitas mulheres chegam buscando, por exemplo, a lipoaspiração, dizendo: ‘tire essa gordura, porque a dor incomoda muito e limita a qualidade de vida’", explica a cirurgiã.
"É importante entender que se trata de uma doença sem cura. Muitas pacientes são acompanhadas de forma conservadora, ou seja, com tratamento clínico, sem necessidade de cirurgia. Inclusive, hoje, muitos cirurgiões plásticos também concordam com essa abordagem, destacando a importância de desinflamar essa gordura”, explica.
A fisioterapia, com técnicas específicas de drenagem linfática, pode contribuir para aliviar sintomas. O uso de meias ou leggins de compressão entre outras terapias também ajuda a controlar o desconforto e a dor. A utilização de canetas emagrecedoras é alvo de estudos, mas ainda sem indicação formal para o lipedema.
A falta de informação também abre espaço para tratamentos alternativos, com promessas de resultados rápidos. A especialista alerta para a importância de acompanhamento médico e pede cautela com soluções “milagrosas” divulgadas nas redes. A cirurgiã reitera que existem muitas soluções médicas que ajudam a minimizar o desconforto. "As pacientes descrevem o diagnóstico e tratamento como 'libertador'", resume a especialista.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Segundo a cirurgiã vascular Nathassia Domingues, uma das principais características do Lipedema é o padrão desigual de distribuição da gordura. A parte superior do corpo pode permanecer relativamente fina, mas pernas e quadris apresentam aumento de volume resistente a dietas e exercícios físicos.
“É uma alteração que muitas mulheres já tinham, mas não sabiam que era um problema, e ele acabava sendo perpetuado. Trata-se de uma doença crônica e inflamatória, caracterizada pelo acúmulo de gordura, principalmente nas pernas, de forma desproporcional”, explica Nathassia Domingues.
“É uma gordura doente, inflamatória. Geralmente, são mulheres que acabam sendo rotuladas, com coxas e quadris mais largos e cintura mais fina. Muitas descrevem essa desproporção como a sensação de serem uma pessoa da cintura para cima e outra da cintura para baixo”, acrescenta.
Além do aspecto estético, a condição costuma provocar sintomas físicos, como dor, sensação de peso, inchaço, cansaço e sensibilidade ao toque. Hematomas espontâneos também são comuns. O diagnóstico é clínico e depende da avaliação de um profissional com experiência na doença. Ainda assim, há grande desconhecimento, inclusive entre médicos. "Há alguns exames que nos auxiliam, nos direcionam, mas não dá para fechar o diagnóstico de lipedema e sim para complementação de outros diagnósticos diferenciais.
A origem do lipedema envolve fatores genéticos e hormonais, e a estimativa é de que cerca de 12% das mulheres tenham a doença. A puberdade, a gravidez e a menopausa são descritas como possíveis gatilhos para o agravamento dos sintomas.
“Os gatilhos para a piora dos sintomas geralmente estão ligados às fases da vida da mulher em que há oscilação hormonal. Isso acontece na menarca, na primeira menstruação, durante a gravidez, na menopausa ou em tratamentos com influência hormonal”, explica a cirurgiã vascular.
O quadro pode estar associado a outras condições, como varizes, que estão presentes em cerca de metade das pacientes, embora nem sempre haja comprometimento vascular. O tratamento visa controlar a doença e melhorar a qualidade de vida, adotando uma alimentação equilibrada, com restrição de alimentos considerados inflamatórios — como glúten, açúcar, álcool, ultraprocessados.
A prática de atividade física também é recomendada, especialmente exercícios de baixo impacto, como hidroginástica, natação e caminhada na água. “O tratamento não envolve uma única solução específica. Muitas mulheres chegam buscando, por exemplo, a lipoaspiração, dizendo: ‘tire essa gordura, porque a dor incomoda muito e limita a qualidade de vida’", explica a cirurgiã.
"É importante entender que se trata de uma doença sem cura. Muitas pacientes são acompanhadas de forma conservadora, ou seja, com tratamento clínico, sem necessidade de cirurgia. Inclusive, hoje, muitos cirurgiões plásticos também concordam com essa abordagem, destacando a importância de desinflamar essa gordura”, explica.
A fisioterapia, com técnicas específicas de drenagem linfática, pode contribuir para aliviar sintomas. O uso de meias ou leggins de compressão entre outras terapias também ajuda a controlar o desconforto e a dor. A utilização de canetas emagrecedoras é alvo de estudos, mas ainda sem indicação formal para o lipedema.
A falta de informação também abre espaço para tratamentos alternativos, com promessas de resultados rápidos. A especialista alerta para a importância de acompanhamento médico e pede cautela com soluções “milagrosas” divulgadas nas redes. A cirurgiã reitera que existem muitas soluções médicas que ajudam a minimizar o desconforto. "As pacientes descrevem o diagnóstico e tratamento como 'libertador'", resume a especialista.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
O estudo coletou o choro de cerca de 20 crianças, entre meninos e meninas, entre 2018 e 2019. As gravações foram feitas, por exemplo, quando os bebês tomavam vacina ou durante os primeiros banhos, uma situação potencialmente estressante. Ao todo, 80 homens e mulheres, com ou sem filhos, participaram da pesquisa e foram submetidos a exames de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto ouviam os áudios. Os participantes permaneceram cerca de uma hora dentro do aparelho, ouvindo choros de bebês que não conheciam.
"Tentamos identificar as áreas cerebrais relacionadas a esse aprendizado e verificar se existiam diferenças relevantes entre os pais e as mães", explica o cientista francês. O objetivo dos exames de imagem era comparar como os participantes reagiam aos sons dos choros dos recém-nascidos.
Os choros de dor utilizados na pesquisa têm uma “marca” característica que ativa certas regiões cerebrais. “Durante a ressonância magnética, fizemos essa comparação com os pais, as mães, os homens com ou sem filhos e as mulheres com ou sem filhos. Nosso objetivo era identificar quais circuitos 'despertam' quando ouvimos esses sons.”
Essa escuta ativou um grande conjunto de estruturas no cérebro dos participantes, sem grandes diferenças, diz o neurocientista. O fator determinante é o tempo dedicado aos cuidados com a criança, um aprendizado que é construído no dia a dia com o bebê. A inclusão de pais e mães no estudo, diz Camille Fauchon, é inédita, embora pesquisas anteriores, de 2017, já tenham mostrado que ambos são igualmente capazes de reconhecer o choro de seus filhos.
A natureza é sábia, explica o pesquisador: em termos acústicos, esse choro rouco típico dos bebês, quase aversivo, é feito para despertar a atenção dos adultos, que vão agir para acalmar o desconforto ou a dor da criança. "Isso é bastante lógico. Vivemos em grupo, criamos nossos filhos coletivamente e temos empatia uns pelos outros. Por isso, todos somos capazes de reconhecer esse choro."
A parentalidade, ou o contato diário com o recém-nascido, contribui para especializar um circuito cerebral já presente em todos os indivíduos, tornando-o mais sensível e rápido na interpretação desses sinais, reitera Camille Fauchon.
Em primeiro lugar, entra em ação o sistema auditivo, localizado nos lobos temporais, responsável por decodificar os sons. Na sequência, são ativadas regiões ligadas à empatia, sobretudo nas áreas frontoparietais. Essas áreas permitem integrar as informações e se colocar no lugar do outro para compreender, no caso, que se trata de um bebê em sofrimento.
O cérebro também reage emocionalmente. Estruturas como a amígdala cerebral e a chamada ínsula anterior entram em funcionamento, gerando uma resposta afetiva ao choro, ao mesmo tempo em que contribuem para regular essa emoção. Outra rede importante é a chamada "vigilância parental". Ela envolve regiões subcorticais e límbicas antigas, como o núcleo caudado, relacionadas à orientação da atenção e à iniciativa de cuidado.
O nível de empatia individual desempenha um papel central na reação dos adultos e vai condicionar essa resposta. "Quanto mais empatia temos, maior será a ativação de certas estruturas cerebrais diante do choro de um bebê", acrescenta o cientista francês.
A conclusão é que, de uma forma geral, homens e mulheres possuem a mesma base neural para interpretar o choro de um bebê. A experiência de contato com esses choros leva à especialização de certos circuitos neurais, independentemente do gênero.
Os dados reforçam a importância da plasticidade cerebral, definida como a capacidade de o cérebro se modificar ao longo do tempo em função das experiências e características individuais. A próxima etapa, explica o pesquisador, é estudar a reação cerebral ao choro de bebês conhecidos e descobrir se, de fato, essa familiaridade influencia a capacidade de identificar se há dor ou incômodo.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
O estudo coletou o choro de cerca de 20 crianças, entre meninos e meninas, entre 2018 e 2019. As gravações foram feitas, por exemplo, quando os bebês tomavam vacina ou durante os primeiros banhos, uma situação potencialmente estressante. Ao todo, 80 homens e mulheres, com ou sem filhos, participaram da pesquisa e foram submetidos a exames de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto ouviam os áudios. Os participantes permaneceram cerca de uma hora dentro do aparelho, ouvindo choros de bebês que não conheciam.
"Tentamos identificar as áreas cerebrais relacionadas a esse aprendizado e verificar se existiam diferenças relevantes entre os pais e as mães", explica o cientista francês. O objetivo dos exames de imagem era comparar como os participantes reagiam aos sons dos choros dos recém-nascidos.
Os choros de dor utilizados na pesquisa têm uma “marca” característica que ativa certas regiões cerebrais. “Durante a ressonância magnética, fizemos essa comparação com os pais, as mães, os homens com ou sem filhos e as mulheres com ou sem filhos. Nosso objetivo era identificar quais circuitos 'despertam' quando ouvimos esses sons.”
Essa escuta ativou um grande conjunto de estruturas no cérebro dos participantes, sem grandes diferenças, diz o neurocientista. O fator determinante é o tempo dedicado aos cuidados com a criança, um aprendizado que é construído no dia a dia com o bebê. A inclusão de pais e mães no estudo, diz Camille Fauchon, é inédita, embora pesquisas anteriores, de 2017, já tenham mostrado que ambos são igualmente capazes de reconhecer o choro de seus filhos.
A natureza é sábia, explica o pesquisador: em termos acústicos, esse choro rouco típico dos bebês, quase aversivo, é feito para despertar a atenção dos adultos, que vão agir para acalmar o desconforto ou a dor da criança. "Isso é bastante lógico. Vivemos em grupo, criamos nossos filhos coletivamente e temos empatia uns pelos outros. Por isso, todos somos capazes de reconhecer esse choro."
A parentalidade, ou o contato diário com o recém-nascido, contribui para especializar um circuito cerebral já presente em todos os indivíduos, tornando-o mais sensível e rápido na interpretação desses sinais, reitera Camille Fauchon.
Em primeiro lugar, entra em ação o sistema auditivo, localizado nos lobos temporais, responsável por decodificar os sons. Na sequência, são ativadas regiões ligadas à empatia, sobretudo nas áreas frontoparietais. Essas áreas permitem integrar as informações e se colocar no lugar do outro para compreender, no caso, que se trata de um bebê em sofrimento.
O cérebro também reage emocionalmente. Estruturas como a amígdala cerebral e a chamada ínsula anterior entram em funcionamento, gerando uma resposta afetiva ao choro, ao mesmo tempo em que contribuem para regular essa emoção. Outra rede importante é a chamada "vigilância parental". Ela envolve regiões subcorticais e límbicas antigas, como o núcleo caudado, relacionadas à orientação da atenção e à iniciativa de cuidado.
O nível de empatia individual desempenha um papel central na reação dos adultos e vai condicionar essa resposta. "Quanto mais empatia temos, maior será a ativação de certas estruturas cerebrais diante do choro de um bebê", acrescenta o cientista francês.
A conclusão é que, de uma forma geral, homens e mulheres possuem a mesma base neural para interpretar o choro de um bebê. A experiência de contato com esses choros leva à especialização de certos circuitos neurais, independentemente do gênero.
Os dados reforçam a importância da plasticidade cerebral, definida como a capacidade de o cérebro se modificar ao longo do tempo em função das experiências e características individuais. A próxima etapa, explica o pesquisador, é estudar a reação cerebral ao choro de bebês conhecidos e descobrir se, de fato, essa familiaridade influencia a capacidade de identificar se há dor ou incômodo.
]]>Embora o termo seja constantemente banalizado, a hipocondria interfere na qualidade de vida e gera sofrimento psíquico. O hipocondríaco tende a interpretar sensações comuns do corpo como sinais de doenças graves. Um leve desconforto pode se transformar, em sua percepção, em um indício de problema sério de saúde.
Essa atenção constante leva a uma vigilância excessiva do próprio corpo e à busca incessante por consultas médicas e exames. E, mesmo se os resultados estiverem todos em ordem, isso não é suficiente para acalmar o paciente.
No dia a dia, a preocupação com a saúde também pode comprometer atividades profissionais e sociais. A internet contribui para a “neura” e se torna o espaço ideal para o hipocondríaco buscar informações médicas, fazer associações que não têm necessariamente relação de causa e efeito e inventar diagnósticos.
O transtorno pode estar associado a outros quadros de ansiedade, a situações de estresse ou a experiências pessoais, como o convívio com doenças graves na família.
A hipocondria tem tratamento, e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais utilizadas. O método busca ajudar o paciente a identificar padrões de pensamento distorcidos, compreender suas origens e desenvolver novas formas de interpretar as sensações corporais.
O paciente pode demorar para buscar ajuda porque nem sempre tem consciência do problema, explica a psiquiatra Sarah Smadja, que atua no Hospital Sainte-Anne (GHU Paris Psiquiatria e Neurociências) e também é perita judicial.
“Na verdade, não é tão simples admitir que está na hora de consultar um psiquiatra. Os pacientes têm consciência de que existe um medo exagerado e um excesso de consultas médicas e de exames, que, num primeiro momento, tranquilizam, mas não impedem novas consultas, já que o medo excessivo sempre volta.”
Essa dúvida permanente do hipocondríaco sobre seu estado de saúde envolve fatores biológicos e psicológicos, diz a psiquiatra. O nível de ansiedade depende também de elementos ambientais.
“Ocorre o que chamamos de gatilhos: acontecimentos que se somam ao estresse, ao desânimo e vão gerar esses picos de angústia, que contribuem para a manifestação da doença. Esse processo pode induzir a um comportamento quase delirante, que acaba ultrapassando a hipocondria e se transformando em outra patologia.”
“É uma angústia, um medo, mas um medo avassalador, excessivo, em que o paciente estará atento ao seu corpo e interpretará os sinais de maneira exagerada. Esse é o mecanismo.” Essa angústia pode levar a sintomas corporais, como suores ou palpitações, por exemplo, que vão corroborar a hipótese da existência de uma doença grave.
Ela lembra que o transtorno pode, basicamente, se manifestar de duas maneiras: o paciente consulta demais ou então nunca vai ao médico, temendo o diagnóstico.
Existe um elo entre o corpo e a mente, capaz de provocar reações orgânicas. É exatamente esse o círculo vicioso vivenciado por um hipocondríaco, diz a psiquiatra.
A apresentadora francesa Agathe Lecaron sofre de hipocondria e escreveu o livro “Paciente Zero”, em tradução livre. Os primeiros sintomas apareceram na infância. Ela se lembra de que, aos oito anos, costumava consultar o dicionário para buscar a definição de algumas “sensações”, como a taquicardia.
A francesa cita algumas de suas supostas doenças, que integram uma longa lista de diagnósticos improváveis.
“Tive muito medo de estar com câncer neuroendócrino, câncer do maxilar, tive uma hepatite C — mas, nesse caso, foi um erro do laboratório; o resultado indicava hepatite C positiva. Grávida, acreditei que estava com todas as doenças possíveis desse período. Meu filho teve todas as doenças possíveis, e também tive muito medo de estar com esclerose múltipla”, conta.
Patologias que, na verdade, nunca existiram. Mas a ansiedade e o estresse afetavam seu sono, e ela sentia sintomas reais, que podiam, de fato, estar presentes em várias doenças. No auge da ansiedade, ela chegou ao ponto de fazer um exame PET para câncer e perguntar aos pacientes na sala de espera se o tratamento deles tinha dado certo. Hoje, diz sentir vergonha desse episódio.
“O que é complicado na hipocondria é o mito do doente imaginário, como na peça de Molière. Como o próprio nome diz, o doente imaginário imagina, então não tem nada grave, já que a pessoa de fato nunca está doente. Mas a hipocondria, por si só, é uma doença”, conclui.
]]>Embora o termo seja constantemente banalizado, a hipocondria interfere na qualidade de vida e gera sofrimento psíquico. O hipocondríaco tende a interpretar sensações comuns do corpo como sinais de doenças graves. Um leve desconforto pode se transformar, em sua percepção, em um indício de problema sério de saúde.
Essa atenção constante leva a uma vigilância excessiva do próprio corpo e à busca incessante por consultas médicas e exames. E, mesmo se os resultados estiverem todos em ordem, isso não é suficiente para acalmar o paciente.
No dia a dia, a preocupação com a saúde também pode comprometer atividades profissionais e sociais. A internet contribui para a “neura” e se torna o espaço ideal para o hipocondríaco buscar informações médicas, fazer associações que não têm necessariamente relação de causa e efeito e inventar diagnósticos.
O transtorno pode estar associado a outros quadros de ansiedade, a situações de estresse ou a experiências pessoais, como o convívio com doenças graves na família.
A hipocondria tem tratamento, e a terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais utilizadas. O método busca ajudar o paciente a identificar padrões de pensamento distorcidos, compreender suas origens e desenvolver novas formas de interpretar as sensações corporais.
O paciente pode demorar para buscar ajuda porque nem sempre tem consciência do problema, explica a psiquiatra Sarah Smadja, que atua no Hospital Sainte-Anne (GHU Paris Psiquiatria e Neurociências) e também é perita judicial.
“Na verdade, não é tão simples admitir que está na hora de consultar um psiquiatra. Os pacientes têm consciência de que existe um medo exagerado e um excesso de consultas médicas e de exames, que, num primeiro momento, tranquilizam, mas não impedem novas consultas, já que o medo excessivo sempre volta.”
Essa dúvida permanente do hipocondríaco sobre seu estado de saúde envolve fatores biológicos e psicológicos, diz a psiquiatra. O nível de ansiedade depende também de elementos ambientais.
“Ocorre o que chamamos de gatilhos: acontecimentos que se somam ao estresse, ao desânimo e vão gerar esses picos de angústia, que contribuem para a manifestação da doença. Esse processo pode induzir a um comportamento quase delirante, que acaba ultrapassando a hipocondria e se transformando em outra patologia.”
“É uma angústia, um medo, mas um medo avassalador, excessivo, em que o paciente estará atento ao seu corpo e interpretará os sinais de maneira exagerada. Esse é o mecanismo.” Essa angústia pode levar a sintomas corporais, como suores ou palpitações, por exemplo, que vão corroborar a hipótese da existência de uma doença grave.
Ela lembra que o transtorno pode, basicamente, se manifestar de duas maneiras: o paciente consulta demais ou então nunca vai ao médico, temendo o diagnóstico.
Existe um elo entre o corpo e a mente, capaz de provocar reações orgânicas. É exatamente esse o círculo vicioso vivenciado por um hipocondríaco, diz a psiquiatra.
A apresentadora francesa Agathe Lecaron sofre de hipocondria e escreveu o livro “Paciente Zero”, em tradução livre. Os primeiros sintomas apareceram na infância. Ela se lembra de que, aos oito anos, costumava consultar o dicionário para buscar a definição de algumas “sensações”, como a taquicardia.
A francesa cita algumas de suas supostas doenças, que integram uma longa lista de diagnósticos improváveis.
“Tive muito medo de estar com câncer neuroendócrino, câncer do maxilar, tive uma hepatite C — mas, nesse caso, foi um erro do laboratório; o resultado indicava hepatite C positiva. Grávida, acreditei que estava com todas as doenças possíveis desse período. Meu filho teve todas as doenças possíveis, e também tive muito medo de estar com esclerose múltipla”, conta.
Patologias que, na verdade, nunca existiram. Mas a ansiedade e o estresse afetavam seu sono, e ela sentia sintomas reais, que podiam, de fato, estar presentes em várias doenças. No auge da ansiedade, ela chegou ao ponto de fazer um exame PET para câncer e perguntar aos pacientes na sala de espera se o tratamento deles tinha dado certo. Hoje, diz sentir vergonha desse episódio.
“O que é complicado na hipocondria é o mito do doente imaginário, como na peça de Molière. Como o próprio nome diz, o doente imaginário imagina, então não tem nada grave, já que a pessoa de fato nunca está doente. Mas a hipocondria, por si só, é uma doença”, conclui.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Para o infectologista francês Jean Paul Stahl, membro da SPIL (Sociedade Francesa de Infectologia), e professor de doenças infecciosas e tropicais no CHU (Centro Hospitalar Universitário) de Grenoble, esse esvaziamento se explica pela “precipitação” das autoridades francesas. Segundo ele, a propagação em massa do hantavírus é uma hipótese que poderia ter sido descartada desde o início. Houve “excesso” na comunicação, além de “perda de sangue-frio”.
“É um vírus conhecido há décadas, alvo de publicações científicas há muito tempo. Há uma recomendação das autoridades sanitárias americanas, por exemplo, que data de 2007, e os cientistas conhecem perfeitamente esse vírus desde então. Nesse caso, não há nada de novo. Algumas pessoas se contaminaram, como outras se contaminam regularmente na América do Sul.”
O navio de cruzeiro MV Hondius chegou nesta segunda-feira (18) ao porto de Roterdã, encerrando seu périplo de quase 50 dias, após uma etapa nas Ilhas Canárias para o desembarque dos passageiros e de parte da tripulação. Ele transportava cerca de 150 pessoas de 23 países, quando um foco de hantavírus foi detectado e relatado pela primeira vez, em 2 de maio, pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Até o momento, três passageiros morreram. Oito casos, que incluem essas mortes, foram confirmados, e dois são considerados possíveis, segundo a organização, que insiste, desde o início, que o risco é “limitado” para a população em geral.
Na França, uma mulher de 65 anos, repatriada do Hondius, sentiu-se mal no dia 10 de maio, testou positivo e foi internada em estado grave em Paris. As pessoas que estiveram em contato com contaminados foram hospitalizadas e colocadas em quarentena.
As medidas foram determinadas pelo governo francês em função do período de incubação do vírus, estimado em seis semanas. Mas elas são consideradas excessivas pelo infectologista francês. “Esse vírus só se transmite se a pessoa está doente. Sem sintomas, elas não são contagiosas”, explica o especialista francês. "É preciso entender que todas essas decisões são políticas, não científicas”, resume.
Alegando ter a obrigação de “transparência”, a ministra francesa da Saúde, Stéphane Riss, organizou uma coletiva no dia 12 de maio, ao lado de um grupo de cientistas franceses, para esclarecer dúvidas sobre a contagiosidade, modos de transmissão e fatores de risco, deixando claro que muitas perguntas ainda permaneciam sem resposta. Nesse momento, a possível emergência de uma epidemia ainda era difícil de avaliar para o público leigo, e a mobilização das autoridades levantou questões.
Para o infectologista francês, a ansiedade da população é compreensível, mas o único elemento novo no recente surto de hantavírus é o contexto — ou seja, o fato de ele ter ocorrido dentro de um cruzeiro.
“É um bom enredo e uma história interessante para os jornais”, avalia. “Imagine uma embarcação com um cadáver a bordo durante dez dias e um vírus circulando entre os passageiros.”
As características da cepa dos Andes, explica, já antecipavam o cenário atual, sem disseminação. O vírus tem uma taxa baixa de transmissão, estimada em torno de 0,5%, que pode variar de acordo com as circunstâncias. Esse foi o caso do surto no MV Hondius, onde os contatos são próximos e ocorrem em espaços fechados.
O vírus também não sofreu mutações, como mostraram recentemente os sequenciamentos de seu genoma feitos pelo Instituto Pasteur de Paris, que utilizou amostras de uma paciente contaminada. Essa é, aliás, uma característica conhecida dos hantavírus. A taxa de letalidade, em torno de 40%, também deve ser vista com cautela, pois depende da capacidade e da qualidade de atendimento, que, em áreas remotas da América do Sul, não são similares às dos países europeus.
“É uma infecção grave, conhecida há muito tempo, mas a questão não é essa. Nesse episódio, não havia nenhum elemento novo além do navio”, reitera. “Houve, sem dúvida, uma ou duas transmissões dentro do barco, relacionadas às condições muito particulares que existem dentro de um navio e à promiscuidade inerente a esse meio de transporte. Isso é tudo, e não há nada de novo.”
Segundo um comunicado publicado pelo Instituto Pasteur de Paris, não há tratamento específico disponível, embora um medicamento à base de ribavirina tenha demonstrado eficácia durante uma infecção por um tipo específico do hantavírus (vírus Hantaan). A transfusão de plasma humano contendo anticorpos contra o vírus Andes permitiu reduzir a mortalidade em pacientes infectados, mas o resultado ainda precisa ser confirmado em ensaios clínicos.
Os sintomas incluem febre, dores musculares e gastrointestinais, cansaço e podem evoluir para insuficiência respiratória aguda.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Para o infectologista francês Jean Paul Stahl, membro da SPIL (Sociedade Francesa de Infectologia), e professor de doenças infecciosas e tropicais no CHU (Centro Hospitalar Universitário) de Grenoble, esse esvaziamento se explica pela “precipitação” das autoridades francesas. Segundo ele, a propagação em massa do hantavírus é uma hipótese que poderia ter sido descartada desde o início. Houve “excesso” na comunicação, além de “perda de sangue-frio”.
“É um vírus conhecido há décadas, alvo de publicações científicas há muito tempo. Há uma recomendação das autoridades sanitárias americanas, por exemplo, que data de 2007, e os cientistas conhecem perfeitamente esse vírus desde então. Nesse caso, não há nada de novo. Algumas pessoas se contaminaram, como outras se contaminam regularmente na América do Sul.”
O navio de cruzeiro MV Hondius chegou nesta segunda-feira (18) ao porto de Roterdã, encerrando seu périplo de quase 50 dias, após uma etapa nas Ilhas Canárias para o desembarque dos passageiros e de parte da tripulação. Ele transportava cerca de 150 pessoas de 23 países, quando um foco de hantavírus foi detectado e relatado pela primeira vez, em 2 de maio, pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Até o momento, três passageiros morreram. Oito casos, que incluem essas mortes, foram confirmados, e dois são considerados possíveis, segundo a organização, que insiste, desde o início, que o risco é “limitado” para a população em geral.
Na França, uma mulher de 65 anos, repatriada do Hondius, sentiu-se mal no dia 10 de maio, testou positivo e foi internada em estado grave em Paris. As pessoas que estiveram em contato com contaminados foram hospitalizadas e colocadas em quarentena.
As medidas foram determinadas pelo governo francês em função do período de incubação do vírus, estimado em seis semanas. Mas elas são consideradas excessivas pelo infectologista francês. “Esse vírus só se transmite se a pessoa está doente. Sem sintomas, elas não são contagiosas”, explica o especialista francês. "É preciso entender que todas essas decisões são políticas, não científicas”, resume.
Alegando ter a obrigação de “transparência”, a ministra francesa da Saúde, Stéphane Riss, organizou uma coletiva no dia 12 de maio, ao lado de um grupo de cientistas franceses, para esclarecer dúvidas sobre a contagiosidade, modos de transmissão e fatores de risco, deixando claro que muitas perguntas ainda permaneciam sem resposta. Nesse momento, a possível emergência de uma epidemia ainda era difícil de avaliar para o público leigo, e a mobilização das autoridades levantou questões.
Para o infectologista francês, a ansiedade da população é compreensível, mas o único elemento novo no recente surto de hantavírus é o contexto — ou seja, o fato de ele ter ocorrido dentro de um cruzeiro.
“É um bom enredo e uma história interessante para os jornais”, avalia. “Imagine uma embarcação com um cadáver a bordo durante dez dias e um vírus circulando entre os passageiros.”
As características da cepa dos Andes, explica, já antecipavam o cenário atual, sem disseminação. O vírus tem uma taxa baixa de transmissão, estimada em torno de 0,5%, que pode variar de acordo com as circunstâncias. Esse foi o caso do surto no MV Hondius, onde os contatos são próximos e ocorrem em espaços fechados.
O vírus também não sofreu mutações, como mostraram recentemente os sequenciamentos de seu genoma feitos pelo Instituto Pasteur de Paris, que utilizou amostras de uma paciente contaminada. Essa é, aliás, uma característica conhecida dos hantavírus. A taxa de letalidade, em torno de 40%, também deve ser vista com cautela, pois depende da capacidade e da qualidade de atendimento, que, em áreas remotas da América do Sul, não são similares às dos países europeus.
“É uma infecção grave, conhecida há muito tempo, mas a questão não é essa. Nesse episódio, não havia nenhum elemento novo além do navio”, reitera. “Houve, sem dúvida, uma ou duas transmissões dentro do barco, relacionadas às condições muito particulares que existem dentro de um navio e à promiscuidade inerente a esse meio de transporte. Isso é tudo, e não há nada de novo.”
Segundo um comunicado publicado pelo Instituto Pasteur de Paris, não há tratamento específico disponível, embora um medicamento à base de ribavirina tenha demonstrado eficácia durante uma infecção por um tipo específico do hantavírus (vírus Hantaan). A transfusão de plasma humano contendo anticorpos contra o vírus Andes permitiu reduzir a mortalidade em pacientes infectados, mas o resultado ainda precisa ser confirmado em ensaios clínicos.
Os sintomas incluem febre, dores musculares e gastrointestinais, cansaço e podem evoluir para insuficiência respiratória aguda.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A experiência foi realizada com camundongos geneticamente idênticos do biotério da Escola Superior de Física e Química Industriais de Paris (ESPCI). Os resultados mostraram que quando os animais precisam se organizar espontaneamente para obter comida, alguns indivíduos assumem o papel de “produtores”, “exploradores” ou “acumuladores”.
“A ideia da pesquisa é tentar entender como esses papéis sociais são definidos entre os animais. Temos a tendência de acreditar, por exemplo, que o camundongo que lidera o grupo será o mais forte ou o de maior porte físico. O que demonstramos é que, mesmo entre indivíduos geneticamente idênticos, que vivem nas mesmas condições, alguns trabalham, enquanto outros se aproveitam. Tentamos entender por que isso acontece e por que esse comportamento se mantém com o tempo.”
Para obter a ração disponível na gaiola, os camundongos deviam pressionar uma alavanca, que liberava a comida dentro de um recipiente. Enquanto alguns animais realizavam a tarefa para obter a ração, outros apenas esperavam o alimento cair na tigela. Os animais foram colocados na gaiola em grupos de três. À medida que a comunidade se estruturava, diferentes equilíbrios de cooperação se estabeleciam: alguns camundongos chegaram a criar, por exemplo, um estoque disponível para o consumo coletivo.
“Quando fazemos essa experiência com camundongos geneticamente idênticos, percebemos que as fêmeas tendem a estabelecer uma organização social baseada no acúmulo e na recuperação progressiva da comida", diz o cientista.
O interessante, destaca o neurocientista, é que esses papéis não estavam pré‑determinados e foram se construindo ao longo das interações. A atividade neuronal dos animais, que compartilharam as experiências na mesma gaiola, foi registrada de forma contínua por câmeras ao longo de várias semanas. Ela mostrou que nos camundongos trabalhadores, o circuito dopaminérgico é ativado quando eles apertam a alavanca. A dopamina é o neurotransmissor associado à recompensa, à motivação e à tomada de decisões.
Já nos animais que apenas consomem o alimento sem esforço, o pico ocorre quando eles comem, mas principalmente quando observam outro membro do grupo pressionar a alavanca — ou seja, trabalhar por eles.
“Eles consolidaram um esquema mental baseado na obtenção da recompensa quando outro animal pressiona a alavanca. Temos claramente uma definição dos papéis em função das diferenças indicadas pelos sistemas dopaminérgicos durante a atividade”, explica o pesquisador.
Outra conclusão da pesquisa é que grupos formados apenas por machos tendem a se organizar em papéis complementares e mais competitivos, enquanto as fêmeas adotam comportamentos mais homogêneos e cooperativos. "Alguns machos apertam a alavanca e buscam a comida, e outros permanecem ao lado de onde o alimento cai e não ‘trabalham’”, exemplifica Phippe.
As trajetórias comportamentais se ajustam e se estabilizam, mas esse equilíbrio pode ser rompido, diz, se três animais “exploradores”, por exemplo, forem colocados juntos na mesma gaiola. “Isso vai gerar instabilidade, porque obviamente alguém precisa trabalhar para obter comida.”
Diferentes configurações foram testadas. “Assim, podemos ver que a divisão dos papéis depende da história, do ambiente e de com quem estamos no grupo. Não é algo pré‑determinado ou pré‑definido.”
Os pesquisadores também realizaram experimentos neurofisiológicos. Eles aumentaram a atividade dopaminérgica no cérebro dos machos antes de introduzi‑los na gaiola e observaram que eles se tornavam mais cooperativos e menos exploradores na obtenção de alimento, comportamento similar ao das fêmeas.
Essas conclusões podem ser aplicadas ao mundo humano? “Não podemos transpor diretamente esses resultados para os seres humanos, porque há aspectos muito mais complexos em jogo. Mas existem algumas regras fundamentais semelhantes", observa o cientista.
]]>"Um grupo não pode ter vários líderes. Se há quatro líderes potenciais, apenas um acabará ocupando essa posição — não necessariamente o mais competente. Pode ser por acaso ou em função das circunstâncias. Esses elementos são semelhantes entre humanos e camundongos: são dinâmicos.”
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A experiência foi realizada com camundongos geneticamente idênticos do biotério da Escola Superior de Física e Química Industriais de Paris (ESPCI). Os resultados mostraram que quando os animais precisam se organizar espontaneamente para obter comida, alguns indivíduos assumem o papel de “produtores”, “exploradores” ou “acumuladores”.
“A ideia da pesquisa é tentar entender como esses papéis sociais são definidos entre os animais. Temos a tendência de acreditar, por exemplo, que o camundongo que lidera o grupo será o mais forte ou o de maior porte físico. O que demonstramos é que, mesmo entre indivíduos geneticamente idênticos, que vivem nas mesmas condições, alguns trabalham, enquanto outros se aproveitam. Tentamos entender por que isso acontece e por que esse comportamento se mantém com o tempo.”
Para obter a ração disponível na gaiola, os camundongos deviam pressionar uma alavanca, que liberava a comida dentro de um recipiente. Enquanto alguns animais realizavam a tarefa para obter a ração, outros apenas esperavam o alimento cair na tigela. Os animais foram colocados na gaiola em grupos de três. À medida que a comunidade se estruturava, diferentes equilíbrios de cooperação se estabeleciam: alguns camundongos chegaram a criar, por exemplo, um estoque disponível para o consumo coletivo.
“Quando fazemos essa experiência com camundongos geneticamente idênticos, percebemos que as fêmeas tendem a estabelecer uma organização social baseada no acúmulo e na recuperação progressiva da comida", diz o cientista.
O interessante, destaca o neurocientista, é que esses papéis não estavam pré‑determinados e foram se construindo ao longo das interações. A atividade neuronal dos animais, que compartilharam as experiências na mesma gaiola, foi registrada de forma contínua por câmeras ao longo de várias semanas. Ela mostrou que nos camundongos trabalhadores, o circuito dopaminérgico é ativado quando eles apertam a alavanca. A dopamina é o neurotransmissor associado à recompensa, à motivação e à tomada de decisões.
Já nos animais que apenas consomem o alimento sem esforço, o pico ocorre quando eles comem, mas principalmente quando observam outro membro do grupo pressionar a alavanca — ou seja, trabalhar por eles.
“Eles consolidaram um esquema mental baseado na obtenção da recompensa quando outro animal pressiona a alavanca. Temos claramente uma definição dos papéis em função das diferenças indicadas pelos sistemas dopaminérgicos durante a atividade”, explica o pesquisador.
Outra conclusão da pesquisa é que grupos formados apenas por machos tendem a se organizar em papéis complementares e mais competitivos, enquanto as fêmeas adotam comportamentos mais homogêneos e cooperativos. "Alguns machos apertam a alavanca e buscam a comida, e outros permanecem ao lado de onde o alimento cai e não ‘trabalham’”, exemplifica Phippe.
As trajetórias comportamentais se ajustam e se estabilizam, mas esse equilíbrio pode ser rompido, diz, se três animais “exploradores”, por exemplo, forem colocados juntos na mesma gaiola. “Isso vai gerar instabilidade, porque obviamente alguém precisa trabalhar para obter comida.”
Diferentes configurações foram testadas. “Assim, podemos ver que a divisão dos papéis depende da história, do ambiente e de com quem estamos no grupo. Não é algo pré‑determinado ou pré‑definido.”
Os pesquisadores também realizaram experimentos neurofisiológicos. Eles aumentaram a atividade dopaminérgica no cérebro dos machos antes de introduzi‑los na gaiola e observaram que eles se tornavam mais cooperativos e menos exploradores na obtenção de alimento, comportamento similar ao das fêmeas.
Essas conclusões podem ser aplicadas ao mundo humano? “Não podemos transpor diretamente esses resultados para os seres humanos, porque há aspectos muito mais complexos em jogo. Mas existem algumas regras fundamentais semelhantes", observa o cientista.
]]>"Um grupo não pode ter vários líderes. Se há quatro líderes potenciais, apenas um acabará ocupando essa posição — não necessariamente o mais competente. Pode ser por acaso ou em função das circunstâncias. Esses elementos são semelhantes entre humanos e camundongos: são dinâmicos.”
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Segundo o pesquisador, os micróbios adquirem essa capacidade a um custo biológico muito baixo, o que contribui para a estabilização da resistência a longo prazo. Essas análises, explica Rocha, são feitas a partir de dados de sequenciamento genético, que permitem o estudo detalhado dos genes presentes nos microrganismos.
O cientista compara o genoma de uma bactéria típica a um texto complexo, escrito com um alfabeto formado pelas quatro letras correspondentes às bases nitrogenadas que compõem a molécula de DNA: adenina, citosina, guanina e timina.
“Nosso objetivo é decodificar esse texto e entender quais genes estão presentes no genoma, quais elementos regulam a presença desses genes e a expressão deles. Podemos comparar genomas e verificar como as bactérias evoluem, como evoluíram no passado e tentar prever como vão evoluir no futuro.”
Compreender esse processo ajuda a explicar como elementos genéticos móveis permitem a transferência de genes de resistência. “Nosso foco é a evolução das bactérias por várias razões. Do ponto de vista clínico, algumas causam doenças e muitas são resistentes aos antibióticos. Além disso, muitas vivem em nosso corpo e contribuem para a nossa boa saúde. Tentamos entender como elas se adaptam — e essa adaptação ocorre muito rapidamente.”
Segundo ele, essa evolução acelerada pode ser observada em experiências de laboratório e em análises de amostras clínicas. “Podemos realizar experimentos e constatar que, em poucos dias, bactérias se tornam resistentes aos antibióticos, perdem ou ganham virulência. Como hoje é possível conhecer os genomas com facilidade, conseguimos rastrear as modificações genéticas que levam a esses resultados.”
No laboratório do Instituto Pasteur, a equipe cultiva bactérias em concentrações progressivamente maiores de antibióticos e, em seguida, sequencia o genoma das sobreviventes para entender os mecanismos que levaram à resistência.
Os cientistas buscam mapear essas alterações no genoma. “As bactérias, em especial, têm a capacidade de trocar genes com outras bactérias, de adquirir genes externos. Há 70 anos, todas as bactérias com as quais convivemos eram sensíveis aos antibióticos. Hoje, existem bactérias resistentes a quase todos os antibióticos em uso no hospital, resultado da aquisição progressiva desses genes, o que permite uma evolução rápida.”
A equipe também analisa amostras de pacientes e de pessoas saudáveis. Em um dos estudos, os pesquisadores acompanharam a flora intestinal de voluntários durante seis meses após um tratamento com antibióticos, para entender as reações e modificações, que variaram de acordo com certos fatores.
“É preciso enxergar o intestino como um ecossistema formado por diferentes bactérias. Cada pessoa terá um ecossistema distinto, influenciado pela genética, pela dieta e pelos hábitos.”
No ano passado, Eduardo Rocha recebeu a medalha de prata do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) por seus trabalhos sobre elementos genéticos móveis. Esses elementos, que estão no centro de sua pesquisa, podem ser descritos como “parasitas” das bactérias, capazes de transportar genes de uma célula a outra, contribuindo para a evolução desses microrganismos.
O funcionamento dessas transferências gênicas é particularmente relevante quando as bactérias envolvidas são patogênicas e podem evoluir para formas mais virulentas. O pesquisador identificou uma espécie de cadeia hierárquica de relações funcionais entre esses elementos genéticos móveis. “Ao acompanhar a evolução desses elementos e dos genes de resistência, é possível observar, do ponto de vista epidemiológico, como a resistência se dissemina na população e no ambiente hospitalar”, conclui.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Segundo o pesquisador, os micróbios adquirem essa capacidade a um custo biológico muito baixo, o que contribui para a estabilização da resistência a longo prazo. Essas análises, explica Rocha, são feitas a partir de dados de sequenciamento genético, que permitem o estudo detalhado dos genes presentes nos microrganismos.
O cientista compara o genoma de uma bactéria típica a um texto complexo, escrito com um alfabeto formado pelas quatro letras correspondentes às bases nitrogenadas que compõem a molécula de DNA: adenina, citosina, guanina e timina.
“Nosso objetivo é decodificar esse texto e entender quais genes estão presentes no genoma, quais elementos regulam a presença desses genes e a expressão deles. Podemos comparar genomas e verificar como as bactérias evoluem, como evoluíram no passado e tentar prever como vão evoluir no futuro.”
Compreender esse processo ajuda a explicar como elementos genéticos móveis permitem a transferência de genes de resistência. “Nosso foco é a evolução das bactérias por várias razões. Do ponto de vista clínico, algumas causam doenças e muitas são resistentes aos antibióticos. Além disso, muitas vivem em nosso corpo e contribuem para a nossa boa saúde. Tentamos entender como elas se adaptam — e essa adaptação ocorre muito rapidamente.”
Segundo ele, essa evolução acelerada pode ser observada em experiências de laboratório e em análises de amostras clínicas. “Podemos realizar experimentos e constatar que, em poucos dias, bactérias se tornam resistentes aos antibióticos, perdem ou ganham virulência. Como hoje é possível conhecer os genomas com facilidade, conseguimos rastrear as modificações genéticas que levam a esses resultados.”
No laboratório do Instituto Pasteur, a equipe cultiva bactérias em concentrações progressivamente maiores de antibióticos e, em seguida, sequencia o genoma das sobreviventes para entender os mecanismos que levaram à resistência.
Os cientistas buscam mapear essas alterações no genoma. “As bactérias, em especial, têm a capacidade de trocar genes com outras bactérias, de adquirir genes externos. Há 70 anos, todas as bactérias com as quais convivemos eram sensíveis aos antibióticos. Hoje, existem bactérias resistentes a quase todos os antibióticos em uso no hospital, resultado da aquisição progressiva desses genes, o que permite uma evolução rápida.”
A equipe também analisa amostras de pacientes e de pessoas saudáveis. Em um dos estudos, os pesquisadores acompanharam a flora intestinal de voluntários durante seis meses após um tratamento com antibióticos, para entender as reações e modificações, que variaram de acordo com certos fatores.
“É preciso enxergar o intestino como um ecossistema formado por diferentes bactérias. Cada pessoa terá um ecossistema distinto, influenciado pela genética, pela dieta e pelos hábitos.”
No ano passado, Eduardo Rocha recebeu a medalha de prata do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) por seus trabalhos sobre elementos genéticos móveis. Esses elementos, que estão no centro de sua pesquisa, podem ser descritos como “parasitas” das bactérias, capazes de transportar genes de uma célula a outra, contribuindo para a evolução desses microrganismos.
O funcionamento dessas transferências gênicas é particularmente relevante quando as bactérias envolvidas são patogênicas e podem evoluir para formas mais virulentas. O pesquisador identificou uma espécie de cadeia hierárquica de relações funcionais entre esses elementos genéticos móveis. “Ao acompanhar a evolução desses elementos e dos genes de resistência, é possível observar, do ponto de vista epidemiológico, como a resistência se dissemina na população e no ambiente hospitalar”, conclui.
]]>Por que algumas mulheres desenvolvem a endometriose? As causas ainda não são totalmente conhecidas, mas podem envolver fatores genéticos, hormonais e imunológicos. No Brasil, de acordo com dados oficiais divulgados em 2025, os atendimentos de atenção primária relacionados à doença no SUS cresceram 76,2% em três anos.
Segundo a ginecologista e obstetra Maria Cecília de Sá, especialista em endometriose que atua em hospitais de Uberlândia (MG), o aumento está diretamente ligado à ampliação do diagnóstico. “À medida que a doença passa a ser mais identificada, mais casos são registrados”, afirma.
“Acreditava-se que era normal sentir dor e isso é mais uma construção cultural do que um entendimento médico. Hoje fazemos mais diagnósticos. As mulheres têm menos filhos, engravidam mais tarde, passam por mais ciclos menstruais e sentem mais dor. É um conjunto de fatores que ainda precisa ser compreendido”, diz.
Atualmente, as pacientes têm buscado mais ajuda médica e deixaram de considerar as dores intensas e as cólicas como algo normal durante o período menstrual. “Os profissionais estão mais atentos e o atendimento é mais especializado, embora o Brasil enfrente dificuldades nos municípios menores. Os centros especializados ainda se concentram nas capitais”, observa.
Para ampliar o acesso ao tratamento, o SUS aprovou leis recentes e, desde 2025, oferece duas opções terapêuticas: o dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel (DIU-LNG) e o desogestrel. Em nota, o Ministério da Saúde informa que os medicamentos são indicados para mulheres com contraindicação ao uso de anticoncepcionais orais combinados.
A ginecologista comemora os avanços, mas lembra que faltam especialistas para colocá-las em prática. Maria Cecília, que também é cirurgiã, lembra que a trajetória de cada paciente é única. “Você decide com ela se fará o tratamento clínico, associar atividade física, alimentação, terapia, para tratar o quadro depressivo que essa mulher tem por ter tanta dor e má qualidade vida e, por fim, decidir pela cirurgia, que é o fim da história e pode mudar a vida da paciente, seja no tratamento da infertilidade ou para melhorar a dor dela.”
Muitas mulheres chegam à consulta já desconfiando do diagnóstico. Segundo a especialista, além do maior acesso à informação, é comum que relatos de dor tenham sido minimizados ao longo dos anos. “Elas passaram por vários médicos e não foram ouvidas. Muitas vezes, o diagnóstico pode ser feito só pela escuta.”
O perfil mais comum é de mulheres que menstruam cedo, têm fluxo intenso e cólicas severas, sintomas frequentemente naturalizados desde a adolescência. O diagnóstico, no entanto, costuma ocorrer apenas por volta dos 30 anos. “Quando a mulher para o anticoncepcional para engravidar, a dor volta, e surge também a dificuldade para ficar grávida”, explica.
Além da avaliação clínica, o diagnóstico pode envolver ultrassonografia com mapeamento, ressonância magnética da pelve e marcadores laboratoriais. A confirmação definitiva é feita por biópsia da lesão.
A endometriose pode atingir diferentes órgãos. Recentemente, a médica atendeu uma paciente com endometriose pulmonar, que apresentava sangramentos no tórax durante o período menstrual. “É um caso raro, mas mostra como ainda há muito a ser compreendido sobre a doença”, afirma.
Segundo o Ministério da Saúde, o intervalo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico pode chegar a seis ou sete anos. “Nosso objetivo é aliviar o sofrimento dessas mulheres e de suas famílias. Não é um caminho simples”, conclui a especialista.
]]>Por que algumas mulheres desenvolvem a endometriose? As causas ainda não são totalmente conhecidas, mas podem envolver fatores genéticos, hormonais e imunológicos. No Brasil, de acordo com dados oficiais divulgados em 2025, os atendimentos de atenção primária relacionados à doença no SUS cresceram 76,2% em três anos.
Segundo a ginecologista e obstetra Maria Cecília de Sá, especialista em endometriose que atua em hospitais de Uberlândia (MG), o aumento está diretamente ligado à ampliação do diagnóstico. “À medida que a doença passa a ser mais identificada, mais casos são registrados”, afirma.
“Acreditava-se que era normal sentir dor e isso é mais uma construção cultural do que um entendimento médico. Hoje fazemos mais diagnósticos. As mulheres têm menos filhos, engravidam mais tarde, passam por mais ciclos menstruais e sentem mais dor. É um conjunto de fatores que ainda precisa ser compreendido”, diz.
Atualmente, as pacientes têm buscado mais ajuda médica e deixaram de considerar as dores intensas e as cólicas como algo normal durante o período menstrual. “Os profissionais estão mais atentos e o atendimento é mais especializado, embora o Brasil enfrente dificuldades nos municípios menores. Os centros especializados ainda se concentram nas capitais”, observa.
Para ampliar o acesso ao tratamento, o SUS aprovou leis recentes e, desde 2025, oferece duas opções terapêuticas: o dispositivo intrauterino liberador de levonorgestrel (DIU-LNG) e o desogestrel. Em nota, o Ministério da Saúde informa que os medicamentos são indicados para mulheres com contraindicação ao uso de anticoncepcionais orais combinados.
A ginecologista comemora os avanços, mas lembra que faltam especialistas para colocá-las em prática. Maria Cecília, que também é cirurgiã, lembra que a trajetória de cada paciente é única. “Você decide com ela se fará o tratamento clínico, associar atividade física, alimentação, terapia, para tratar o quadro depressivo que essa mulher tem por ter tanta dor e má qualidade vida e, por fim, decidir pela cirurgia, que é o fim da história e pode mudar a vida da paciente, seja no tratamento da infertilidade ou para melhorar a dor dela.”
Muitas mulheres chegam à consulta já desconfiando do diagnóstico. Segundo a especialista, além do maior acesso à informação, é comum que relatos de dor tenham sido minimizados ao longo dos anos. “Elas passaram por vários médicos e não foram ouvidas. Muitas vezes, o diagnóstico pode ser feito só pela escuta.”
O perfil mais comum é de mulheres que menstruam cedo, têm fluxo intenso e cólicas severas, sintomas frequentemente naturalizados desde a adolescência. O diagnóstico, no entanto, costuma ocorrer apenas por volta dos 30 anos. “Quando a mulher para o anticoncepcional para engravidar, a dor volta, e surge também a dificuldade para ficar grávida”, explica.
Além da avaliação clínica, o diagnóstico pode envolver ultrassonografia com mapeamento, ressonância magnética da pelve e marcadores laboratoriais. A confirmação definitiva é feita por biópsia da lesão.
A endometriose pode atingir diferentes órgãos. Recentemente, a médica atendeu uma paciente com endometriose pulmonar, que apresentava sangramentos no tórax durante o período menstrual. “É um caso raro, mas mostra como ainda há muito a ser compreendido sobre a doença”, afirma.
Segundo o Ministério da Saúde, o intervalo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico pode chegar a seis ou sete anos. “Nosso objetivo é aliviar o sofrimento dessas mulheres e de suas famílias. Não é um caminho simples”, conclui a especialista.
]]>Taíssa Stivanin, enviada especial da RFI a Caen
O aparelho criado pelos cientistas franceses, parecido com uma esteira ergomética, foi instalado em uma sala de cerca de 15 metros de comprimento e nove metros de largura do CIREVE, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen. Ele rastreia e registra riscos cognitivos e motores enquanto o paciente caminha e responde a perguntas que mobilizam atenção e memória.
“Essa esteira permite avaliar o sistema locomotor e detectar biomarcadores que fornecem informações sobre o estado de saúde do participante. Tecnicamente, a esteira se adapta ao ritmo do paciente. Ela é equipada com duas plataformas de força, que registram o que chamamos de força de reação do solo, gerando dados sobre o equilíbrio dinâmico”, explica a neurocientista francesa.
"A esteira também pode se inclinar na direção escolhida pelo participante e nas direções medial e lateral, mais complexas, que mobilizam mais recursos cognitivos para manter o equilíbrio. A esteira, claro, está conectada ao ambiente virtual”, explica.
Durante o teste, o paciente é submetido a estímulos cognitivos enquanto caminha — primeiro em velocidade constante e depois em ritmos diferentes com cada perna. Ao mesmo tempo em que busca o ponto de equilíbrio deve executar simultaneamente uma outra tarefa: ler uma palavra em voz alta se ela estiver posicionada embaixo de um retângulo ou dizer qual é sua cor se for um losango.
Em seguida, os pesquisadores franceses utilizam parâmetros matemáticos para avaliar e caracterizar os movimentos do paciente em função do risco cognitivo e motor. Quando detectado, ele triplica a probabilidade de desenvolvimento de transtornos neurocognitivos graves. “A ideia é saber se, nesse estágio bastante precoce, conseguimos identificar pacientes com risco de desenvolver esses transtornos”, afirma Leslie Decker.
Cerca de cem pacientes, com idades entre 55 e 87 anos, já testaram a ferramenta e 20 deles apresentavam a chamada síndrome do risco cognitivo motor (MCR), caracterizada por lentidão da marcha e queixas cognitivas subjetivas.
Para definir um perfil locomotor específico dessa síndrome, a equipe utilizou modelos de inteligência artificial e analisou dados de pacientes saudáveis, estabelecendo critérios de comparação, explica o pesquisador Baptiste Perthuy.
“Isso permite identificar pacientes com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. A caminhada define um perfil locomotor, que é um reflexo do nosso estado estrutural. Isso é muito interessante porque traz muitas informações sobre uma patologia, uma pessoa e até mesmo sobre suas emoções”, diz.
Segundo o cientista Julien Rossato, outro integrante da equipe, quando esses transtornos afetam os movimentos e as funções mentais, é possível medir no teste a chamada reserva cognitiva - a capacidade do cérebro de se adaptar ao envelhecimento. Ela pode diminuir com o surgimento de uma doença ou simplesmente se esgotar com o passar dos anos.
“O que nos interessa particularmente é medir o desempenho nessas duas tarefas — caminhada e estímulos. Para isso, pontos semelhantes a eletrodos são conectados aos participantes e medem a posição no espaço, com ajuda de câmeras instaladas ao redor do sistema", explica. "Assim, temos acesso a variáveis como ângulos das articulações e o tempo que a pessoa leva para levantar a perna. Também avaliamos o desempenho cognitivo, registrando a voz do paciente e seu tempo de reação”, explica Rossato.
A equipe utiliza modelos matemáticos e algoritmos avançados para analisar os dados e desenvolver estratégias de prevenção personalizadas. “A etapa final do projeto, depois de definido o perfil, é associar essas variáveis de desempenho a testes neurocognitivos ou questionários sociais”, afirma Julien Rossato.
O dispositivo utilizado no laboratório da universidade está agora em fase de adaptação para uso em consultórios médicos. O sistema desenvolvido pela startup a-gO usa três iPhones para captar os movimentos do paciente enquanto ele caminha por cinco minutos em uma esteira.
A partir desses vídeos, a inteligência artificial cria um modelo 3D detalhado da marcha e o analisa para identificar sinais da síndrome do risco cognitivo motor — condição que precede doenças neurodegenerativas e associa lentidão da marcha a queixas cognitivas, explica Alexandre Dalibot, um dos fundadores da empresa.
O objetivo é traçar um perfil de pacientes com a síndrome ou com sinais que exijam atenção, possibilitando a adoção de medidas preventivas ou tratamentos mais personalizados. “A meta da a-GO era desenvolver uma ferramenta capaz de detectar precocemente pessoas com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. Nesse estágio, ainda temos todos os neurônios e a reserva cognitiva", diz.
"Muitas medidas podem ser tomadas, e a ferramenta pode ser usada no dia a dia para monitorar a evolução desse risco. A ideia é adotar estratégias terapêuticas que permitam ao paciente agir e evitar transtornos associados ao envelhecimento. Vale lembrar que quase 75% das doenças neurodegenerativas podem ser evitadas”, afirma Dalibot.
A ferramenta deve ser testada em breve em centenas de pacientes de hospitais franceses e pode chegar a consultórios médicos do país em até dois anos.
]]>Taíssa Stivanin, enviada especial da RFI a Caen
O aparelho criado pelos cientistas franceses, parecido com uma esteira ergomética, foi instalado em uma sala de cerca de 15 metros de comprimento e nove metros de largura do CIREVE, o laboratório de realidade virtual da Universidade de Caen. Ele rastreia e registra riscos cognitivos e motores enquanto o paciente caminha e responde a perguntas que mobilizam atenção e memória.
“Essa esteira permite avaliar o sistema locomotor e detectar biomarcadores que fornecem informações sobre o estado de saúde do participante. Tecnicamente, a esteira se adapta ao ritmo do paciente. Ela é equipada com duas plataformas de força, que registram o que chamamos de força de reação do solo, gerando dados sobre o equilíbrio dinâmico”, explica a neurocientista francesa.
"A esteira também pode se inclinar na direção escolhida pelo participante e nas direções medial e lateral, mais complexas, que mobilizam mais recursos cognitivos para manter o equilíbrio. A esteira, claro, está conectada ao ambiente virtual”, explica.
Durante o teste, o paciente é submetido a estímulos cognitivos enquanto caminha — primeiro em velocidade constante e depois em ritmos diferentes com cada perna. Ao mesmo tempo em que busca o ponto de equilíbrio deve executar simultaneamente uma outra tarefa: ler uma palavra em voz alta se ela estiver posicionada embaixo de um retângulo ou dizer qual é sua cor se for um losango.
Em seguida, os pesquisadores franceses utilizam parâmetros matemáticos para avaliar e caracterizar os movimentos do paciente em função do risco cognitivo e motor. Quando detectado, ele triplica a probabilidade de desenvolvimento de transtornos neurocognitivos graves. “A ideia é saber se, nesse estágio bastante precoce, conseguimos identificar pacientes com risco de desenvolver esses transtornos”, afirma Leslie Decker.
Cerca de cem pacientes, com idades entre 55 e 87 anos, já testaram a ferramenta e 20 deles apresentavam a chamada síndrome do risco cognitivo motor (MCR), caracterizada por lentidão da marcha e queixas cognitivas subjetivas.
Para definir um perfil locomotor específico dessa síndrome, a equipe utilizou modelos de inteligência artificial e analisou dados de pacientes saudáveis, estabelecendo critérios de comparação, explica o pesquisador Baptiste Perthuy.
“Isso permite identificar pacientes com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. A caminhada define um perfil locomotor, que é um reflexo do nosso estado estrutural. Isso é muito interessante porque traz muitas informações sobre uma patologia, uma pessoa e até mesmo sobre suas emoções”, diz.
Segundo o cientista Julien Rossato, outro integrante da equipe, quando esses transtornos afetam os movimentos e as funções mentais, é possível medir no teste a chamada reserva cognitiva - a capacidade do cérebro de se adaptar ao envelhecimento. Ela pode diminuir com o surgimento de uma doença ou simplesmente se esgotar com o passar dos anos.
“O que nos interessa particularmente é medir o desempenho nessas duas tarefas — caminhada e estímulos. Para isso, pontos semelhantes a eletrodos são conectados aos participantes e medem a posição no espaço, com ajuda de câmeras instaladas ao redor do sistema", explica. "Assim, temos acesso a variáveis como ângulos das articulações e o tempo que a pessoa leva para levantar a perna. Também avaliamos o desempenho cognitivo, registrando a voz do paciente e seu tempo de reação”, explica Rossato.
A equipe utiliza modelos matemáticos e algoritmos avançados para analisar os dados e desenvolver estratégias de prevenção personalizadas. “A etapa final do projeto, depois de definido o perfil, é associar essas variáveis de desempenho a testes neurocognitivos ou questionários sociais”, afirma Julien Rossato.
O dispositivo utilizado no laboratório da universidade está agora em fase de adaptação para uso em consultórios médicos. O sistema desenvolvido pela startup a-gO usa três iPhones para captar os movimentos do paciente enquanto ele caminha por cinco minutos em uma esteira.
A partir desses vídeos, a inteligência artificial cria um modelo 3D detalhado da marcha e o analisa para identificar sinais da síndrome do risco cognitivo motor — condição que precede doenças neurodegenerativas e associa lentidão da marcha a queixas cognitivas, explica Alexandre Dalibot, um dos fundadores da empresa.
O objetivo é traçar um perfil de pacientes com a síndrome ou com sinais que exijam atenção, possibilitando a adoção de medidas preventivas ou tratamentos mais personalizados. “A meta da a-GO era desenvolver uma ferramenta capaz de detectar precocemente pessoas com risco de desenvolver doenças neurodegenerativas. Nesse estágio, ainda temos todos os neurônios e a reserva cognitiva", diz.
"Muitas medidas podem ser tomadas, e a ferramenta pode ser usada no dia a dia para monitorar a evolução desse risco. A ideia é adotar estratégias terapêuticas que permitam ao paciente agir e evitar transtornos associados ao envelhecimento. Vale lembrar que quase 75% das doenças neurodegenerativas podem ser evitadas”, afirma Dalibot.
A ferramenta deve ser testada em breve em centenas de pacientes de hospitais franceses e pode chegar a consultórios médicos do país em até dois anos.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Desde os anos 2000, a incidência de anorexia em meninas de 10 e 11 anos tem aumentado, como mostra a história de Oihana, que começou a sentir os primeiros sintomas por volta dos 12, em 2013. Foram oito anos de combate à doença, marcados por várias internações, inclusive em um hospital psiquiátrico.
No auge da doença e praticamente sem comer, Oihana chegou a perder 18 quilos em seis meses e precisou ser alimentada por sonda. “As mulheres sofrem muita pressão em relação ao próprio corpo, e eu senti isso quando ainda era menina. Acredito que isso possa ter tido um impacto”, diz Oihana.
Virginie Robert, médica dos setores de pediatria e reanimação neonatal do hospital François Mitterrand, em Pau, acompanhou a trajetória da jovem francesa. Segundo a pediatra, a puberdade é um período de transformações que favorece a fragilidade emocional. Essas mudanças, explica, podem desencadear diferentes “descompensações psiquiátricas”.
No caso da anorexia nervosa, as dificuldades surgem da “perda de controle” sobre o próprio organismo. As meninas ganham formas, têm a primeira menstruação, a pele e os cabelos mudam, e os traços nem sempre são simétricos.
A perda de peso provocada pela anorexia permite às pacientes interromper esse processo: elas deixam de menstruar e com podem parar de crescer. “A puberdade e o desenvolvimento fisiológico ficam interrompidos. É uma doença que também é mais frequente entre adolescentes em busca de perfeição, controle e desafios”, acrescenta a pediatra.
Em seu livro, a jovem, uma excelente aluna que nunca abandonou os estudos apesar de seu problema de saúde, descreve bem essa autoexigência. “Existe uma busca constante pelo perfeccionismo — nas notas e no esporte. Quando eu começava um regime, era a mesma coisa: ele tinha de ser perfeito", conta.
"A anorexia foi desaparecendo aos poucos da minha vida quando passei a ter bulimia e hiperfagia. Esse outro transtorno foi diminuindo, e fui tendo cada vez menos crises. Hoje tenho uma relação muito mais tranquila com a comida e com meu corpo, mas ainda é difícil para mim ver meu reflexo em um vídeo ou no espelho. É complicado de administrar, mas às vezes me acho bonita, e isso me faz bem. No fim, foi o tempo que me curou.”
Na adolescência, o cérebro, ainda em desenvolvimento, é mais propenso à dependência. O regime pode, desta forma, funcionar como uma forma de regular estresse e ansiedade.
“Os transtornos alimentares fazem parte de um grupo de doenças que geram dependência, com mecanismos neurobiológicos ligados à recompensa e ao sistema de dopamina. Quando tentamos perder peso e conseguimos, isso é gratificante. O cérebro do adolescente é sensível a isso”, explica Virginie Robert.
Nesse contexto, é importante ajudar os adolescentes que sofrem com a doença que é preciso descobrir outras formas de administrar ansiedade, tristeza e alterações de humor.
“A psicoterapia avança a partir do momento em que o adolescente aceita que há um problema e que ele não controla mais nada. É uma doença que engana, dá a impressão de controle ao racionar a alimentação, mas na verdade há perda de controle. O jovem deve entender que é a doença que está controlando seu cérebro”, afirma. Essa consciência, diz Oihana, a ajudou a lutar contra o transtorno e a prever e evitar crises.
Embora alguns sintomas — como o emagrecimento rápido — possam ser semelhantes, a pediatra lembra que cada caso é individual, envolve a história de vida do paciente e requer protocolos de tratamento distintos. A anorexia pode ser, por exemplo, secundária a uma depressão, e a trajetória pessoal e familiar é fundamental para tratá-la.
A jovem cresceu em uma família estável, sem conflitos, que sempre a apoiou, tinha amigos e nunca sofreu assédio ou violência. Em 2013, quando ficou doente, as redes sociais ainda não tinham a influência que têm hoje. Para ela, o gatilho da doença foi a pressão pelo desempenho esportivo - ela era jogadora de basquete e competia em um time local e a busca pelo perfeccionismo.
“Com frequência, traumatismos — como violência infantil — estão associados ao diagnóstico de anorexia mental. Mas não é sempre assim, e Oihana é a prova. Ela vem de uma família normal, amorosa, e isso não a impediu de ter anorexia. Os pais muitas vezes se sentem culpados, mas nem sempre é o caso”, afirma a pediatra.
Oihana concorda. “Para os pais é muito difícil. Ainda hoje digo a eles que não têm culpa nenhuma.”
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Desde os anos 2000, a incidência de anorexia em meninas de 10 e 11 anos tem aumentado, como mostra a história de Oihana, que começou a sentir os primeiros sintomas por volta dos 12, em 2013. Foram oito anos de combate à doença, marcados por várias internações, inclusive em um hospital psiquiátrico.
No auge da doença e praticamente sem comer, Oihana chegou a perder 18 quilos em seis meses e precisou ser alimentada por sonda. “As mulheres sofrem muita pressão em relação ao próprio corpo, e eu senti isso quando ainda era menina. Acredito que isso possa ter tido um impacto”, diz Oihana.
Virginie Robert, médica dos setores de pediatria e reanimação neonatal do hospital François Mitterrand, em Pau, acompanhou a trajetória da jovem francesa. Segundo a pediatra, a puberdade é um período de transformações que favorece a fragilidade emocional. Essas mudanças, explica, podem desencadear diferentes “descompensações psiquiátricas”.
No caso da anorexia nervosa, as dificuldades surgem da “perda de controle” sobre o próprio organismo. As meninas ganham formas, têm a primeira menstruação, a pele e os cabelos mudam, e os traços nem sempre são simétricos.
A perda de peso provocada pela anorexia permite às pacientes interromper esse processo: elas deixam de menstruar e com podem parar de crescer. “A puberdade e o desenvolvimento fisiológico ficam interrompidos. É uma doença que também é mais frequente entre adolescentes em busca de perfeição, controle e desafios”, acrescenta a pediatra.
Em seu livro, a jovem, uma excelente aluna que nunca abandonou os estudos apesar de seu problema de saúde, descreve bem essa autoexigência. “Existe uma busca constante pelo perfeccionismo — nas notas e no esporte. Quando eu começava um regime, era a mesma coisa: ele tinha de ser perfeito", conta.
"A anorexia foi desaparecendo aos poucos da minha vida quando passei a ter bulimia e hiperfagia. Esse outro transtorno foi diminuindo, e fui tendo cada vez menos crises. Hoje tenho uma relação muito mais tranquila com a comida e com meu corpo, mas ainda é difícil para mim ver meu reflexo em um vídeo ou no espelho. É complicado de administrar, mas às vezes me acho bonita, e isso me faz bem. No fim, foi o tempo que me curou.”
Na adolescência, o cérebro, ainda em desenvolvimento, é mais propenso à dependência. O regime pode, desta forma, funcionar como uma forma de regular estresse e ansiedade.
“Os transtornos alimentares fazem parte de um grupo de doenças que geram dependência, com mecanismos neurobiológicos ligados à recompensa e ao sistema de dopamina. Quando tentamos perder peso e conseguimos, isso é gratificante. O cérebro do adolescente é sensível a isso”, explica Virginie Robert.
Nesse contexto, é importante ajudar os adolescentes que sofrem com a doença que é preciso descobrir outras formas de administrar ansiedade, tristeza e alterações de humor.
“A psicoterapia avança a partir do momento em que o adolescente aceita que há um problema e que ele não controla mais nada. É uma doença que engana, dá a impressão de controle ao racionar a alimentação, mas na verdade há perda de controle. O jovem deve entender que é a doença que está controlando seu cérebro”, afirma. Essa consciência, diz Oihana, a ajudou a lutar contra o transtorno e a prever e evitar crises.
Embora alguns sintomas — como o emagrecimento rápido — possam ser semelhantes, a pediatra lembra que cada caso é individual, envolve a história de vida do paciente e requer protocolos de tratamento distintos. A anorexia pode ser, por exemplo, secundária a uma depressão, e a trajetória pessoal e familiar é fundamental para tratá-la.
A jovem cresceu em uma família estável, sem conflitos, que sempre a apoiou, tinha amigos e nunca sofreu assédio ou violência. Em 2013, quando ficou doente, as redes sociais ainda não tinham a influência que têm hoje. Para ela, o gatilho da doença foi a pressão pelo desempenho esportivo - ela era jogadora de basquete e competia em um time local e a busca pelo perfeccionismo.
“Com frequência, traumatismos — como violência infantil — estão associados ao diagnóstico de anorexia mental. Mas não é sempre assim, e Oihana é a prova. Ela vem de uma família normal, amorosa, e isso não a impediu de ter anorexia. Os pais muitas vezes se sentem culpados, mas nem sempre é o caso”, afirma a pediatra.
Oihana concorda. “Para os pais é muito difícil. Ainda hoje digo a eles que não têm culpa nenhuma.”
]]>Quais hábitos e fatores do dia a dia podem atrapalhar o momento de dormir e o próprio sono? Quanto tempo de descanso é necessário em cada fase da vida?
Segundo o psiquiatra francês Pierre Alexis Geoffroy, especialista em medicina do sono, autor do livro La nuit vous appartient, ou “A Noite é Sua”, em tradução livre, a falta de sono pode acelerar o envelhecimento do organismo e interferir na capacidade de aprender.
Na obra, ele explica quais são os mecanismos que favorecem o descanso, como regularidade, duração, o ritmo e adequação ao funcionamento do próprio relógio biológico. Outros fatores influenciam o sono, como a luz, o silêncio e os hormônios.
De acordo com o psiquiatra francês é importante saber interpretar as queixas dos pacientes. Os dados mostram que quase metade da população mundial se queixa de insônia, mas muitas pessoas tomam remédio para dormir — com recomendação médica em vários casos — sem conhecer as verdadeiras causas das dificuldades que as impedem de dormir.
“A insônia é uma das principais queixas das consultas. Os pacientes dizem que não dormem o quanto gostariam ou não dormem bem. Outros se queixam de hipersonolência: dormem demais ou durante o dia. A terceira queixa mais comum envolve problemas de comportamento noturno, como o sonambulismo. Muitas doenças explicam esses sintomas.”
O primeiro passo para dormir bem, diz o psiquiatra, é a regularidade. Isso significa conhecer bem o próprio ritmo de sono, que é determinado por um grupo de cerca de 25 genes que gerenciam nosso relógio biológico em um ciclo de 24 horas. Esse funcionamento está vinculado ao ritmo de todas as espécies na Terra, em função da exposição à luz solar.
“Há pessoas matutinas e outras mais despertas à noite. Isso é definido geneticamente e não podemos mudar. Com a idade, essa tendência evolui um pouco. As crianças, por exemplo, são mais alertas de manhã, e os adolescentes, de noite. É normal, eles não fazem de propósito e não é preguiça: em geral, dormem entre duas e três horas depois de um adulto e têm dificuldade em ir para a cama antes das 23h. Ao envelhecer, nos tornamos mais matutinos.”
Conhecer a própria necessidade diária de sono também é essencial para obter o merecido descanso. “Há quem durma pouco; outras pessoas precisam dormir mais. Mas a maior parte dorme entre sete e oito horas. Após 15 dias de férias, sem obrigações e com o ritmo livre, é possível avaliar qual é essa necessidade e o tempo ideal de sono”, explica.
Os fatores ambientais e as condições de vida também são determinantes. O tipo de moradia, a qualidade da cama e do colchão, a calefação e até a poluição luminosa ou acústica influenciam diretamente a qualidade do sono.
“Algumas pessoas argumentam que conseguem dormir com a luz acesa ou com barulho, mas, quando isso ocorre, há o que chamamos de integração sensorial. O cérebro capta o barulho e o interpreta como informação. O sono então se torna mais fragmentado, menos profundo, de pior qualidade, e isso repercute no dia seguinte.”
Dormir bem exige escuridão, silêncio e temperatura ideal. Quando todos esses fatores estão reunidos e o sono continua ruim, é preciso investigar as causas. Doenças como a apneia do sono — pausas respiratórias involuntárias que surgem enquanto dormimos e provocam repetidas quedas no nível de oxigênio no sangue — representam risco para o sistema cardiovascular. A apneia também desregula o relógio biológico e provoca problemas metabólicos.
O sono ruim também pode estar na origem — ou ser resultado — de doenças como depressão, transtornos ansiosos e dependência química. Segundo Geoffroy, um estudo mostrou que, após sete anos, metade dos participantes que tinham insônia desenvolveu depressão.
A falta de sono pode ainda causar acidentes de trabalho e erros humanos, lembra o especialista, que critica a organização do trabalho em muitas empresas.
“As pessoas que trabalham à noite pagam um preço alto, e precisamos refletir sobre isso. Uma recomendação aqui na França é não trabalhar mais de cinco anos no período noturno e, a partir de três, começar a se preparar para mudar de setor ou profissão. Ficar acordado à noite é estressante, e isso é ainda mais grave para quem precisa começar a trabalhar antes das 4h — mais exatamente, às 4h30.”
]]>Quais hábitos e fatores do dia a dia podem atrapalhar o momento de dormir e o próprio sono? Quanto tempo de descanso é necessário em cada fase da vida?
Segundo o psiquiatra francês Pierre Alexis Geoffroy, especialista em medicina do sono, autor do livro La nuit vous appartient, ou “A Noite é Sua”, em tradução livre, a falta de sono pode acelerar o envelhecimento do organismo e interferir na capacidade de aprender.
Na obra, ele explica quais são os mecanismos que favorecem o descanso, como regularidade, duração, o ritmo e adequação ao funcionamento do próprio relógio biológico. Outros fatores influenciam o sono, como a luz, o silêncio e os hormônios.
De acordo com o psiquiatra francês é importante saber interpretar as queixas dos pacientes. Os dados mostram que quase metade da população mundial se queixa de insônia, mas muitas pessoas tomam remédio para dormir — com recomendação médica em vários casos — sem conhecer as verdadeiras causas das dificuldades que as impedem de dormir.
“A insônia é uma das principais queixas das consultas. Os pacientes dizem que não dormem o quanto gostariam ou não dormem bem. Outros se queixam de hipersonolência: dormem demais ou durante o dia. A terceira queixa mais comum envolve problemas de comportamento noturno, como o sonambulismo. Muitas doenças explicam esses sintomas.”
O primeiro passo para dormir bem, diz o psiquiatra, é a regularidade. Isso significa conhecer bem o próprio ritmo de sono, que é determinado por um grupo de cerca de 25 genes que gerenciam nosso relógio biológico em um ciclo de 24 horas. Esse funcionamento está vinculado ao ritmo de todas as espécies na Terra, em função da exposição à luz solar.
“Há pessoas matutinas e outras mais despertas à noite. Isso é definido geneticamente e não podemos mudar. Com a idade, essa tendência evolui um pouco. As crianças, por exemplo, são mais alertas de manhã, e os adolescentes, de noite. É normal, eles não fazem de propósito e não é preguiça: em geral, dormem entre duas e três horas depois de um adulto e têm dificuldade em ir para a cama antes das 23h. Ao envelhecer, nos tornamos mais matutinos.”
Conhecer a própria necessidade diária de sono também é essencial para obter o merecido descanso. “Há quem durma pouco; outras pessoas precisam dormir mais. Mas a maior parte dorme entre sete e oito horas. Após 15 dias de férias, sem obrigações e com o ritmo livre, é possível avaliar qual é essa necessidade e o tempo ideal de sono”, explica.
Os fatores ambientais e as condições de vida também são determinantes. O tipo de moradia, a qualidade da cama e do colchão, a calefação e até a poluição luminosa ou acústica influenciam diretamente a qualidade do sono.
“Algumas pessoas argumentam que conseguem dormir com a luz acesa ou com barulho, mas, quando isso ocorre, há o que chamamos de integração sensorial. O cérebro capta o barulho e o interpreta como informação. O sono então se torna mais fragmentado, menos profundo, de pior qualidade, e isso repercute no dia seguinte.”
Dormir bem exige escuridão, silêncio e temperatura ideal. Quando todos esses fatores estão reunidos e o sono continua ruim, é preciso investigar as causas. Doenças como a apneia do sono — pausas respiratórias involuntárias que surgem enquanto dormimos e provocam repetidas quedas no nível de oxigênio no sangue — representam risco para o sistema cardiovascular. A apneia também desregula o relógio biológico e provoca problemas metabólicos.
O sono ruim também pode estar na origem — ou ser resultado — de doenças como depressão, transtornos ansiosos e dependência química. Segundo Geoffroy, um estudo mostrou que, após sete anos, metade dos participantes que tinham insônia desenvolveu depressão.
A falta de sono pode ainda causar acidentes de trabalho e erros humanos, lembra o especialista, que critica a organização do trabalho em muitas empresas.
“As pessoas que trabalham à noite pagam um preço alto, e precisamos refletir sobre isso. Uma recomendação aqui na França é não trabalhar mais de cinco anos no período noturno e, a partir de três, começar a se preparar para mudar de setor ou profissão. Ficar acordado à noite é estressante, e isso é ainda mais grave para quem precisa começar a trabalhar antes das 4h — mais exatamente, às 4h30.”
]]>Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A descoberta gera novas perspectivas para o diagnóstico das doenças mentais. A ansiedade é uma emoção humana normal, que nos permite lidar com situações de risco, tomar decisões adequadas e nos proteger de ameaças. Quando esse estado de alerta se torna frequente, com sintomas emocionais e físicos, pode indicar um transtorno mental, como a depressão.
Há várias décadas, os psiquiatras se baseiam em questionários de autoavaliação ou outros testes comportamentais para identificar o transtorno de ansiedade. Esses métodos têm seus limites, porque resultam de análises subjetivas, que nem sempre condizem com o estado real do paciente.
Esse processo de neurogênese é essencial para a plasticidade cerebral e ocorre no hipocampo, uma estrutura situada nos lobos temporais do cérebro e considerada a sede da memória e do aprendizado.
“A ansiedade é um fator preditivo de outros transtornos psiquiátricos, principalmente a depressão. Saber com antecedência, se fazemos parte do grupo de risco, faz com que possamos preveni-los.”
Durante a pesquisa, os cientistas injetaram o lipídio em animais e descobriram que ele diminuía a resistência deles ao estresse e à depressão. Inversamente, uma molécula que bloqueia o receptor desse lipídio mostrou um efeito antidepressivo dependente da neurogênese adulta.
“Isso corrobora o fato de que a ansiedade é um fator de risco para a depressão, que a neurogênese adulta tem um papel na transição da ansiedade para a depressão”, explica o cientista suíço.
Os cientistas agora devem aprofundar os estudos e testar a toxicidade e a tolerância à molécula para, no futuro, introduzir o biomarcador na prática clínica. A equipe do cientista suíço estuda há vários anos a neurogênese em adultos e as células-tronco neurais presentes no hipocampo, explica Nicolas Toni.
Elas têm uma estrutura bastante específica, parecida com uma árvore. Ao microscópio, os cientistas puderam observar que esses pequenos “galhos” envolviam não só as sinapses — que são a transmissão de sinais entre os neurônios —, mas também os vasos sanguíneos.
“A primeira pergunta que fizemos foi: será que moléculas que circulam no sangue podem regular a neurogênese e a função das células-tronco neurais?”
Essa primeira hipótese foi o resultado de quatro anos de pesquisa. No laboratório, a equipe começou a testar o que acontecia quando o sangue entrava em contato com essas células em uma placa de Petri com soro fisiológico.
Os cientistas fizeram testes com amostras de sangue de camundongos e notaram que, de acordo com o animal doador, a produção de células-tronco neurais diminuía ou aumentava.
“No soro havia moléculas que atuavam na neurogênese adulta, principalmente nas células-tronco. Sabíamos que a corticosterona, que é um biomarcador do estresse, estava em ação”, explica o cientista.
Mas, expostos a diferentes situações, os camundongos mais ansiosos por natureza ou submetidos a algum tipo de estresse tinham uma proliferação menor de células-tronco cerebrais.
A equipe de Nicolas Toni então analisou o sangue dos animais no laboratório de Neurociências Psiquiátricas do Hospital Universitário de Lausanne, comparando-o a amostras de sangue de cerca de 80 pacientes atendidos no hospital da instituição, muitos usuários de ansiolíticos.
Os cientistas buscavam descobrir se o sangue desses pacientes também inibia a neurogênese. O estudo in vitro resultou em uma ampla análise bioquímica.
“Foi assim que descobrimos que a molécula que mais se correlacionava com a proliferação das células-tronco in vitro e com o nível de ansiedade do paciente era o lipídio LPA 16:0.
]]>“A ansiedade é um fator de risco. Não é porque somos ansiosos que teremos depressão, mas ela aumenta o risco da doença. Então, foi interessante observar se, entre os pacientes com transtornos psiquiátricos, havia uma variação desse biomarcador. Temos um biomarcador que é independente do diagnóstico, e isso é o que é interessante.”
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A descoberta gera novas perspectivas para o diagnóstico das doenças mentais. A ansiedade é uma emoção humana normal, que nos permite lidar com situações de risco, tomar decisões adequadas e nos proteger de ameaças. Quando esse estado de alerta se torna frequente, com sintomas emocionais e físicos, pode indicar um transtorno mental, como a depressão.
Há várias décadas, os psiquiatras se baseiam em questionários de autoavaliação ou outros testes comportamentais para identificar o transtorno de ansiedade. Esses métodos têm seus limites, porque resultam de análises subjetivas, que nem sempre condizem com o estado real do paciente.
Esse processo de neurogênese é essencial para a plasticidade cerebral e ocorre no hipocampo, uma estrutura situada nos lobos temporais do cérebro e considerada a sede da memória e do aprendizado.
“A ansiedade é um fator preditivo de outros transtornos psiquiátricos, principalmente a depressão. Saber com antecedência, se fazemos parte do grupo de risco, faz com que possamos preveni-los.”
Durante a pesquisa, os cientistas injetaram o lipídio em animais e descobriram que ele diminuía a resistência deles ao estresse e à depressão. Inversamente, uma molécula que bloqueia o receptor desse lipídio mostrou um efeito antidepressivo dependente da neurogênese adulta.
“Isso corrobora o fato de que a ansiedade é um fator de risco para a depressão, que a neurogênese adulta tem um papel na transição da ansiedade para a depressão”, explica o cientista suíço.
Os cientistas agora devem aprofundar os estudos e testar a toxicidade e a tolerância à molécula para, no futuro, introduzir o biomarcador na prática clínica. A equipe do cientista suíço estuda há vários anos a neurogênese em adultos e as células-tronco neurais presentes no hipocampo, explica Nicolas Toni.
Elas têm uma estrutura bastante específica, parecida com uma árvore. Ao microscópio, os cientistas puderam observar que esses pequenos “galhos” envolviam não só as sinapses — que são a transmissão de sinais entre os neurônios —, mas também os vasos sanguíneos.
“A primeira pergunta que fizemos foi: será que moléculas que circulam no sangue podem regular a neurogênese e a função das células-tronco neurais?”
Essa primeira hipótese foi o resultado de quatro anos de pesquisa. No laboratório, a equipe começou a testar o que acontecia quando o sangue entrava em contato com essas células em uma placa de Petri com soro fisiológico.
Os cientistas fizeram testes com amostras de sangue de camundongos e notaram que, de acordo com o animal doador, a produção de células-tronco neurais diminuía ou aumentava.
“No soro havia moléculas que atuavam na neurogênese adulta, principalmente nas células-tronco. Sabíamos que a corticosterona, que é um biomarcador do estresse, estava em ação”, explica o cientista.
Mas, expostos a diferentes situações, os camundongos mais ansiosos por natureza ou submetidos a algum tipo de estresse tinham uma proliferação menor de células-tronco cerebrais.
A equipe de Nicolas Toni então analisou o sangue dos animais no laboratório de Neurociências Psiquiátricas do Hospital Universitário de Lausanne, comparando-o a amostras de sangue de cerca de 80 pacientes atendidos no hospital da instituição, muitos usuários de ansiolíticos.
Os cientistas buscavam descobrir se o sangue desses pacientes também inibia a neurogênese. O estudo in vitro resultou em uma ampla análise bioquímica.
“Foi assim que descobrimos que a molécula que mais se correlacionava com a proliferação das células-tronco in vitro e com o nível de ansiedade do paciente era o lipídio LPA 16:0.
]]>“A ansiedade é um fator de risco. Não é porque somos ansiosos que teremos depressão, mas ela aumenta o risco da doença. Então, foi interessante observar se, entre os pacientes com transtornos psiquiátricos, havia uma variação desse biomarcador. Temos um biomarcador que é independente do diagnóstico, e isso é o que é interessante.”
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A semaglutida, a liraglutida, a dulaglutida e a tirzepatida são moléculas sintéticas que “imitam” o GLP-1, um hormônio intestinal. Elas controlam o apetite, a sensação de saciedade e o nível de glicose no sangue, facilitando o emagrecimento — mesmo sem excesso de peso. A diferença entre essas substâncias, conhecidas pelos nomes comerciais Ozempic, Wegovy e Mounjaro — que atua no GLP-1 e no GIP, outro peptídeo — está na posologia, dosagem, potência de ação e efeitos colaterais.
O uso estético das canetas é um fenômeno que se expande em vários países e vem sendo analisado em estudos internacionais. Uma das pesquisas, publicada recentemente na revista científica Obesity, foi coordenada por Fernanda Scagliusi, que dirige o Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC), e Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV), das Faculdades de Medicina e de Saúde Pública da USP. O estudo contou com a participação de especialistas do Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Japão, que alertam para a "economia moral da magreza".
“O Brasil é um país em que a pressão estética pela magreza e a gordofobia são muito fortes e violentas. Mesmo uma pessoa com peso considerado clinicamente normal vai sofrer por causa do corpo e sentir necessidade de usar esses medicamentos. Temos insistido nisso: quando uma pessoa usa algo, é porque acredita que tem necessidade”, diz Fernanda.
A equipe da pesquisadora trabalha atualmente em outros estudos que analisam a venda das canetas emagrecedoras no mercado desregulamentado. No Paraguai, os medicamentos podem ser comprados sem receita nas farmácias e em camelôs e no Brasil, algumas farmácias de manipulação fabricam e vendem os remédios sem o controle da Anvisa. Até meados do ano passado, também era possível adquirir as moléculas sem receita nas farmácias brasileiras.
Com ou sem prescrição médica, o alto custo dos medicamentos — uma caixa de Mounjaro, por exemplo, pode custar mais de R$ 2,5 mil — incentiva o mercado paralelo. “Estamos fazendo um estudo sobre esteroides e anabolizantes e percebemos que grupos no WhatsApp e no Telegram que vendiam esteroides e anabolizantes também estavam vendendo essas canetas”, explica Fernanda. Esses mesmos grupos, diz, vendem remédios psiquiátricos, drogas ilícitas e, em alguns casos, até armas de fogo.
"Essas canetas obtidas fora das vias regulares podem impactar a saúde das pessoas. Às vezes não é a droga em si, o princípio ativo, mas um contaminante, uma impureza, que pode prejudicar a saúde e até levar ao óbito.”
Em relatório publicado no ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que mais estudos são necessários para avaliar o uso a longo prazo dos análogos do GLP-1. “É uma medicação relativamente nova e não sabemos ainda quais são os efeitos colaterais do uso crônico. Nesse ponto, nosso grupo tem divergido bastante dos endocrinologistas, que repetem o mesmo discurso da indústria farmacêutica: a obesidade é uma doença crônica, e toda doença crônica exige tratamento para o resto da vida, como diabetes e hipertensão”, observa a pesquisadora brasileira.
“Existem outros fatores que influenciam a relação entre peso e desfechos negativos de saúde. Entendemos também que chamar obesidade de doença traz uma carga de pânico e moralização social que não podemos ignorar. Além disso, não temos estudos que mostrem o que acontece quando as pessoas tomam esses medicamentos por 20, 30, 40 ou 50 anos.”
Segundo a pesquisadora, estudos da sua equipe também demonstraram que muitos dos efeitos colaterais considerados moderados pelos fabricantes afetam profundamente a rotina dos usuários. “Se a pessoa está o tempo todo com náusea, vomitando ou muito cansada, isso muda sua vida. Ela não consegue trabalhar como antes, ou tem dificuldades sociais. Muitas mulheres que entrevistei relatam que não conseguem mais fazer exercícios físicos.”
Segundo a endocrinologista Vanessa Santarosa, especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os medicamentos são recomendados para pacientes com sobrepeso leve ou moderado e condições metábolicas associadas, como colesterol elevado, triglicerídeos altos ou hipertensão, por exemplo.
Os análogos de GLP-1 também foram aprovados para uso na apneia do sono e a semaglutida foi aprovada para tratar a esteatose hepática, que é o acúmulo de gordura no fígado. “Essas são basicamente as indicações: obesidade, diabetes, sobrepeso com comorbidades, síndrome da apneia do sono e esteatose hepática. Fora desses contextos, o uso é inadequado e potencialmente prejudicial”, alerta a especialista.
De acordo com a endocrinologista, o uso estético “é proibido e fora de questão”, apesar da pressão de alguns pacientes. “Os médicos devem ser os primeiros a alertar sobre a indicação de uso e lembrar que se trata de um remédio, não de um produto comercial ou estético que possa ser usado sem risco. Nosso papel é informar e conversar sobre os eventuais efeitos colaterais. Diversas vezes não indiquei a medicação por falta de subsídio clínico, técnico ou laboratorial, e informei ao paciente que ele não poderia usar.”
Segundo ela, essa é a posição oficial da SBEM. “Esse é o consenso dos especialistas, e faço parte disso. Óbvio que existem profissionais e ‘profissionais’, como em todas as áreas. É uma falha de formação, agravada pela abertura de universidades sem critérios, formando profissionais com qualidade técnica aquém do necessário.”
O problema, ressalta, não se restringe à prescrição. “Talvez haja falha dos próprios profissionais ao deixarem de informar ativamente o paciente ou ao cederem ao uso inadequado. Mas também há questões de comercialização, regulamentação dos órgãos públicos e criminalidade, que fogem ao nosso controle.”
A endocrinologista lembra que o uso com acompanhamento traz benefícios a muitos pacientes. “São medicações ótimas, com muitos benefícios. Sempre digo aos pacientes que esses remédios não estão na moda à toa. Para nós, endocrinologistas, foram um divisor de águas”, ressalta, alertando também para a ausência de dados sobre uso prolongado.
]]>“Muitas pesquisas estão em andamento para trazer respostas que ainda não temos. Pacientes com indicação de uso contínuo, como os diabéticos, ficam preocupados. Por enquanto, os benefícios superam os riscos. Mas estão surgindo pesquisas e relatos de efeitos adversos cuja relação causal ainda precisa ser confirmada, para sabermos se esses efeitos mais graves podem ser atribuídos ao uso do remédio.”
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
A semaglutida, a liraglutida, a dulaglutida e a tirzepatida são moléculas sintéticas que “imitam” o GLP-1, um hormônio intestinal. Elas controlam o apetite, a sensação de saciedade e o nível de glicose no sangue, facilitando o emagrecimento — mesmo sem excesso de peso. A diferença entre essas substâncias, conhecidas pelos nomes comerciais Ozempic, Wegovy e Mounjaro — que atua no GLP-1 e no GIP, outro peptídeo — está na posologia, dosagem, potência de ação e efeitos colaterais.
O uso estético das canetas é um fenômeno que se expande em vários países e vem sendo analisado em estudos internacionais. Uma das pesquisas, publicada recentemente na revista científica Obesity, foi coordenada por Fernanda Scagliusi, que dirige o Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC), e Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV), das Faculdades de Medicina e de Saúde Pública da USP. O estudo contou com a participação de especialistas do Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Japão, que alertam para a "economia moral da magreza".
“O Brasil é um país em que a pressão estética pela magreza e a gordofobia são muito fortes e violentas. Mesmo uma pessoa com peso considerado clinicamente normal vai sofrer por causa do corpo e sentir necessidade de usar esses medicamentos. Temos insistido nisso: quando uma pessoa usa algo, é porque acredita que tem necessidade”, diz Fernanda.
A equipe da pesquisadora trabalha atualmente em outros estudos que analisam a venda das canetas emagrecedoras no mercado desregulamentado. No Paraguai, os medicamentos podem ser comprados sem receita nas farmácias e em camelôs e no Brasil, algumas farmácias de manipulação fabricam e vendem os remédios sem o controle da Anvisa. Até meados do ano passado, também era possível adquirir as moléculas sem receita nas farmácias brasileiras.
Com ou sem prescrição médica, o alto custo dos medicamentos — uma caixa de Mounjaro, por exemplo, pode custar mais de R$ 2,5 mil — incentiva o mercado paralelo. “Estamos fazendo um estudo sobre esteroides e anabolizantes e percebemos que grupos no WhatsApp e no Telegram que vendiam esteroides e anabolizantes também estavam vendendo essas canetas”, explica Fernanda. Esses mesmos grupos, diz, vendem remédios psiquiátricos, drogas ilícitas e, em alguns casos, até armas de fogo.
"Essas canetas obtidas fora das vias regulares podem impactar a saúde das pessoas. Às vezes não é a droga em si, o princípio ativo, mas um contaminante, uma impureza, que pode prejudicar a saúde e até levar ao óbito.”
Em relatório publicado no ano passado, a OMS (Organização Mundial da Saúde) alerta que mais estudos são necessários para avaliar o uso a longo prazo dos análogos do GLP-1. “É uma medicação relativamente nova e não sabemos ainda quais são os efeitos colaterais do uso crônico. Nesse ponto, nosso grupo tem divergido bastante dos endocrinologistas, que repetem o mesmo discurso da indústria farmacêutica: a obesidade é uma doença crônica, e toda doença crônica exige tratamento para o resto da vida, como diabetes e hipertensão”, observa a pesquisadora brasileira.
“Existem outros fatores que influenciam a relação entre peso e desfechos negativos de saúde. Entendemos também que chamar obesidade de doença traz uma carga de pânico e moralização social que não podemos ignorar. Além disso, não temos estudos que mostrem o que acontece quando as pessoas tomam esses medicamentos por 20, 30, 40 ou 50 anos.”
Segundo a pesquisadora, estudos da sua equipe também demonstraram que muitos dos efeitos colaterais considerados moderados pelos fabricantes afetam profundamente a rotina dos usuários. “Se a pessoa está o tempo todo com náusea, vomitando ou muito cansada, isso muda sua vida. Ela não consegue trabalhar como antes, ou tem dificuldades sociais. Muitas mulheres que entrevistei relatam que não conseguem mais fazer exercícios físicos.”
Segundo a endocrinologista Vanessa Santarosa, especialista pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), os medicamentos são recomendados para pacientes com sobrepeso leve ou moderado e condições metábolicas associadas, como colesterol elevado, triglicerídeos altos ou hipertensão, por exemplo.
Os análogos de GLP-1 também foram aprovados para uso na apneia do sono e a semaglutida foi aprovada para tratar a esteatose hepática, que é o acúmulo de gordura no fígado. “Essas são basicamente as indicações: obesidade, diabetes, sobrepeso com comorbidades, síndrome da apneia do sono e esteatose hepática. Fora desses contextos, o uso é inadequado e potencialmente prejudicial”, alerta a especialista.
De acordo com a endocrinologista, o uso estético “é proibido e fora de questão”, apesar da pressão de alguns pacientes. “Os médicos devem ser os primeiros a alertar sobre a indicação de uso e lembrar que se trata de um remédio, não de um produto comercial ou estético que possa ser usado sem risco. Nosso papel é informar e conversar sobre os eventuais efeitos colaterais. Diversas vezes não indiquei a medicação por falta de subsídio clínico, técnico ou laboratorial, e informei ao paciente que ele não poderia usar.”
Segundo ela, essa é a posição oficial da SBEM. “Esse é o consenso dos especialistas, e faço parte disso. Óbvio que existem profissionais e ‘profissionais’, como em todas as áreas. É uma falha de formação, agravada pela abertura de universidades sem critérios, formando profissionais com qualidade técnica aquém do necessário.”
O problema, ressalta, não se restringe à prescrição. “Talvez haja falha dos próprios profissionais ao deixarem de informar ativamente o paciente ou ao cederem ao uso inadequado. Mas também há questões de comercialização, regulamentação dos órgãos públicos e criminalidade, que fogem ao nosso controle.”
A endocrinologista lembra que o uso com acompanhamento traz benefícios a muitos pacientes. “São medicações ótimas, com muitos benefícios. Sempre digo aos pacientes que esses remédios não estão na moda à toa. Para nós, endocrinologistas, foram um divisor de águas”, ressalta, alertando também para a ausência de dados sobre uso prolongado.
]]>“Muitas pesquisas estão em andamento para trazer respostas que ainda não temos. Pacientes com indicação de uso contínuo, como os diabéticos, ficam preocupados. Por enquanto, os benefícios superam os riscos. Mas estão surgindo pesquisas e relatos de efeitos adversos cuja relação causal ainda precisa ser confirmada, para sabermos se esses efeitos mais graves podem ser atribuídos ao uso do remédio.”
As estimativas do Observatório Global do Câncer (GCO, na sigla em inglês) englobam 185 países e 36 tipos de câncer. Segundo os dados, coletados em 2022, dois terços de todos os novos casos e mortes pela doença no mundo concentram dez tipos de tumores malignos.
O câncer de pulmão é o mais comum, com 2,5 milhões de novos diagnósticos, e representa 12,4% do total. O câncer de mama chega em segundo lugar, com 2,3 milhões de casos (11,6%) e o colorretal ocupa a terceira posição, com 1,9 milhão de casos (9,6%), seguido pelo câncer de próstata, que registra 1,5 milhão de diagnósticos (7,3%). Na quinta posição está o câncer de estômago, responsável por 970 mil casos e equivalente a 4,9% do total mundial.
“O câncer é uma palavra que gera medo, e os pacientes e suas famílias se questionam muito quando têm o diagnóstico. Na realidade, quando os pacientes são atendidos e o tratamento começa, essas dúvidas são menos recorrentes, mas é importante continuar falando sobre elas e deixar a porta do consultório sempre aberta para respondê‑las”, explica a oncologista francesa Laurence Albigès.
Em função do órgão afetado e do tipo de câncer, a abordagem médica será diferente, mas há outros fatores que influenciam as decisões das equipes.
“O prognóstico está relacionado à extensão da doença. O tumor é localizado e pode ser curado? Ou a doença já se disseminou, está se propagando e existem metástases? Nesse caso, mesmo que uma remissão não seja impossível, com frequência o câncer vai evoluir no organismo.”
A taxa de mortalidade de um determinado tipo de câncer está baseada em dados científicos e epidemiológicos, e com frequência está diretamente relacionada às chances de melhora do paciente. Mas essas estatísticas dão apenas uma dimensão global da situação. Cada caso traz suas especificidades no manejo, reitera a oncologista francesa, lembrando que o atendimento é cada vez mais personalizado.
“Essas estatísticas não se aplicam a um indivíduo. O paciente será acompanhado, e teremos ao longo de sua trajetória cada vez mais acesso a diferentes tipos de tratamentos, mais inovadores. No Instituto Gustave Roussy, por exemplo, temos novos medicamentos sendo testados. Por isso é sempre importante explicar que essas estatísticas não se aplicam a uma pessoa.”
Outros critérios, independentemente da gravidade da doença, devem ser levados em conta. Entre eles estão o sistema de saúde, o acesso a tratamentos inovadores, a formação dos profissionais e o financiamento das diferentes formas de atendimento, que têm impacto direto na remissão, cura e sobrevida.
O que significam os quatro estágios do câncer, que vão vão de um a quatro e indicam o nível de evolução da doença? Nos dois primeiros estágios, as células cancerígenas estão restritas ao órgão afetado, e a remissão e a cura são, com frequência, possíveis. No estágio 3, o tumor está começando a se espalhar, e no 4 atingiu outros órgãos, ou seja, há metástase.
Outra questão frequente envolve a diferença existente entre cânceres líquidos e sólidos, que são tumores malignos que aparecem em diferentes órgãos, como pulmão, mama e próstata. Os cânceres hematológicos, que se localizam nas células sanguíneas ou da medula óssea, são chamados de "líquidos", com alterações visíveis em um hemograma, por exemplo.
De acordo com a oncologista francesa, a morfologia do órgão atingido pelo tumor maligno é um fator essencial. No cérebro, por exemplo, os cânceres às vezes se infiltram nos sulcos. Isso faz com que, cirurgicamente, a retirada completa do tumor seja complexa.
Outro problema é a ausência de sintomas que caracteriza alguns cânceres, como o de pâncreas, por exemplo, impedindo a detecção precoce. Mas a prevenção personalizada, que está cada vez mais difundida na França e em outros países, deve ajudar a amenizar esse problema. O objetivo é antecipar o aparecimento do câncer e agir em função dos dados preditivos.
O Instituto Gustave Roussy, por exemplo, criou um programa individual de diagnóstico da doença, disponível em cerca de 700 centros de combate ao câncer na França. O centro propõe a biópsia líquida — a detecção do DNA tumoral no sangue. Essa nova técnica permite às equipes isolar anomalias biológicas dentro de uma célula. Essas células que ainda não se transformaram em tumores malignos poderão ser alvos terapêuticos de futuros tratamentos, que também evoluem cada vez mais rapidamente.
Os mais conhecidos, como a quimioterapia, a radioterapia e, mais recentemente, a imunoterapia, ainda são referência, mas novas terapias, ainda em fase de estudos, vêm sendo testadas nos pacientes com resultados cada vez mais promissores. Os avanços possibilitam que a doença que deixou de ser uma sentença de morte em vários casos, se torne cada vez mais uma patologia crônica, com a qual muitos pacientes deverão conviver por vários anos.
]]>As estimativas do Observatório Global do Câncer (GCO, na sigla em inglês) englobam 185 países e 36 tipos de câncer. Segundo os dados, coletados em 2022, dois terços de todos os novos casos e mortes pela doença no mundo concentram dez tipos de tumores malignos.
O câncer de pulmão é o mais comum, com 2,5 milhões de novos diagnósticos, e representa 12,4% do total. O câncer de mama chega em segundo lugar, com 2,3 milhões de casos (11,6%) e o colorretal ocupa a terceira posição, com 1,9 milhão de casos (9,6%), seguido pelo câncer de próstata, que registra 1,5 milhão de diagnósticos (7,3%). Na quinta posição está o câncer de estômago, responsável por 970 mil casos e equivalente a 4,9% do total mundial.
“O câncer é uma palavra que gera medo, e os pacientes e suas famílias se questionam muito quando têm o diagnóstico. Na realidade, quando os pacientes são atendidos e o tratamento começa, essas dúvidas são menos recorrentes, mas é importante continuar falando sobre elas e deixar a porta do consultório sempre aberta para respondê‑las”, explica a oncologista francesa Laurence Albigès.
Em função do órgão afetado e do tipo de câncer, a abordagem médica será diferente, mas há outros fatores que influenciam as decisões das equipes.
“O prognóstico está relacionado à extensão da doença. O tumor é localizado e pode ser curado? Ou a doença já se disseminou, está se propagando e existem metástases? Nesse caso, mesmo que uma remissão não seja impossível, com frequência o câncer vai evoluir no organismo.”
A taxa de mortalidade de um determinado tipo de câncer está baseada em dados científicos e epidemiológicos, e com frequência está diretamente relacionada às chances de melhora do paciente. Mas essas estatísticas dão apenas uma dimensão global da situação. Cada caso traz suas especificidades no manejo, reitera a oncologista francesa, lembrando que o atendimento é cada vez mais personalizado.
“Essas estatísticas não se aplicam a um indivíduo. O paciente será acompanhado, e teremos ao longo de sua trajetória cada vez mais acesso a diferentes tipos de tratamentos, mais inovadores. No Instituto Gustave Roussy, por exemplo, temos novos medicamentos sendo testados. Por isso é sempre importante explicar que essas estatísticas não se aplicam a uma pessoa.”
Outros critérios, independentemente da gravidade da doença, devem ser levados em conta. Entre eles estão o sistema de saúde, o acesso a tratamentos inovadores, a formação dos profissionais e o financiamento das diferentes formas de atendimento, que têm impacto direto na remissão, cura e sobrevida.
O que significam os quatro estágios do câncer, que vão vão de um a quatro e indicam o nível de evolução da doença? Nos dois primeiros estágios, as células cancerígenas estão restritas ao órgão afetado, e a remissão e a cura são, com frequência, possíveis. No estágio 3, o tumor está começando a se espalhar, e no 4 atingiu outros órgãos, ou seja, há metástase.
Outra questão frequente envolve a diferença existente entre cânceres líquidos e sólidos, que são tumores malignos que aparecem em diferentes órgãos, como pulmão, mama e próstata. Os cânceres hematológicos, que se localizam nas células sanguíneas ou da medula óssea, são chamados de "líquidos", com alterações visíveis em um hemograma, por exemplo.
De acordo com a oncologista francesa, a morfologia do órgão atingido pelo tumor maligno é um fator essencial. No cérebro, por exemplo, os cânceres às vezes se infiltram nos sulcos. Isso faz com que, cirurgicamente, a retirada completa do tumor seja complexa.
Outro problema é a ausência de sintomas que caracteriza alguns cânceres, como o de pâncreas, por exemplo, impedindo a detecção precoce. Mas a prevenção personalizada, que está cada vez mais difundida na França e em outros países, deve ajudar a amenizar esse problema. O objetivo é antecipar o aparecimento do câncer e agir em função dos dados preditivos.
O Instituto Gustave Roussy, por exemplo, criou um programa individual de diagnóstico da doença, disponível em cerca de 700 centros de combate ao câncer na França. O centro propõe a biópsia líquida — a detecção do DNA tumoral no sangue. Essa nova técnica permite às equipes isolar anomalias biológicas dentro de uma célula. Essas células que ainda não se transformaram em tumores malignos poderão ser alvos terapêuticos de futuros tratamentos, que também evoluem cada vez mais rapidamente.
Os mais conhecidos, como a quimioterapia, a radioterapia e, mais recentemente, a imunoterapia, ainda são referência, mas novas terapias, ainda em fase de estudos, vêm sendo testadas nos pacientes com resultados cada vez mais promissores. Os avanços possibilitam que a doença que deixou de ser uma sentença de morte em vários casos, se torne cada vez mais uma patologia crônica, com a qual muitos pacientes deverão conviver por vários anos.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI Brasil em Paris
O cientista francês Antoine Balzeau estuda há cerca de 20 anos os endocrânios dos nossos ancestrais. Essa superfície funciona como um molde natural e guarda marcas deixadas pelo cérebro ao longo da vida à medida que ele cresce, fornecendo pistas, por exemplo, sobre seu tamanho.
Como o órgão é um tecido mole, não existem fósseis de cérebros humanos e as impressões deixadas no endocrânio são uma das únicas maneiras que os cientistas têm de tentar reconstruir o cérebro de nossos antepassados. Conhecer essas marcas em detalhes abre perspectivas inéditas para a ciência, como entender, por exemplo, qual é a relação entre as estruturas cerebrais e o comportamento.
"O objetivo é estudar o cérebro dos humanos pré-históricos, mas esse órgão não se fossiliza. Só nos resta o crânio e, dentro dele, o endocrânio, onde o cérebro deixa impressões, que vamos reconstituir e analisar para tentar compreender a forma do cérebro do homem pré-histórico", explica Antoine Balzeau, que também atua no CNRS (Instituto Nacional de Pesquisa Científica)
As análises científicas que envolvem o endocrânio são "bastante subjetivas", segundo o pesquisador. Para comparar o cérebro dos homens pré-históricos com os dos humanos de hoje, os cientistas dispõem principalmente de enciclopédias de anatomia cerebral ou de outros documentos similares, cujos dados são baseados na média populacional.
A nova cartografia muda esse cenário. "Decidimos investir na criação de uma padronização científica para realizar essa análise e entender, de fato, a relação entre a forma do cérebro e as marcas deixadas na superfície interna do crânio." Esse banco de dados fornece informações detalhadas em forma de impressões cerebrais no endocrânio, que ajudará os cientistas a decodificar o cérebro pré-histórico.
O estudo conduzido pelo cientista francês durou cerca de três anos e envolveu 75 participantes de 18 a 75 anos, que passaram por um exame aprofundado de ressonância magnética, de cerca de três horas, no Instituto do Cérebro, no hospital parisiense Pitié-Salpêtrière, localizado no 5º distrito da capital.
O avanço dos exames de imagem nos últimos anos permitiu à equipe do cientista francês "fotografar" em detalhes o endocrânio dos voluntários, mas exigiu adaptação das ferramentas e dos programas de informática utilizados nas análises dos dados da ressonância.
"Conseguimos reunir um grande volume de informações. Fizemos uma ressonância magnética no cérebro, outras duas específicas para o formato do crânio e outras imagens das estruturas cerebrais internas. O objetivo foi obter uma enorme base de dados anatômica, que ainda será explorada por muitos anos para tentar entender melhor todos os mistérios que envolvem o órgão", diz.
A análise dos dados obtidos demorou cerca de um ano. "Foi preciso identificar todas as marcas deixadas no cérebro e no molde craniano, fazer as correlações necessárias, as estatísticas, comparar, escrever e analisar." O perfil dos voluntários, destaca Antoine Balzeau, era variado e incluía homens e mulheres na mesma proporção, além de atletas, músicos, destros, canhotos e pessoas com outras especificidades.
A diversidade anatômica cerebral e comportamental foi um dos critérios fundamentais. De acordo com o pesquisador, objetivo é utilizar os mesmos dados em um outro estudo sobre a relação existente entre o formato do cérebro e o comportamento, que ainda está em fase de preparação.
Após a conclusão da pesquisa, Antoine Balzeau enviou os resultados para outros cientistas da área e pediu que eles descrevessem os endocrânios ancestrais com base nos novos dados disponibilizados pelo estudo. O resultado foi surpreendente. Os pesquisadores perceberam que, até então, trabalhavam com critérios imprecisos, exatamente como imaginou o pesquisador francês no início do estudo.
"O que produzimos, no fim, foi uma cartografia de 75 indivíduos, que traz a relação detalhada entre os sulcos cerebrais e a forma do endocrânio, além de todas as marcas existentes. O artigo que publicamos reúne todas as informações e dados possíveis, além de todas as suas variações, para que os pesquisadores possam ter critérios de análise extremamente precisos", explica.
Outra finalidade da pesquisa, ressalta o paleoantropólogo, é entender como funciona o cérebro humano. "Isso é complicado porque sabemos que há áreas cerebrais envolvidas em diferentes funções, como a linguagem ou a visão. Mas, nessas áreas, não é só o tamanho e a posição que contam: é preciso encontrar uma relação entre a forma e a assimetria de um lado em relação ao outro e o comportamento", explica.
"Alguns voluntários são destros ou canhotos, por exemplo, e assim poderemos observar se há impacto na forma ou na posição no cérebro e, se for o caso, aplicar esse conhecimento na análise de um fóssil", conclui.
]]>Taíssa Stivanin, da RFI Brasil em Paris
O cientista francês Antoine Balzeau estuda há cerca de 20 anos os endocrânios dos nossos ancestrais. Essa superfície funciona como um molde natural e guarda marcas deixadas pelo cérebro ao longo da vida à medida que ele cresce, fornecendo pistas, por exemplo, sobre seu tamanho.
Como o órgão é um tecido mole, não existem fósseis de cérebros humanos e as impressões deixadas no endocrânio são uma das únicas maneiras que os cientistas têm de tentar reconstruir o cérebro de nossos antepassados. Conhecer essas marcas em detalhes abre perspectivas inéditas para a ciência, como entender, por exemplo, qual é a relação entre as estruturas cerebrais e o comportamento.
"O objetivo é estudar o cérebro dos humanos pré-históricos, mas esse órgão não se fossiliza. Só nos resta o crânio e, dentro dele, o endocrânio, onde o cérebro deixa impressões, que vamos reconstituir e analisar para tentar compreender a forma do cérebro do homem pré-histórico", explica Antoine Balzeau, que também atua no CNRS (Instituto Nacional de Pesquisa Científica)
As análises científicas que envolvem o endocrânio são "bastante subjetivas", segundo o pesquisador. Para comparar o cérebro dos homens pré-históricos com os dos humanos de hoje, os cientistas dispõem principalmente de enciclopédias de anatomia cerebral ou de outros documentos similares, cujos dados são baseados na média populacional.
A nova cartografia muda esse cenário. "Decidimos investir na criação de uma padronização científica para realizar essa análise e entender, de fato, a relação entre a forma do cérebro e as marcas deixadas na superfície interna do crânio." Esse banco de dados fornece informações detalhadas em forma de impressões cerebrais no endocrânio, que ajudará os cientistas a decodificar o cérebro pré-histórico.
O estudo conduzido pelo cientista francês durou cerca de três anos e envolveu 75 participantes de 18 a 75 anos, que passaram por um exame aprofundado de ressonância magnética, de cerca de três horas, no Instituto do Cérebro, no hospital parisiense Pitié-Salpêtrière, localizado no 5º distrito da capital.
O avanço dos exames de imagem nos últimos anos permitiu à equipe do cientista francês "fotografar" em detalhes o endocrânio dos voluntários, mas exigiu adaptação das ferramentas e dos programas de informática utilizados nas análises dos dados da ressonância.
"Conseguimos reunir um grande volume de informações. Fizemos uma ressonância magnética no cérebro, outras duas específicas para o formato do crânio e outras imagens das estruturas cerebrais internas. O objetivo foi obter uma enorme base de dados anatômica, que ainda será explorada por muitos anos para tentar entender melhor todos os mistérios que envolvem o órgão", diz.
A análise dos dados obtidos demorou cerca de um ano. "Foi preciso identificar todas as marcas deixadas no cérebro e no molde craniano, fazer as correlações necessárias, as estatísticas, comparar, escrever e analisar." O perfil dos voluntários, destaca Antoine Balzeau, era variado e incluía homens e mulheres na mesma proporção, além de atletas, músicos, destros, canhotos e pessoas com outras especificidades.
A diversidade anatômica cerebral e comportamental foi um dos critérios fundamentais. De acordo com o pesquisador, objetivo é utilizar os mesmos dados em um outro estudo sobre a relação existente entre o formato do cérebro e o comportamento, que ainda está em fase de preparação.
Após a conclusão da pesquisa, Antoine Balzeau enviou os resultados para outros cientistas da área e pediu que eles descrevessem os endocrânios ancestrais com base nos novos dados disponibilizados pelo estudo. O resultado foi surpreendente. Os pesquisadores perceberam que, até então, trabalhavam com critérios imprecisos, exatamente como imaginou o pesquisador francês no início do estudo.
"O que produzimos, no fim, foi uma cartografia de 75 indivíduos, que traz a relação detalhada entre os sulcos cerebrais e a forma do endocrânio, além de todas as marcas existentes. O artigo que publicamos reúne todas as informações e dados possíveis, além de todas as suas variações, para que os pesquisadores possam ter critérios de análise extremamente precisos", explica.
Outra finalidade da pesquisa, ressalta o paleoantropólogo, é entender como funciona o cérebro humano. "Isso é complicado porque sabemos que há áreas cerebrais envolvidas em diferentes funções, como a linguagem ou a visão. Mas, nessas áreas, não é só o tamanho e a posição que contam: é preciso encontrar uma relação entre a forma e a assimetria de um lado em relação ao outro e o comportamento", explica.
"Alguns voluntários são destros ou canhotos, por exemplo, e assim poderemos observar se há impacto na forma ou na posição no cérebro e, se for o caso, aplicar esse conhecimento na análise de um fóssil", conclui.
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