Em resenha anterior a este periódico, que tenho o hábito de consultar com frequência para acompanhar Cabo Verde, propus a ideia de fala franca, ou parresia, como um exercício filosófico importante1. O tema me é caro e se articula com outros eixos da investigação que desenvolvo atualmente na PUC-Campinas, como pós-doutorando, em torno da Filosofia de Vida. A essa constelação de conceitos somaria ainda outras noções centrais para uma filosofia de vida entendida como prática existencial, a escrita de si (hupomnemata), a epistrophe (conversão do olhar, retorno a si) e a anachoresis (retirada em si mesmo).
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O presente texto parte de uma inquietação de fundo, a de que o debate entre criacionismo e evolucionismo é, em boa medida, um problema epistemológico mal formulado, ou melhor, um problema que frequentemente se recusa a ser formulado como tal. Tanto o criacionismo de certas vertentes evangélicas/protestantes quanto o ateísmo militante de alguns divulgadores científicos cometem erros simétricos, o de tratar questões de convicção como se fossem questões de evidência, e o de tratar evidências como se fossem convicções. A obra de José María Castillo, Jesus: a humanização de Deus, oferece, nesse contexto, um instrumental conceitual preciso e raras vezes explorado fora dos círculos da teologia acadêmica. O que Castillo elabora no capítulo inaugural do livro, a distinção entre 'conhecimento' e 'convicção', não é um argumento apologético, é uma contribuição epistemológica que, rigorosamente aplicada, tem consequências para o debate público sobre religião e ciência.
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