
Não é muito difícil de entender tamanha disparidade: a caverna é um ambiente tão rude quanto delicado, e um aventureiro incauto pode vir a se acidentar feio (com um abismo inesperado ou um desmoronamento súbito) ou quebrar os raros e delicados espeleotemas, um crime ambiental severo. Mas cavernas horizontais secas, em que o problema maior é se perder ou acabar a luz não vejo motivo para tanta burocracia. Pois, afinal de contas, dentro da caverna não há cobras, galhos de árvores ou felinos de grande porte. Mais uma vez: o grande perigo se encontra nas cavernas com água corrente ou aquelas que possuem abismos.
Há uma correlação: as maiores cavernas descobertas são as que tem a maior visitação e passeios rasos e seguros e por isso mesmo limitado. Vide Santana, no Petar ou Torrinha, na Bahia, caves que só recebem visitas mais ousadas de pesquisadores. A boa notícia é que os buracos desconhecidos são quase sempre de livre acesso mas de topografia desconhecida: você pode achar um pocinho sem vergonha ou, com sorte, um sistema cavernístico quilométrico, digno de entrar nos livros de geografia. Exploração é isso: dar de cara com um beco sem saída na maioria das vezes.

Você até pode pegar o Google Earth e procurar por paisagens karsticas, mas a forma mais favorável é conhecer os senhores nativos de uma conhecida região cavernística, pois eles sempre conhecem histórias de buracos que engolem gado e que ninguém tem coragem de entrar. Esse trabalho de engenharia social consome um tanto de dinheiro, pois você vai precisar de algum tempo de pesquisa e uma logística bem trabalhada: transporte automotor até a suposta cave ou uma viagem de trekking que pode consumir alguns dias. Se a cave for vertical e requer rapel e jumar, prepare-se para carregar muito peso.
Esqueça qualquer tecnologia moderna. O mapeamento e navegação dos homens-tatú é a mesma há séculos. Começam a surgir timidamente sistemas de mapeamento em 3D, digital, usando sonares e lasers, mas são aparelhos caríssimos e em fase experimental. Sendo muito cauteloso e extremamente metódico, não tem erro. Mas sem este cuidado, pode haver muito erro. A cave possui o mesmo canto da sereia dos sete mares; você vai aprofundando-se encantado com suas belezas e seduzido pelo desconhecido. Quando se dá conta, é tarde demais: você se perdeu nas migalhas de pão de João e o pé de feijão. Ou era João e Maria na selva?

Explorar uma caverna com uma carta topográfica ou mesmo um simples croqui é um luxo muito raro; e desenhar um mapa com o mínimo de precisão no momento da sua aventura dá um trabalhão. Para o aventureiro mediano como você e eu, que queremos apenas passar algumas horas caminhando ou arrastando-se por uma paisagem diferente de tudo, precisamos voltar aos rudimentos da navegação: as pedrinhas.

Cada explorador tem seu sistema pessoal de marcação. O mais importante é nunca-jamais-sob-hipótese-alguma quebrar um espeleotema para orientar-se. Nem riscar as paredes. Mas você é um leitor inteligente, culto e educado e já deve saber disso. Crie totens com pedrihas soltas no caminho, e ordene-as de modo a apontar a saída. E isso é importante: a sua baliza deve sempre apontar para a saída, e nunca para dentro da caverna, ou seja, você vai apontar suas pedrinhas na direção de onde veio. Faça-as em local de boa visibilidade, e ao afastar-se alguns metros dando segmento à sua exploração, olhe para trás e confirme se ela está bem visível. Sua marcação deve ser feita logo após uma curva ou passagem estreita, ou no meio de uma longa caminhada por um túnel contínuo. Quanto mais totens, melhor. E cobre-se constantemente de cria-los, não se deixe levar pelo canto da sereia.
O equipamento mais básico do explorador subterrâneo é sua fiél lanterna, seguido pelo seu leal capacete. Roupas resistentes não só ajudam como são muito necessárias. Caverna é um ambiente extremamente sujo em que você vai se arrastar por horas nos piores terrenos. Joelheira e cotoveleiras podem lhe evitar muitos machucados.

O pessoal do mergulho submarino tem muito a nos ensinar: o tanque de ar de um mergulhador é dividido da seguinte forma: um terço de ar para a ida, outro terço para a volta e o terço restante como margem de segurança. Lanternas? Pelo menos três. Acredito que a regra pode ser válida para o subterrâneo: pelo menos três lanternas boas (eu disse boas) e pilhas ou carga de bateria segundo a regra dos terços. E, escondido e muito bem protegido na mochila (contra impactos e estanque à água) uma caixa de fósforos e vela, como o último recurso em caso de desastre. As pilhas da lanterna têm que ser do mesmo modelo, para que você possa intercambia-los em caso de merda. E saiba previamente, testando em casa, quanto tempo suas pilhas duram, lembrando que cada marca e modelo tem capacidades muito diferentes. Até dá para ser negligente com algumas coisas no espéleo, mas com lanterna e sua energia, não. Sua vida está na mão dela. Carburteira era tão mais confiável e luminosa quanto um trambolho a mais, pena que é coisa do passado.

No mais, sua mochila de exploração deve ser bem resistente à abrasão e provida de água (de um a cinco litros, dependendo do seu tempo imerso), um bom apito, bússola, caderno de notas (e caneta), kit de primeiros socorros, um agasalho, lanches nutritivos e saborosos, câmera fotográfica e um relógio. As horas lá embaixo passam beeeem rápido e é fundamental voltar antes que enviem uma equipe de resgate.
Uma caverna horizontal e sêca, não é perigosa, mas é extremamente arriscada. Dos riscos emergentes de perder-se ou acabar a luz, não há bombeiros treinados neste ambiente. Uma operação de resgate pode tornar-se um circo e você como um aventureiro consciente não vai querer ser o palhaço deste picadeiro. Estar cem por cento atento o tempo todo é extenuante e depois de uma ou duas horas de cavernada você já está completamente sem noção de direção.

Você sempre está levando contigo um excelente computador, dentro de sua cachola, então se você se perdeu, pare! Sente, tome um golinho d’água, coma um lanche e tome sua pílula imaginária de calma. Monte um totem sem direção definida. Calmamente e e com muita atenção, evitando afastar-se deste último totem de segurança comece a busca pelo totem anterior, aquele com a direção de saída. A busca deve ocorrer em forma de espiral: ao redor e próximo de onde você se ligou da cagada e expandindo o círculo até conhecer bem o local onde você se encontra para finalmente achar o caminho de volta. Nesse caso, talvez seja de bom tom sair da cave: essa é a prova do seu esgotamento mental, é hora de parar. A caverna é feita de pedra, por milhões de anos e continuará lá à sua espera. O passeio mais seguro é conhecendo bem a gruta, e a melhor forma de conhece-la é fazer muitas vezes, pouco-a-pouco. Sim, é uma atividade que requer extrema paciência e muita humildade para saber seu limite. Limite excedido leva a vida perdida.

Cavernas mais complexas requerem um rolo de fita de nylon de pedreiro, para você poder abusar um pouco de túneis, passagens e salões complicados. Marcar com caneta retroprojetora e uma fita resistente um sistema de numeração nos entroncamentos faz a brincadeira ficar mais séria. Num sistema gigante por onde passei, tinha um sistema de notação: fitas resistentes com alfanuméricos, e.g. 5Y78, que eu não entendi como funciona.
Lembrando que temos que fazer o backup do backup do backup, a mesma coisa com a superfície. Deixe bem claro com algum amigo de confiança para onde você está indo, com quem e que horas pretende estar de volta. Seu amigo tem que saber onde a cave fica ou conhecer quem sabe chegar lá. E ao chegar na boca da caverna, deixe anotado numa fita muito bem à mostra, os mesmos detalhes. Ao sair da cave, retire este papel e leve-o de volta para uma lixeira. É um sistema de dupla checagem para evitar piores acidentes e mal entendidos. Entendeu?

?foto, é claro. Essa é fácil: esqueça flash e modo automático, foto espeleológica é coisa de gente grande. Aprenda a usar o modo manual (se a sua câmera não tem, considere a aquisição de uma que tenha), e regule a abertura para vários segundos ou bulb. O ideal é ter alguém na foto, pois isso dá noção de tamanho para quem vai ver a foto futuramente. Deixe-a num tripé (ou base bem estável) caturando luz, enquanto você pinta os espéleotemas com a luz da headlamp. Verifique o resultado e tente de novo. E mais uma vez. É uma brincadeira que consome tempo e bateria, mas de resultados inesquecíveis.

Cavernar é a coisa que eu mais gosto de fazer. Você se arrasta por túneis pouco maior que seu corpo, bate a cabeça inúmeras vezes, fica atendo às horas e contabilizando as pilhas, sai imundo (e o equipa também), corre muito riscos (desabamentos, enchentes, abismos, isolamento, perder-se no escuro). Talvez por oferecer tantos desafios é uma atividade muito intensa psicologicamente, quem sabe até mais que a escalada. E se é extenuante, não poderia ser mais divertido. A caverna é um ambiente onírico, de belezas inigualáveis e riscos inconcebíveis, é o mais próximo da exploração de outro planeta que uma pessoa normal pode fazer.
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]]>Além do akampando, não deixe de ler o post as arveres somos nozes pois os nós apresentados são muito úteis para esta forma de bivacar?
off-topic: para quem curte infografia, este cara é foda!
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Com a rede você tem menos peso, volume e trabalho, mas a barraca pode te proteger melhor do frio, vento e chuva e ainda há aquela sensação gostosa de estar dormindo mais protegido. Eu costumo levar em consideração os seguintes pontos para escolher a barraca ao invés da rede, com base no destino de viagem:
O primeiro fator a ser considerado (além do preço, é claro) é o tamanho da sua futura morada. Recomendo barracas de no máximo 3 lugares; acima dessa quantidade de pessoas, dividam seu acampamento em várias tendas. O tipo mais comum de barraca é a iglú, e este modelo tem excelente geometria: são altas, de paredes quase verticais e são muito confortáveis, possibilitando sentar-se dentro delas. Mas este conforto tem um contraponto que é a aerodinâmica comprometida. Portanto, considere se você vai usa-la em ambientes que ventam muito. Tentar dormir sendo quase levado pelo vendaval é uma experiência nada agradável (mas muito empolgante!). A geometria vai indicar o quão aerodinâmica é. Cada dia surgem no mercado modelos com desenhos mais modernos e acredito que as iglús um dia farão parte do passado, assim como hoje em dia ninguém mais usa as lendárias canadenses, em forma de V invertido. Os materiais evoluem rapidamente e quando a relação de peso e resistência das varetas não for mais um problema, veremos modelos bem mais inteligentes à disposição.

Quanto a sua estrutura, existem basicamente dois tipos: as auto-portantes e as esticáveis. Se ao colocar as varetas a barraca fica em pé sozinha, e até permite ser deslocada de lugar, então ela é autoportante. Mas, se por outro lado, a barraca precisa ter seus speks fincados com certa pressão no solo de modo a estica-la e assim têla de pé, então você tem um modelo de armar à mão. As autoportantes são muito mais práticas, mas as esticáveis costumam ser mais leves. A maioria das autoportantes o é somente para a estrutura interna e a capa externa precisa ser esticada com speks. Se puder, compre uma barraca totalmente autoportante, em que a capa externa se encaixa nas pontas das varetas, deixando a tenda completamente portátil. Nem sonhe em comprar aquelas malditas barracas que armam em dois segundos; eu poderia escrever um artigo do tamanho desse falando de suas desvantagens.

A área que a barraca ocupa no chão é chamada de footprint. A barraca normalmente é composta por duas camadas: a proteção interna, de um tecido fino ou tela e a capa externa, impermeável para proteger do orvalho e chuva. Entre essas duas camadas há um espaçamento, portanto o interior da barraca é quase sempre menor que o footprint. Essa relação vai dizer o quão eficiente ela é em termos de uso de espaço. Alguns modelos para climas quentes, bem mais leves, usam apenas uma lona: escolha estes modelos somente se você acampar em lugares quentes e com índice pluviométrico baixo.
O isolamento térmico e à chuva depende essencialmente do quão bem montada e esticada. Portanto, repita comigo: “eu vou esticar minha barraca direitinho sempre, eu vou esticar minha barraca direitinho sempre, eu vou esticar minha barraca direitinho sempre”. Quanto ao isolamento térmico, costumam ser divididas em 2 categorias: 3 estações e 4 estações. Adivinhe qual é a estação que o primeiro modelo não comporta, e escolha o modelo mais adequado as suas necessidades.

Algo que não pode ser ignorado é o avancê ou vestíbulo. É a parte de lona externa que avança além da parte interna, criando um espaço para deixar equipamentos, como mochilas molhadas e botas sujas e que também será usado para cozinhar debaixo de chuva. Você conseguirá cozinhar de dentro da barraca sem se molhar? E com conforto? E a chama do fogareiro não vai gerar um incêndio ao ser aceso? Tenho uma barraca que já me fez passar fome por não permitir cozinhar debaixo de um pé d’água, foi frustrante.

Na loja em que você vai conhecer sua futura morada, monte-a por conta própria, com alguma (mas não muita) ajuda do vendedor. Procure contabilizar o tempo e a dificuldade de montagem, isso será muito importante num dia de chuva, frio ou cansaço. Entre, deite dentro dela, feche o zíper, vire-se, fique em várias posições: deitado com a cabeça de todos lados possíveis e sentado, na posição de cozinhar. Ter um monte de bolsos e fitas para pendurar seus badulaques é sempre vantagem e não acrescenta peso algum.

Observe a qualidade das varetas e prefira as de alumínio ao invés das fibra de vidro. Estas últimas costumam rachar com o tempo, embora as de alumínio requerem cuidado extra para não amassar. Por fim, evite cores escuras. Escolha entre azul, verde, cinza (todos em tonalidades claras), laranja e amarelo.
Lave sua barraca somente se ela estiver nojentamente suja, e para isso o melhor mesmo é faze-lo delicadamente no tanque com água morna e sabão neutro. Confesso: mandei à lavanderia certa vez e claro que foi a maior estupidez; hoje em dia não lavo minhas barracas. A terra que fica na parte em contato com o chão, num dia de calor e sol, irá se soltar com algumas palmadas. Caso você seja muito preciosista, pode comprar uma lona mais fina e barata e usa-la como footprint. Eu gosto da lona sobressalente para pôr logo à frente da porta, que servirá de tapete para a roda de amigos enquanto se faz a janta num bate-papo descontraído. Assim, todos poderão ficar descalços sem levar sujeira para dentro de casa ao entrar. Na manhã seguinte levante a barraca ainda armada, mas sem a capa externa e com a porta para baixo; sacuda-a energeticamente e a sujeira toda (e mais alguns grampos de cabelo, pilhas perdidas e moedas) vão cair, deixando-a limpinha para o próximo acampamento.

Enquanto a noite caia você distraidamente deixou a porta aberta enquanto fraternizava com seus amigos na lona azul do lado de fora e milhares de borrachudos sanguinolentos entraram no conforto do seu lar sem ser convidados. Ao tentar dormir aquele maldito zum-zum-zum te deixa louco e você começa a tentar a matança desses hereges, mas percebe que eles são imortais: repelente não os mata, as palmas só fazem barulho e cobrir-se com o saco de dormir na cabeça o sufoca. Que inferno de noite. Somente uma técnica poderá salva-lo: a técnica Jackson Pollock. Faça dela um jogo com seu companheiro: com polegares a postos e headlamps carregadas, espere-os ficarem quietos na parede branquinha. Pressione o polegar contra o maldito na parede e arraste-o alguns centímetros. A risca vermelha de sangue vai provar o ponto marcado. Vocês poderão contabilizar os pontos por borrachudo assassinado e volume de sangue espalhado. Aproveite a brincadeira para redecorar o interior de sua casa.

Exceto em clicloviagens (e olhe lá), aquelas malditas maletas que acompanham o produto são totalmente desnecessárias. Me explico: a melhor geometria para guarda-las é dobrada em forma quadrada (sobreteto mais parte interna) no fundo da mochila, dando-lhe um base plana para que fique em pé sozinha. As varetas vão em pé no corpo do mochilão. Insistir em coloca-la na sua sacolinha como veio de fábrica e amarra-la em qualquer lugar da cargueira é um pedido de sofrimento.

Pena que todos os manuais que as acompanham sejam tão toscos e com regras impossíveis de cumprir. Uma delas é de nunca guardar a barraca molhada. A outra, de nunca cozinhar dentro dela. Oras, se você foi obrigado a desmontar o acampamento sob toró torrencial, como não guarda-la molhada? Se você está numa montanha alta, o frio lá fora é de congelar o esqueleto e você está morrendo de fome, como não cozinhar dentro de casa? Já que a gente precisa fazer essas bobagens, vamos fazer do melhor jeito possível. Evite isso como o diabo que foge da cruz, pois é realmente perigoso: imagine se a barraca pega fogo com você dentro ou morrer sufocado pela falta de oxigênio (bem, pelo menos será uma morte bem tranquila). Mas, se realmente não for possível evitar, faça o seguinte: abra o máximo possível a porta para ventilar (ou para sair correndo em caso de acidente). Amarre a base do fogareiro numa frigideira, fundo de panela ou alguma outra coisa plana e não-combustível. Sugiro sempre ter no equipamento fitas tire-up (enforca-gato ou hellerman, como preferir) para este fim. O maior perigo está na hora de ligar, pois é quando o fogareiro expele a maior chama. Procure liga-lo do lado de fora, e depois traga-o de volta com a chama estabilizada. Se o temporal for tão feio que nem isso é possível, mantenha uma panela grande (e vazia) por perto para tampar a chama alta caso necessário. Toda distância possível de sacos de dormir, isolante, paredes e teto, roupas ou qualquer outra coisa. E escolha a parte mais plana e estável do chão para isso. Ter a mão uma toalha molhada me parece boa idéia em caso de emergência. Técnica permitida apenas para fogareiros a gás e pressurizados, nunca-jamais para espiriteiras. Boa sorte!

A barraca é a nossa casa fora de casa. É um equipamento durável e que vai te acompanhar em várias aventuras, será presença garantida em suas fotos e memórias. É o símbolo máximo do campismo e servirá como um templo para deslumbrar-se como a vida lá fora é tão mais gostosa e verdadeira?
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Com o passar do tempo você vai substituindo seus equipas, quer seja por desgaste ou porque quer algo melhorzinho. Então, faça o planejamento de compras em duas ondas: a primeira, com itens de valor mais barato comprados ao mesmo tempo; e a segunda composta de marcas superiores, comprados com mais critério e mais tempo, substituindo a primeira onda aos poucos. A não ser que você seja o tio Patinhas beira o impossível ter do bom e do melhor na primeira trilha. Equipas de valor acima de R$ 500 eu recomendo comprar lá fora; o mercado brasileiro precisa de estímulo, mas simplesmente não dá para pagar três a cinco vezes mais caro só por isso. Comprar qualquer coisa barata requer atenção, porque há muita porcaria à disposição. Garimpar é necessário, mas também é necessário saber reconhecer um bom equipamento.

Não vou entrar nos detalhes técnicos pois já escrevi sobre o assunto, além de um ótimo post do Trekking Brasil. Fazendo uma pesquisa para lhe indicar algo bacana, não tive escapatória: uma mochila minimamente boa custa em torno de R$ 400. É o equipa mas caro de nossa listinha. Escolhi modelos de 70 litros, grandes o suficiente para levar toooodos os equipamentos: atuais e futuros. Há quem ache isso um exagero, se for este o caso, procure por modelos menores, em torno de 60 litros.

As modelos iglú são as mais populares, portanto invista neste modelo. Barracas possuem uma gama muito variada de preços e quase sempre seu valor está atrelado à sua qualidade. Desnecessário comparar muito: compre o que seu bolso permitir (sem ser muito pão-duro); algo entre R$ 200 e R$ 300. Pelamordideus não compre aquelas barracas gigantes para 4 pessoas que mais parecem uma tenda de circo: camping selvagem é lugar de minimalismo. E aproveite para exercitar seu senso de organização quando for usa-la.

…ou saco de dormir é o equipa que vai lhe garantir uma noite de sono quentinha e confortável. Este equipamento vem com a especificação de temperaturas para o qual ele é recomendado (conforto, médio e extremo) e cada fabricante tem seu método de medição. Não caia na tentação de comprar aqueles colchonetes de supermercado (exceto se você for para um lugar muito quente). O modelo a ser comprado depende de alguns aspectos:
O preço vai depender do modelo escolhido; sacos de dormir com maior isolação custam mais caro (e são mais volumosos). Algo bastate interessante é que a maioria possui zíper de lado específico, permitindo que você compre outro de mesmo modelo com zíper do lado oposto de modo a junta-los e então poder dormir de conchinha com sua compania mais querida.

Um pouco de ciência: o sleeping bag é quentinho porque é recheado de fibras ocas. Quando você usa o sleep, os microtubos sob a pressão do peso do seu corpo sem comprimem e por consequência deixam de bloquear o frio do chão. Em resumo: você passa um puta frio se não usar o isolante térmico entre o saco de dormir e o piso da barraca. Isso vale para as redes também. Existem dois tipos de isolantes: os de EVA e os infláveis, sendo que a primeira categoria são baratíssimos, até R$ 30. É barato mas é importante, porra.

Barato meeesmo são as espiriteiras, aqueles fogareiros à álcool dos quais eu não gosto pois parecem muito perigosos. E então temos os fogareiros à cartucho de gás, bastante práticos mas às vezes bem chatos de encontrar à venda (tanto o fogareiro quanto o cartucho). Existem dois tipos de cartucho: de furar e de rosca. Compre o seu fogareiro pesquisando antes qual tipo encontra-se com maior facilidade na sua região. Os preços variam de R$ 50 a R$ 100. Sugiro pedir para alguém trazer dos estrangêro ou comprar no e-bay um lendário MSR ou Primus multi-combustível; é um salto gritante de qualidade e praticidade frente aos fogareiros a cartucho de gás.
Para panelas, compre modelos pequenos e baratos das lojas de um real (são bem mais leves) e corte fora os cabos (deixe apenas uma pequena ponta). Para os pratos, compre de plástico, a Coza tem modelos muito bonitos e fácil de encontrar em supermercados. Cada trilheiro monta sua cozinha baseado em sua experiência culinária: mini-ralador, descascador de legumes, peneira para escorrer macarrão são alguns itens que podem fazer parte do seu equipamento. E potes, muitos potes plásticos!

Diferente da curva de preços das barracas e similar ao que acontece aos fogareiros, entre as headlamps boas e as não-tão-boas há um abismo de preços. Lanternas de cabeça xing-ling custam em média R$ 30 e bons modelos custam em torno de R$ 300. Inexistem modelos intermediários; pelo menos nada que valha a pena. Compre a xing-ling e reze para não chover!

Se você não vê mal algum em pagar R$ 150 numa boa calça técnica, R$ 80 numa camiseta dry e R$ 200 numa blusa, então faça uma visita a uma loja de aventura. Saiba que leitores do blogus tem descontinho camarada na Mundo Terra Consolação. Mas se você prefere algo mais, hum, básico, não se desespere: calça de tactel que vira bermuda de qualquer camelô do Brás, camiseta dry da Líquido e alguma boa blusa de frio dão conta do recado. Uma blusa corta-chuva barata é bem difícil de achar, portanto compre uma boa capa de chuva e seja feliz. Procure investir num bom calçado, neste aspecto a marca Bull Terrier tem um ótimo custo-benefício.

Bastões de trekking, GPS, bússola de mapa, bolsa de hidratação, saco estanque, travesseiro inflável, facão, toalha técnica, tigelas… a lista não tem fim. Tenha em mente que quanto melhor seu equipamento, mais longe você poderá ir e com mais conforto.

Uma pequena simulação de quanto você vai gastar com sua brincadeira.
A viagem não começa quando você coloca o pé na trilha. Ela começa muito antes, quando ao pegar o equipamento da prateleira da loja você imagina-se usando-o no mundo lá fora. Afinal de contas, a gente nunca cresce, a única coisa que muda é o preço dos brinquedos.?
]]>Vou cortar seu barato um pouco para poder dizer que nem tudo é corda. Temos o cabo, o cordim, a fita tubular e finalmente, a corda. A fita tubular nada mais é do que uma fita chata, quase como um cinto de segurança. Ela é extremamente útil para prender a rede na árvore, pois não a “machuca”. O cabo é composto de uma alma e uma capa protetora a sua volta (muito parecido com nós), e o pessoal de vela lhe dirá que corda serve para enforcamento, enquanto o cabo serve para o barco. No mato? Tanto faz. Você quase não vai usar nem um e nem outro, porque o que importa é o cordim, que nada mais é do que uma cordinha fina, uma corda para varal.

Torço o nariz (que não é nada pequeno) para quem sempre leva um rolo de corda para o mato. Acho que fica muito bem para posar para a foto, mas tenho minhas dúvidas se é realmente eficiente. Se você não consegue fazer sua trilha na horizontal, então está na hora de aprender todas as artimanhas de uma atividade chamada cannoying, que significa a exploração de leitos de rios e suas quedas d’água.
Tenho esperança da seção de comentários deste post pipocar com referências de nós que eu não vou falar aqui. É porque com o exposto abaixo já faço 25% do que eu preciso, e para os 75% restantes eu uso silvertape, presilha plástica e grampo de fotografia. MacGyver concordaria comigo.
Tenho algumas regras básicas para nós:

O nó mais comum da escalada é usado de duas formas básicas: uma para fazer um ilhós na ponta de um cordim e a outra para amarrar firmemente alguma alça à mostra


Tão simples quanto eficiente, você já deve tê-lo usado para prender um colar artesanal naquela sua viagem a Trindade

É um nó auto-blocante, e para quem não o conhece, mágico. Ele é tão confiável que na escalada é usado para subir pela corda. E eu já confiei minha vida neste nó incontáveis vezes.

Use-o para esticar tirantes em compania com o nó oito. Imprescindível para a tarp

O famoso nó-cego serve apenas para fazer um elo na fita tubular, que é ótima para lacear árvores. Use-o apenas para esta função pois é um nó quase impossível de ser desfeito, para as demais aplicações use o nó oito. Lembre-se de, ao usá-lo em alguma árvore, dar pelo menos duas voltas para que ele não escorregue

Eu sei que não é um nó. É que eu vejo tanta gente se perdendo para montá-lo que eu não poderia deixar de colocar aqui. Eu gosto de andar com um rolinho de fita tubular ou elástico chato e algumas dessas presilhas na mochila porque eles sempre se fazem úteis: para pendurar bolsa de hidratação (Camelbak), para amarrar panelas, para compactar saco de dormir

Eu espero que você tenha se amarrado neste post. Mas não se prenda tanto à ele e procure os nós que você julgar mais úteis, como a volta do fiél ou o lais de guia. ?
ama que não fosse a minha? Muitos anos mais tarde, descobri qual era essa sensação: liberdade. E desde então não resisti mais a tentação de sair por aí, dormindo no quintal do mundo com minha fiel barraca.

A dúvida inicial de todo aventureiro, muito antes de qualquer equipamento, é para onde ir. Quase sempre a resposta vem com amigos mais experientes, livros de roteiros ou na internet. Há coisa de uns dez anos ainda não tinha tanta gente discutindo isso na internet, eu não tinha tantos “amigos de aventura” e precisava definir um roteiro para realizar meu sonho de dormir coberto de estrelas. Olhei para trás no tempo e lembrei da mística vilinha inglesa no pé da Serra do Mar que eu havia conhecido em uma excursão da 3ª série. Então, com alguns equipamentos essenciais (mochila, barraca e saco de dormir) e um pouco de falta de juízo, toquei subir a Serra do Quilombo. Foi uma noite memorável, podendo ver as luzes do litoral de cima das montanhas.

Voltando à minha infância, ao descer a Imigrantes de carro com meus pais, eu ficava curiosíssimo sobre as estradinhas paralelas que cortavam a rodovia. Ficava me perguntando para onde iam e como seriam. Eu queria muito ter mais tempo de admirá-las do que uma rápida passagem de carro. Vinte anos mais tarde pude realizar este sonho. Desci de bicicleta a estrada de manutenção do complexo Ecovias. Desci devagarzinho, fotografando e saboreando cada trechinho com o qual eu sonhei tanto em um dia estar. Portanto, a primeira opção de roteiro é aquela com a qual você sempre sonhou. Este roteiro pode ser a sua primeira viagem, ou levar mais de 20 anos para acontecer, como no caso da Ecovias. Mas pode ter certeza que é que mais vai te marcar.

Eu confesso que não tenho paciência para ficar procurando trilhas na internet. Mas são ótimos locais para procurar roteiros, como o fórum Mochileiros.com. É um bom lugar para achar compania também, mas eu recomendo cuidado com seus amigos das internets. Não por ser perigoso, mas a chance de ficar amarrado a um mala por dias numa trilha é considerável. Uma excelente opção são os clubes de aventura, como o CAP (Centro Alpino Paulista) ou CEU (Centro Excursionista Universitário). Sei que existem muitos outros, mas sinceramente não os conheço. São uma excelente opção para você conhecer gente muito bacana e experiente.
Considere que mesmo na maior parte dos lugares remotos há sempre alguma habitação. Se você não saltar de um helicóptero no meio da mata, mas sim chegar lá de busão ou por uma estradinha de terra, é muito provável que existam trilhas nas redondezas. Foi assim no caso de Pindamonhangaba e Ilha Bela, em que eu fui sem conhecer muito e ao chegar lá me informei com os moradores locais onde havia trilhas. Claro que eu fiz um trabalho prévio de comprar cartas topográficas, mapear a região através do Google Earth e colocar tudo no GPS: eu não estava à deriva. Caso essa viagem de exploração não der certo, não se frustre: o objetivo é ir e não chegar. Então, se você tem curiosidade sobre algum lugar, não se prenda: procure mais informações e meta as caras. E saiba que é bem provável que você tenha que voltar lá mais de uma vez.

Já que navegar é preciso, conhecer mapas é essencial. Para fazer seus próprios caminhos, você precisa saber as regras, portanto repito meu mantra: aprenda a ler cartas topográficas, usar bússola, se possível adquira um GPS e saiba usá-lo. Sabendo os meandros da navegação, você poderá entrar e sair do mato a hora que quiser. É extremamente necessário, mas também não tenha pressa: é uma arte que requer experiência. E nada mais legal do que apontar um local no mapa e em seguida conhecê-lo ao vivo. Em tempos de Google Earth, essa pode ser uma opção para lá de divertida. Tracklogs procurados na internet são de grandessíssimo valor nessa hora.

Finalmente, você pode fazer os roteiros clássicos: Chapada Diamantina, Ponta da Joatinga (em Paraty), Chapada dos Veadeiros, Serra do Órgãos, Pico do Itatiaia, Pico dos Marins, entre muitos outros. São lugares certamente espetaculares, mas eu não recomendo ir em épocas de alta temporada, como Natal, Revéillon ou Carnaval. Acabam ficando superpopulados, tornando um inferno achar um bom lugar para acampar, o que, somado ao barulho, tira a graça da estadia. Temos um país tão grande, com lugares tão belos e inexplorados, para que servir-se de mais do mesmo? Sem contar o prazer de conhecer o desconhecido e não gerar ainda mais impacto em uma área já muito visitada.
No que se refere aos roteiros clássicos, há opções que não acabam mais. Os livrinhos do meu querido Guilherme Cavallari são soberbos: os roteiros descritos de modo que basta um cronômetro para fazer todos os roteiros! Eu estive na Serra Fina há pouco tempo e levei o livrinho. Deu uma baita ajuda!

Por um tempo, eu fiquei bastante paranóico com relação à assaltos. Em Pindamonhangaba, peguei um ônibus de linha lotado, e percebi que eu chamava bastante atenção (ou seria mesmo paranoia?). Tinha certeza que aquele dia eu iria me despedir da minha mochila, mas dei sorte. Se você não conhece o local, não dê bandeira. Seja o mais discreto possível. E, é claro, dê preferência por locais menos urbanizados. Pode-se dizer que quanto menor a cidade, mais segura ela será. E acredito que é justamente esses lugares que devemos procurar para nossas aventuras. ?

Já faz algum tempo que eu sei da existência do e-Bay, mas nunca nem entrei porque sabia que isso começaria um processo que me levaria à falência. Até que um amigo de longa data apareceu lá em casa, e fã do eBay, me deu uma aula de como comprar lá. Claro que eu fiquei extremanente empolgado; afinal, um Petzl Grigri que está R$503.50 aqui no Brasil, eu achei por cerca de R$150. Outra: perdi o giclê do meu fogareiro Primus Omni Fuel, cujos fabricante sueco e distribuidor nacional ignoraram meus e-mails sobre peças de reposição e kit de reparo. Lá estava no e-Bay, pela bagatela de 20 doletas, com entrega aqui na terra da banana. Comprei na hora! Outra coisa legal é que a maioria dos vendedores aceita PayPal, o que eu acho muito mais seguro do que colocar o número de cartão de crédito para sabe-se lá quem.

Passa a euforia e depois de milhares de pesquisas de equipamentos que eu quero, finalmente coloquei a cabeça no lugar e fui pensar o que eu preciso para minhas viagens. Lembrei da genial Vibram Five Fingers que eu havia visto há alguns anos mas até agora não chegou por aqui. Lá vou eu para o e-Bay procurar meu sonhado equipa, e lá está ele, por um preço super sexy: US$ 71 com a entrega! Por curiosidade, dou uma passada no site da FiveFingers para saber o tamanho que preciso comprar e lá está um aviso em letras garrafais para ter muita atenção com cópias falsas. O item do e-Bay parece original, mas se as empresas oficiais já usam uma “foto meramente ilustrativa”, que dirá um pirata. Mando um e-mail para a Vibram, cuja resposta é desanimadora: o produto é falso. E me indicam o sites deles próprios para comprar o produto original. Ali o mesmo produto sai por US$125, sem contar a entrega (no e-Bay custa US$25). E, é claro: não há opção de entrega no Brasil e nem pagamento via PayPal.

Voltando ao site da Vibram, há uma seção inteira dedicada as cópias falsas. Um os links é “We’re fighting back”, que eu reproduzo abaixo:
Vibram FiveFingers® is committed to combating counterfeiters at every turn. We view attempts to deceive consumers and violate our intellectual property with the utmost concern. We will take aggressive legal action against anyone who is manufacturing, distributing, marketing, or selling counterfeit Vibram® products. We are working with the relevant authorities to shut down all fraudulent Web sellers of “FiveFingers,” including Web sites, online auction sites, etc. We will continue to coordinate with Customs officials worldwide to stop the proliferation of these counterfeits and eradicate their distribution.
Não, Vibram, vocês não estão lutando contra. E nem nos protegendo. O máximo que vocês estão fazendo é correr atrás do prejuízo. Do seu prejuízo. Porque o pior prejuízo para o cliente final não é comprar uma cópia pirata e sim não ter produto algum. Para você lutar contra a pirataria, você precisa entendê-la, e para isso vamos analizar três motivos básicos de sua existência. E neste ponto já não estamos falando dos produtos da Vibram e sim de qualquer fabricante que tem os mesmos problemas e lamentavelmente as mesmas atitudes que não resolvem nada. Pirataria é um navio com fundo podre e os fabricantes acham que tapar cada furo com massa epóxi vai resolver o problema.

O primeiro problema é de longe o preço. E neste quesito eu concordo que não há muito o que fazer, pois pesquisa e desenvolvimento de produtos custa caro (assim como empregar gente inteligente), patentes, leis trabalhistas, leis tributárias, e por aí vai. Mas eu acredito que muita gente gostaria de pagar um preço honesto por um bom produto, eu incluso.

O segundo problema é disponibilidade. Um produto pirata eu encontro quase sempre próximo de mim, e eu posso testá-lo, ver como é. No caso da FiveFingers, o vendedor pirata do e-Bay me entrega no Brasil, e a Vibram não. Ou seja: um produto de pior qualidade tem uma rede de distribuição melhor do que um fabricante que está há 73 anos no mercado. Um canal da Vibram dentro do e-Bay é uma possível solução que poderia ser boa para ambas as empresas e para o consumidor final.

E o terceiro é burocracia. No site da Vibram eu tive que fazer um cadastro, criar uma senha, para só muito depois disso poder ver que não há entrega na minha região, com um site um tanto confuso, tendo que conferir isso em três diferentes sites: América do Norte, Europa e China. E os preços variam entre eles três! Na Amérca do Norte a KSO Trek custa US$ 125 e no site Europa, ?149. Eu acredito que este produto é fabricado em um único lugar (China, como qualquer coisa), então como pode custar mais caro em uma geografia do que na outra, lembrando que esse preço não inclui frete? Na verdade, o modelo que eu quero é a Treksport, e este item não está sequer a venda no e-commerce América do Norte. Voltando à comparação com o site do e-Bay, eles não estão dando a mínima se eu estou na Guatemala ou na Bósnia: é international shipping.

Portanto, não basta ter um ótimo produto, protegido por todas as leis de propriedade intelectual. Se ele não tem um modelo de negócios abrangente, e tão agressivo quanto a pirataria, não há processo judicial que resolva o problema. Fabricantes que saem numa caça às bruxas me parecem muito com crianças que choram para seus pais que a irmã puxou o cabelo: só querem saber de sua proteção sem oferecer nada em troca. A pirataria existe porque há um nicho de mercado, há um público de interesse e eles preenchem essa necessidade com eficiência. Ou seja: as empresas se afundaram no modelo que eles mesmos criaram, da lei de oferta e procura.

Em tempo: eu não gosto da idéia de comprar uma cópia, mas eu vou comprar a FiveFingers do e-Bay. Quando a Vibram e todas empresas com atitudes similares tiverem um modelo de negócio melhor do que os piratas, poderemos voltar a conversar.?

Existem basicamente dois tipos de notas que faço: um é antes da viagem e outro é durante. Antes é o planejamento com suas datas, orçamentos e calendários. Durante são notas pontuais, como o contato daquele casal super bacana que o hospedou em sua casa ou daquela pessoa pra lá de interessante que você conheceu no busão.
Onde são feitas as anotações também é relevante, e tenho três mídias: Excel, lousa e diário de viagem. Em cada uma delas, há formas diferentes de anotar as coisas.
Soberbo para fazer o planejamento financeiro de uma viagem, especialmente se tem muita gente envolvida e todos vão dividir os gastos somados. Além disso, costumo planejar a viagem com meus amigos em listas via e-mail, e uma planilha do Google Docs pode ser ideal para que todos a visualizem e manipulem de forma colaborativa.
Em se tratando de viagens com muitas pessoas, se alguém depende do equipamento de outro integrante do grupo, a planilha também pode ser bastante útil.
Muitas vezes também coloco um calendário com a agenda de o que fazer em que dia. Entram itens como: primeiro e último dia de férias, compras de mercado, que dias vocês vão passar por onde e até mesmo se alguém sai da viagem antes porque tem menos dias de folga. Eventualmente o cardápio também entra nessa planilha.
Considero a planilha a ferramenta principal de planejamento e, no dia de fechamento de mochila, a imprimo e a levo junto no meu diário.
O dia do fechamento da mochila é um dia todo especial: não faço hora extra no trabalho e durante o evento a casa fica de pernas para o ar. Todos envolvidos na viagem estão presentes com seus equipamentos, sempre aparece alguma coisa para resolver de última hora (normalmente um reparo), e não dá para beber muito porque senão a mochila nunca vai fechar. É tão cansativo quanto divertido. Muitas vezes você vai tirar da embalagem algum equipamento recém-adquirido, e é tão excitante quanto abrir os presentes que Papai Noel deixava na árvore quando éramos pequenos.
E é neste dia comemorativo ? se eu fosse prefeito, decretaria feriado pessoal ? que as merdas mais tendem a acontecer, e para evitar isso adquiri uma lousa. Nela vou anotando todos os itens que não posso esquecer: alguma coisa que está na geladeira e que devo colocar na mochila antes de sair, lugares para os quais eu preciso ligar, algum item que faltou comprar, tarefas como subir o tracklog no GPS, pegar as pilhas e baterias que estão carregando etc. Essa lousa fica pendurada até a hora de sair para a viagem.
Padronize os símbolos! Costumo fazer um quadradinho para colocar um check para algo que foi feito ou um xis para algo que não vai rolar. Um símbolo padrão usado em eletrônica é o alerta
e é usado para indicar coisas que requerem atenção redobrada. Para viagens mais simples, que não requerem a elaborada planilha descrita acima, faço o calendário e cardápio nesta lousa. Comecei com uma lousinha pequenininha, de 60cm × 40cm e há pouco tempo fiz um upgrade: 120cm × 70cm, que é o tamanho que eu recomendo, if you got room.
É simplesmente um caderninho, comprado nas melhores lojas do ramo. Os chatos de plantão dirão que deve ser um Moleskine. Bem, o dinheiro é seu. Eu uso um bloco Tilibra 20cm × 15cm de folhas brancas, que tem durado bastante caderninho da Cícero que tem sido perfeito. Pode ser quadriculado ou pautado, mas escolha com carinho e lembre-se que ele também é um equipamento e vai carregar todas suas memórias, notas e cagadas. Indispensável: use um map case ou um saco estanque adequado para ele. O estanque do meu diário também acumula dinheiro, RG, caneta e bússola e fica sempre no teto da mochila, de acesso tão fácil que posso pegá-lo com o mochilão às costas.
O principal uso do diário de viagem é durante… a viagem. E lá você vai anotar:
O diário de viagem também requer alguns grampos de fotografia com os quais você vai anexar as passagens de ônibus e avião de viagens passadas, e a planilha que você imprimiu antes da viagem. Eu gosto de anexar minhas cartas topográficas a ele também. Na Chapada Diamantina foi importantíssimo o timeline de planejamento logístico que estava anexado nele.
E guarde tudo, sempre. Salve os arquivos no seu HD, tire foto das anotações na lousa. Depois de algum tempo você vai se divertir à beça com o seu diário de viagem, especialmente aquele com muitas páginas semirrasgadas e cheias de anexos engraçados. A viagem não é somente aquelas fotos bacanudas que você fez e as risadas que você garantiu com os bons amigos de aventura. É também tudo aquilo com o qual você sonhou, planejou, realizou e guardou em suas memórias.
e antes que eu me esqueça…
boas aventuras!


Se você é brasileiro, sabe muito bem como uma rede funciona. Um apoio de cada um dos dois lados numa distância adequada, e voilá, você já pode ter um sono tranquilo. Mas no mundo outdoor precisamos de alguns acessórios, como um toldo para o caso de chuva e um mosquiteiro para lugares com muitos insetos. E o kit Kampa tem todos eles. O único acessório que eu não gostei foram os ganchos: é bem melhor comprar uma fita tubular de escalada e um par de mosquetes. Se você for seguir este conselho, compre uma fita um pouco comprida, pois nem sempre você acha uma distância ideal entre os pontos de apoio. Outra customização que eu fiz foi no toldo, cujo nome é Tarp Oca: troquei todos os cordõeszinhos originais por elásticos tubulares de 2mm, pois funcionam muito melhor.

No mato, é muuuito mais simples do que a barraca. Com esta última você precisa ficar “pescando” uma boa clareira para acampar. E precisa pensar no tamanho do chão da sua barraca também. Lugares inclinados, ou com chão de pedras, nem pensar. Mas com a rede, seus problemas acabaram! Qualquer cantinho com duas árvores equidistantes é o suficiente para você poder acampar tranquilamente. Bem, é mais confortável ter um chão liso e uma pequena clareira, especialmente para fazer o jantar, mas se você gosta de se enfiar no meio do mato sem ter certeza de onde vai passar a noite, é o equipamento certo. Por outro lado, é o equipamento errado se você vai para um lugar desprovido de árvores, como topo de montanhas.

Mais uma vantagem: seu peso e volume. Como não há varetas, você só tem que carregar os elegantes pacotinhos que a rede, tarp e mosqueteiro (cujo nome é Bug Stop) formam, com um bolso especificamente costurado neles próprios para este fim. O conforto é incomparável (leia o box no final desta página).
Ao contrário do que você pode estar pensando, é necessário continuar levando seu isolante térmico. Ao deitar sobre o saco de dormir, você comprime suas fibras de enchimento e estas perdem sua isolação térmica. Já passei bastante frio achando que não precisaria dele. Se for um destes novos modelos a ar, que pode ser esvaziado e dobrado, menos volume ainda na sua mochila. O da Azteq pode aparecer no mercado com um preço sedutor, mas descola logo nos primeiro uso. O da Decathlon foi uma excelente aquisição. Se você puder comprar um Therm-a-rest, conquistará minha admiração.

Montar uma barraca debaixo de chuva é uma operação detestável. A barraca ficará toda molhada, e arrastar o equipa para dentro piora a situação. Com a Kampa essa atividade é um pouco menos traumática: monte primeiramente a Tarp Oca, e terá uma área coberta para terminar de montar todo o acampamento, protegido do toró. A rede ficará sequinha. Quer dizer, se você montar algo errado ou pegar uma chuva de vento pode se dar mal. Na Chapada Diamantina passamos alguns perrengues por conta disso, numa noite tivemos que acordar e fazer uma gambiarra com os cobertores de emergência e silvertape. No dia seguinte, o Celso, que teve seu sono interrompido porque sua rede estava encharcada, me acordou xingando o projetista da Tarp. Enquanto isso, eu dormia todo encolhido porque metade da minha rede molhou. Kampa, por favor aumente o tamanho da Tarp!!!

Aproveite e compre uma lona plástica para colocar no chão, pois, ao contrário de uma barraca, não há espaço para guardar o equipamento. Essa lona vai te ajudar a organizar tudo, trazer maior conforto e segurança para cozinhar a noite e também facilitar o fechamento da mochila na manhã seguinte, especialmente em lugares cujo chão é de pedras. Escolha uma lona com ilhóses nas beiradas, porque você também poderá amarrar num galho com cordins um pacotão contendo todas as tranqueiras, para evitar que algum bicho ousado roube algo (já aconteceu comigo, mais de uma vez).

Em teoria, as redes suportam até 150 kg. Se você quer dormir com a namorada(o), e se a soma de vocês dois é acima disso, pode ser um problema. Bem, o Palmieri, meu querido amigo criador da rede, disse que nunca recebeu para manutenção uma rede que estourou por excesso de peso, e que é bem improvável que ela arrebente. Outra observação é onde você vai montar a rede: escolha árvores parrudas, com mais de 30cm de circunferência. Árvores mais finas vão entortar e você vai encostar no chão. Um fato chato é ter que ficar testando se a rede está numa altura adequada. Às vezes é necessário esticá-la tanto que ela fica na altura do peito, e subir nela pode se tornar uma cena hilariante. Máquinas fotográficas à postas nessses momentos. Quanto a Tarp, eu gosto de esticá-la sobre um varal feito de cordim resistente, isso me permite pendurar coisas como pote de água ou headlamp no teto com o auxílio de mosquetinhos simples. Se você souber nós, especialmente o prussik ou marchard, vai se dar bem.

Falando de pendurar, eu testei essa rede em altura: 30 metros, na pedreira abandonada onde eu escalo em Mairiporã, o famoso Dib. Adaptei o fogareiro para funcionar com segurança e pude fazer uma simulação de big-wall, que é uma técnica de escalada de grandes paredes, em que se leva mais de um dia para completar a escalada. Rapelei, instalei a Kampa com a ajuda de cordas e protegida por um teto de pedra. Cozinhei ali mesmo, e no dia seguinte desci. Dormi pouco porque não conseguia me conter de felicidade de estar deitado confortavelmente, pendurado ali no alto de uma montanha, e também para ver se tudo continuava no lugar. Pena que não tenho fotos disso, mas pretendo fazer mais vezes.

Existem dois modelos de rede, a rede Adventure e a rede Joy. Esta última é um lançamento recente e eu ainda não pude testá-la, mas gostei das mudanças. O conjunto Kampa é vendida nas melhores casas do ramo, e seus preços são os seguintes:
? Rede Adventure (que ilustra este post): R$84
? Rede Joy (aparentemente a melhor opção): R$74
? Tarp Oca (indispensável): R$174
? Bug Stop (somente se onde você for insetos forem um problema): R$93
(fonte: Mundo Terra)
O conjunto Kampa roubou a cena das barracas e cada vez que a uso, gosto mais (apesar do perregue na Chapada Diamantina). É leve, prática, confortável. Dê uma chance à ela também e você vai mudar sua forma de acampar.
Boas aventuras!
A primeira citação nominal em português da rede de dormir foi feita em 27 de abril de 1500 pelo escrivão da frota portuguesa, Pedro Vaz de Caminha, na ocasião em que o Brasil foi descoberto. Segundo consta em seus relatos, os índios dormiam sobre redes altas, atadas pelas extremidades. De acordo com os registros recolhidos até hoje, as redes possuem o copyright sul-americano.
O nome ?rede? foi dado pelos portugueses. Os índios a chamavam de ?ini?.
?A cama obriga-nos a tomar o seu costume, ajeitando-nos nele, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos, repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. A cama é dura, parada definitiva. A rede é acolhedora, compreensiva, ondulante, acompanhando, morna e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego. Desloca-se, incessantemente renovada, à solicitação física do cansaço. A rede colabora com a movimentação dos sonhos. Entre ela e a cama há a distância da solidariedade à resignação?
Luis da Camara Cascudo, Rede de Dormir: uma Pesquisa Etnográfica.
2ª ed. São Paulo: Global, 2003(via site da Kampa)
Update: adicionado o infográfico que concentra de forma visual as técnicas descritas neste post. Para imprimir e colar na parede, junto com os equipamentos.
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Nenhum dos meus primeiros itens era de uma marca top. De quase ninguém é. A barraca era uma chinesa distribuída pela Capri e a mochila, uma Trilhas&Rumos. Eles duraram mais de 10 anos! Nesse período eu tive tantos outros equipamentos que nem me arriscaria a contar: headlamps, bastões de caminhada, meias, roupas, camel backs, pratos, isolantes, panelas… eu fico me perguntando porque alguns duram tanto tempo a mais. Simplesmente não há resposta, acho que é tentativa e erro mesmo. Tive uma headlamp a dínamo que durou exatamente 4 horas: foi o tempo de eu sair com ela da loja, chegar ao meu destino e em 5 minutos uma chuvinha tola a matou afogada. Muitos equipas nem cogito em reclamar para o vendedor, afinal, foi mau uso meu. E assim vou experimentando e descobrindo o que é bom e o que é ruim.
Voltando a minha antiga mochila, com as devidas costuras e updates ela fica pronta para outra. Mas porque eu a troquei? Durante a caminhada, a barrigueira já gasta não tinha a mesma maciez de antes, machucava com grandes cargas. O acolchoado das costas, idem. A barraca, toda vez em que dormia nela ficava com vergonha de mim mesmo de tantas marcas de sangue espalhadas pela parede, e algumas goteiras em dias de chuva mais forte. Dou risada quando lembro de mim sozinho recortando e colando com silvertape sacolinhas de mercado para conter uma goteira (depois daquele dia fiz uma reforma com impermeabilizante). Um bom equipa passa despercebido, seu uso deve ser sempre confortável e ele deve cumprir invisivelmente a função para qual foi projetado. Você deve esquecer que ele existe.
Claro que isso vale para os equipas novos também. E um que passou a sua vida inteira me incomodando foi um maldito boot da Salomon. Até hoje não sei se ele é mesmo uma merda ou se eu escolhi o modelo errado (sei que ele era para montanha gelada). Também era apertado, porque o boot que tinha antes (um BullTerrier, muito confortável) laceou a valer, até demais, e eu queria um boot na medida certa. Então, anote: bons boots de caminhada não laceiam. Depois de quatro horas de subida no Pico do Corcovado em Ubatuba, com o Snake de um amigo (no tamanho certo), fiquei surpreso ao perceber que pela primeira vez eu apenas me preocupava em continuar andando e não sobreviver à dor insuportável nos meus pés. Comprei um snakão para mim e na Chapada Diamantina tive uma performance que nunca tive antes.
E com um boot maldito que foi o Salomon, nem me deu vontade de testar o excelente par de meias Lorpen que recebi do pessoal gente finésima da ProAtiva. Finalmente coloquei a Lorpen junto com o snakão e fui muito, mas muito feliz. Mario Nery já fez um excelente review técnico desta meia e nem vou entrar em detalhes. Vou dizer minha impressão: eu não notei sua existência. Mas ela ajudou a notar todas as outras meias e boots que usei no passado e dei risada do masoquismo que me submeti. A forma como a meia envolve seu pé nos lugares certos, aliada ao excelente boot, me fizeram andar 18 quilômetros em apenas 6 horas, em trilha difícil, com muitas subidas e descidas, e é claro, com o mochilão carregado às costas. A sua eficiência está comprovada na prática.
Uma das últimas coisas que adquiri para o meu portfólio foram roupas técnicas. São itens caros e, convenhamos, não parece que compensa gastar nelas como uma lanterna ou um bastão de caminhada. “Roupa é apenas roupa”, eu pensava e tenho certeza que muita gente também. Errado. As calças de tactel que comprava nos camelôs do Brás foram minha primeira certeza que uma boa roupa técnica poderia valer a pena. É que pagar R$200 numa peça não me agradava muito. Hoje eu posso dizer que está tudo mais barato, mas há 5 ou 10 anos atrás, era coisa para poucos. As camisetas de crepe de poliamida que só havia por R$100 na Track&Field e hoje a compro por R$20 na Líquido. Sempre invejei quando via alguém com uma calça da By, sabia que ao ter uma estaria vestido a caráter para a minha atividade. E estaria com uma roupa que me daria uma liberdade muito maior de movimentos ou teria uma durabilidade acima da média. Enquanto isso não acontecia, sofria com calças cargo de lona grossa (para aguentar a impiedosa ferrovia) ou passava situações ridículas em lojas de academia procurando um legging para escalar (aliás, a diferença incomparável é que o legging masculino tem um cordãozinho na cintura).
Sendo caro ou barato, industrial ou caseiro, famoso ou desconhecido, seu equipamento (roupas inclusas) deve te deixar à vontade para chegar onde você quiser chegar. E, é claro, voltar. No percurso de descoberta deles você terá algumas surpresas, esteja pronto para elas (leia-se: “leve silvertape”). E não se irrite quando um boot abrir o solado, ou uma mochila estourar, o velho ditado em aventura muitas vezes é lembrado: “o barato pode sair caro”. Não estamos falando necessariamente de preço. Estamos falando de ser um cliente pentelho nas lojas, testar bem antes de sair de casa, olhar todos os detalhes e principalmente comparar a concorrência. Salvo em algumas poucas lojas, nunca acreditar no vendedor. E quando você menos esperar, terá uma pequena lojinha de equipamentos particular ?
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