Not Even Jail
Interpol — Antics (2004), faixa 6
Existem músicas para as quais gravei um videoclipe, na minha cabeça. Essa é uma delas. Eu costumava escutá-la prestando atenção
Hoje foi mais um desses dias de coisas grandes. Afinal, eu estava com um advogado lendo muitos parágrafos enfadonhos de um contrato. Foi ele quem parou a leitura do papel e disse “…os parágrafos restantes são enfadonhos, acho que vocês não vão querer que eu leia”. Quero sim, pode ler tudo. E aproveito para escrever enfadonho aqui pois não sei quando terei outra chance, nem sequer vou pesquisar do se trata para confirmar minha forte suspeita.
Enfim, hoje foi mais um desses dias de coisas grandes. Afinal, eu estava com um advogado, e acho que toda vez que a gente tem que assinar muitos papéis na presença de um advogado é dia de coisas grandes. A não ser que você esteja fazendo no trabalho, aí pode ser outro dia qualquer.
Foi um desses dias que a gente sabe que vai resultar em mudanças significativas. Espero que para melhor, embora temo pelo pior. Também foi dia de conhecer mais a respeito dos meus parentes e, infelizmente, só podridão.
Como eu só abro a boca demais para contar dos meus próprios podres, vou deixar isso pra lá e dividir uma grata surpresa, mostrar que não sou tão podre quanto meu passado travestido de palavras pode parecer.
Eu estava na sala do advogado, tinha acabado de responder “empresário”, quando meu sócio contou por mensagem que a nossa empresa está entre os nomes finalistas do Effie Awards Latam. Também mandou foto da agulha que lhe enfiaram na coluna para a quimioterapia na medula. Ela também era uma coisa grande e surpreendente, mas me pegou menos de surpresa que saber que o nome da nossa empresa está na lista de finalistas do Effie Awards Latam.
Se eu publicasse no LinkedIn, essa era a hora que eu estaria agradecendo aos nossos queridos parceiros pela confiança em nosso trabalho. Além, claro, do meu best friend forever e sócio. Mas Deus queira que nunca mais eu precise voltar a publicar no LinkedIn, mesmo sendo empresário com nome finalista no Effie Awards Latam. (Falo isso da boca pra fora, pois sei que eventualmente essa desgraça se anunciará)
Isso me pegou de surpresa, menos por causa da premiação em si e mais porque alguém formalizou isso num documento e enviou para a premiação. Em dez anos trabalhando em agências de publicidade, vocês não fazem ideia da dificuldade que o atendimento tem de colocar os nomes de todos envolvidos nas fichas técnicas, especialmente dos departamentos de dados. Por isso, foi uma grata surpresa saber que nosso parceiro fez isso.
Achei significativo, pois 10 anos atrás conseguimos ouro no Effie Awards Brasil com uma campanha baseada na análise de dados que fizemos. O comercial daquela campanha foi muito importante para mim, não só por causa do impacto da análise de dados no planejamento e criação, mas também porque foi dirigido por um cara que tava me devendo uma visita a um set de filmagens (eu tinha feito umas aulas com ele de cinema. Talvez, no LinkedIn, eu estaria citando e marcando o nome dele também). Foi talvez o dia em que eu mais me senti próximo do trabalho com audiovisual, do que eu tinha estudado de verdade, mas com a qual nunca cheguei a trabalhar.
Eu poderia revisitar menos as podridões do meu passado em textos despojados e voltar a focar numa carreira estável. Poderia passar a me comportar como um empresário de sucesso. Mas como imagino que você saiba, sigo escrevendo e vivendo experiências para me conectar com minha alma. E o trabalho é um pedaço muito pequeno nessa conexão. Boto fé que um dia não.
]]>Interpol — Antics (2004), faixa 6
Existem músicas para as quais gravei um videoclipe, na minha cabeça. Essa é uma delas. Eu costumava escutá-la prestando atenção
Interpol — Antics (2004), faixa 6
Existem músicas para as quais gravei um videoclipe, na minha cabeça. Essa é uma delas. Eu costumava escutá-la prestando atenção a cada segundo para contemplar, como escutava prestando atenção a cada segundo para pensar em como eu a dirigiria se estivesse com a banda num set de filmagem.
O clipe perfeito era um estúdio completamente escuro, exceto por uma casa inspirada nos filmes do Hitchcock. Cada cena num cômodo. Daniel Kessler dança com a guitarra no de cima. Sam Fogarino na bateria ao lado da escada. Carlos Dengler e seu baixo ao lado de uma janela. Paul Banks sentado na ponta de uma longa mesa de jantar. A câmera avança lentamente em sua direção. Um close de seu rosto em contra-plongée enquanto canta.
O escuro do lado de fora da casa está sempre presente, seja pelos cantos sombrios, seja por não haver nada além de preto pelas janelas da sala ou de uma enorme porta aberta no hall.
Nesse trecho que destaquei, antes do Paul voltar a cantar, a câmera encara a escuridão buscando sair da casa. Paul agora canta de pé na varanda, olhando para ela, essa escuridão.
Eu nunca entendi muito bem por que minha mente me levava para esse lugar. Às vezes, um leão surgia da escuridão, caminhando imponente ao longo do comprimento da mesa. Às vezes, eu tinha a impressão de que ele fosse pular da escuridão em direção à câmera, mas era mais como um receio. Queria muito saber como “filmar” esse receio sem precisar mostrá-lo. Revi as cenas inúmeras vezes em minha cabeça, com e sem leão. Para mim, era fácil sentir o perigo à espreita, mas como garantir que outra pessoa sentisse o que eu sentia apenas vendo essas imagens? Imagens essas que ninguém jamais veria.
Quando tirei a carteira de motorista, aos 33 anos, meus amigos me apoiavam enquanto eu treinava dirigindo o carro deles pelas avenidas de São Paulo. Contei que me via escutando essa música à noite enquanto dirigia. Imediatamente realizaram meu desejo, mas ainda sinto que preciso fazer isso sozinho.
Apesar do trecho que escolhi para ilustrar, a introdução dessa música já me causou frisson na primeira vez em que ouvi. Ela não é um absurdo?
Que preguiça. Como tem muita gente que dá bola para o que os tech bros falam, vou deixar a sugestão para que você ignore mais
]]>Que preguiça. Como tem muita gente que dá bola para o que os tech bros falam, vou deixar a sugestão para que você ignore mais o Vale do Silício e escute mais o cientista brasileiro Miguel Nicolelis.
O Arvro fez esse ótimo .txt sobre o assunto:
O Roney também escreveu a respeito no Meme de Carbono:
Nunca é tarde para repetir que o que chamam de inteligência artificial não é nem inteligente e nem artificial. E que existe outro perigo maior entre nós: crise climática. Se for para falar de um fim, que seja do que está acontecendo - e impulsionado por IA.
]]>Passei o filme todo achando que o Caio lembrava o Alberto (da animação “Luca”), então acabou e tive a certeza que foi inspiração. O tipo de filme que eu passo pano por ter maaaiisss uma cena de musical para retratar
]]>Passei o filme todo achando que o Caio lembrava o Alberto (da animação “Luca”), então acabou e tive a certeza que foi inspiração. O tipo de filme que eu passo pano por ter maaaiisss uma cena de musical para retratar a felicidade, só porque teve sexo e adolescentes fazendo merda de um jeito crível - além do melhor uso da carreta furacão.
]]>Se eu tivesse uma página dedicada a changelogs, a de hoje seria ó, deesssseee tamanho \________o________/
mas e eu lá sou mulher d fazer changelog? (mês que vem faço uma)
]]>Bastante problemático, com valores questionáveis a respeito do comportamento dos jovens e uma visão medíocre sobre classes sociais. O mais “hilário” é que se trata de um filme que critica nepobabies, estrelado por uma nepobaby e produzido pelo
]]>Bastante problemático, com valores questionáveis a respeito do comportamento dos jovens e uma visão medíocre sobre classes sociais. O mais “hilário” é que se trata de um filme que critica nepobabies, estrelado por uma nepobaby e produzido pelo famoso pai rico. Inaceitável fazer piada com alguém por trabalhar num supermercado. Fiquei aliviado ao perguntar à minha sobrinha de 15 anos se ela gostou do filme, e ela respondeu “não”.
]]>Basicamente, eles disseram que, a partir de hoje, o Raycast tem novos planos de uso de IA baseado em um sistema de créditos e que para usar os novos planos é preciso atualizar para o Raycast v2.
Bom, eu não tenho a pretensão de atualizar para o Raycast v2. Então, perguntei: o que acontecerá com os usuários do Raycast v1? O suporte respondeu compartilhando esse link com mais detalhes, que não deixa dúvidas que o Raycast v1 não será mais mantido e os usuários (como eu) ficarão completamente às cegas quanto ao uso dos créditos a partir de outubro. O que é frustrante, sabendo que o meu plano anual ainda nem chegou ao fim do ciclo e está sendo modificado negativamente. Acredito que o mínimo seria eles esperarem o final dos ciclos dos usuários antes de abandonarem de vez a versão v1, e não entregarem mais créditos com um “período de transição” para dar tempo de atualizar o software porque, de novo, eu não pretendo atualizar para o Raycast v2.
Eles pareceram mais preocupados em querer entender os meus motivos para não atualizar para o Raycast v2. Divido aqui minhas considerações:
O Raycast v2 requer o macOS Tahoe, que eu não uso e não pretendo usar.
Não existe nenhuma funcionalidade no Raycast V2 que eu considere que justifique a atualização, tanto para o Raycast quanto para o MacOS. Antes, eu até estava inclinado a atualizar o macOS por causa do Raycast, mas agora não vejo mais sentido em fazer isso e aumentar o consumo de memória para funcionalidades que eu não preciso.
Tenho pensado qual launcher usarei de substituto. Talvez, inicialmente, vou de Tinycast. Se o macOS 27 se mostrar promissor, pode ser que eu atualize o sistema em algum momento futuro, e pode ser que eu teste o SuperCmd v2. Aparentemente, ele contém todos os recursos úteis do Raycast e não exige assinatura.
]]>É mesmo tudo que falaram: melhor Homem-aranha desde 2004. Pra falar verdade, eu nem lembro mais dos três primeiros da MCU e nem tenho vontade de revê-los. Acho que eu teria gostado mais se a Marvel não tivesse mexido mais uma vez em
]]>É mesmo tudo que falaram: melhor Homem-aranha desde 2004. Pra falar verdade, eu nem lembro mais dos três primeiros da MCU e nem tenho vontade de revê-los. Acho que eu teria gostado mais se a Marvel não tivesse mexido mais uma vez em mais uma linha do tempo de mais um personagem importante para os fãs (principalmente das gay).
]]>Enquanto eles estavam no médico, fiquei no carro estudando. Depois, seguimos para a Fazenda Lageado para uma burocracia da minha mãe. Andei pela grama, observando o lugar do ponto mais alto. Meu padrasto se aproximou e fez algum comentário sobre a delícia que é a calmaria daquele lugar. Verdade, naquele momento, tudo estava calmo. Mas, na minha cabeça, tudo estava agitado. Para onde eu olhava, via diversas cenas com jovens bagunçando.
Lembrei de aparecer naquele campus da Unesp logo que amanheceu e tirar uma foto com LL e o Diogo no reflexo de uma porta de vidro. Estávamos bem vestidos, mas sujos, voltando de algum pasto, para lá do túnel da linha do trem, de onde pegamos cogumelos direto da fonte depois que começou a chover no meio da madrugada e decidimos que o rolê poderia ficar mais interessante. Lembrei da Fani se tremendo toda, ela estava cheirando há uns 2 dias e achava que os óculos escuros diminuíam alguma pala. Soube que ela teve um neném há pouco tempo, espero que ela não cheire mais. Lembrei que achava engraçado assistir aos jovens praticando esportes enquanto eu e meus amigos sempre estávamos por lá bebendo ou de ressaca. Achava tão fofo ver essas pessoas se divertindo sem entorpecentes. E agora, conforme escrevo, lembrei da Fran, que estava junto quando a Fani se tremia, morava ao lado. Ela tentou matar o Renato, acho que ficou presa uns dois anos. Espero não saber mais dela.
De lá, eles me deixaram na Pinacoteca, enquanto foram ao supermercado. Fiquei mais de hora sozinho perambulando pelos cômodos enormes do antigo fórum da cidade — que sempre esteve fechado enquanto morava lá — conferindo as diferentes exposições: uma sobre arte concreta, outra sobre um cara que viajou o mundo todo (mas estranhamente todos os ítens expostos estavam novíssimos), pinturas de Ornella Angelucci e “Peripécias” de Péricles de Almeida. Mais uma vez me peguei sonhando com ter alguma exposição autoral nessa cidade, mas antes precisaríamos fazer as pazes e garantir uma narrativa que inspire os cidadãos conservadores — temo ser considerado persona non grata. Enquanto estive lá, escutei os políticos no auditório dizendo que 80% da cidade aprova o governo de direita e quais deveriam ser os passos seguintes para a eleição desse ano, algum bairro do norte estava sendo influenciado por um partido de esquerda.
Fomos almoçar num self-service. Sempre acabo pegando mais do que devia. Estava com um pedaço enorme de carne na boca quando vi a Ju entrar. Talvez ela tivesse apenas acenado e continuado andando até a comida, mas eu imediatamente levantei e a abracei. Tapei a boca (com a carne enorme esperando ser mastigada) para falar para minha mãe que a gente era amigo há coisa de uns 17 anos. Uma vez os amigos mais próximos dela alugaram uma chácara e eu fui parar nesse rolê, tinha uma sala com um altar e um saco de cocaína rodeado de palavras bonitas, parecia uma igreja e aquilo tudo era sagrado. Acordei com o Sol na cara, deitado no gramado, tive uma insolação pesada. Não pude deixar de pensar que ela está mais velha, eu também tô. Por quanto tempo eu continuarei reconhecendo as amizades do fim dos anos 2000? Ju disse que a gente não se via há 10 anos, engraçado que eu tenho ouvido isso algumas vezes, essa marca de 10 anos. Horas depois, foi a Nô dizendo que a gente não se via há 10 anos.
A Nô disse isso depois que eu já tinha ido conhecer meu sobrinho, os quais vou poupar os detalhes. Posso dizer que fiz a festa: virei o que era o caçula, até então, de ponta cabeça umas tantas vezes, e fingi ser péssimo em mímicas com sua irmã (como se faz a mímica “choque de cultura”?). Estávamos longe da cidade, depois de descer a serra, dava pra ver a Cuesta (bonitona) atrás das árvores. Minha mãe quer se mandar pra lá, ser vizinha da Nô, que costumava ficar em casa comigo e minhas irmãs algumas vezes enquanto minha mãe trabalhava. Tirando o cabelo quase que completamente branco, tenho a impressão que ela não mudou nada. Parece que tem até mais energia, contando dos cavalos, da égua e do burro que ela tem. Ficou chateada que um macaco, com quem fez amizade, sumiu. Além de uns 10 perus, a suspeita é de onça. O que me apavora e, ainda mais, me fascina. Imagina só ter uma onça rondando sua casa?
Olhei para o relógio e exclamei que precisávamos ir embora para dar tempo de chegar em casa para a minha aula. Acho que eles acharam que eu falava da aula da pós, mas, na verdade, era aula sobre anjos. Tô conhecendo os “el” tudo que tem por aí na mitologia. Perto do final, conheci a palavra “Almuten Figuris”, desses negócios de astrologia que andei me enfiando. Esse próprio estudo de anjos só está rolando por causa daquelas cutucadas. Fui lá entender qual o planeta que tem mais autoridade no meu mapa e já descobri um novo mundo e arsenal de informações que estão sendo mais relevantes do que eu jamais poderia aceitar há pouco tempo. Às vezes, não consigo acreditar no tanto que já sei de astrologia, e no quanto que eu não sei de astrologia, e que eu me tornei essa pessoa. O mundo capota, né?
]]>The Warlocks — Heavy Deavy Skull Lover (2007), faixa 2
Essa é daquelas músicas que eu gostaria de reviver o momento em que escutei pela primeira vez. Quando ainda não sabia que
The Warlocks — Heavy Deavy Skull Lover (2007), faixa 2
Essa é daquelas músicas que eu gostaria de reviver o momento em que escutei pela primeira vez. Quando ainda não sabia que seriam incríveis 11 minutos de instrumentos rasgando a realidade e fazendo o corpo transcender como se fosse o fim dos tempos. É como eu me sinto ouvindo, principalmente na segunda parte, como se o fim estivesse consumindo meus sentimentos e emoções, me destrinchando por inteiro. Os últimos segundos dessa música desaparecem como se eu já não fosse mais capaz de continuar acompanhando tamanha grandeza.
▸ ouvir no YouTubeComprei o livro num sebo. É a terceira edição, publicada em 1991 — ano em que eu nasci. Está bem conservado, exceto pelo vinco deixado nessa página.
Alguém, talvez quem levou ao sebo ou quem organizou no sebo, tomou o cuidado de desdobrar. Mas o estrago está feito, vinco nenhum se desfaz. Essa página está e permanecerá marcada, com a dobra da folha buscando se levantar.
Ela marca o capítulo 7: a cura pela oração. Existe uma figura de anjos energizando a cabeça de um médium com suas mãos, e o médium energizando a cabeça de uma paciente na cadeira de rodas, também com suas mãos.
Não gosto dessa imagem. Acho exagerado e até meio ofensivo retratar o enfermo como cadeirante, ainda mais num capítulo que fala sobre curar doenças através da oração. Como se, orando, um paraplégico pudesse voltar a andar. Não que eu duvide que alguém já tenha sido curado através de oração, nem mesmo um cadeirante. Eu mesmo faço orações todos os dias, inclusive uma com o mesmo propósito da que está nesse capítulo. Mas sei que nem todos os cadeirantes que um dia oraram buscando uma cura a obtiveram.
De qualquer forma. Será que a pessoa que dobrou essa página tinha uma enfermidade grave? Será que essa pessoa obteve alguma cura simplesmente fazendo uma oração?
Quero acreditar que sim. Quero acreditar que ela seja um testemunho contra o ceticismo. Que a dobra dessa página não indique um estrago nela, mas o registro de alguém que encontrou mais do que esperança para a cura de sua enfermidade.
]]>Annie Ernaux, em Paixão Simples
]]>Annie Ernaux, em Paixão Simples
]]>Em seu primeiro vídeo, fiquei esperando o plot, que não aconteceu. Vai ver o plot é: enquanto YouTubers estão se tornando os cineastas do momento, os cineastas que já foram do momento estão se tornando YouTubers.
Confesso que eu não esperaria muito de um canal no YouTube do Shyamalan. Parei de ver seus filmes, inclusive. O auge foi Sinais (2002), ensinando sobre fé. Mal vi os filmes dos últimos anos, porque o pouco que eu vi fez o contrário: me fez perder a fé. Dei uma deixa pra filha dele no ano passado e achei genético.
Mas enfim, o segundo e último vídeo no canal dele é sobre Sinais! Yaayyy
Apenas um vídeo de alguém relembrando seu diário de 25 anos atrás. O dia a dia da gravação do filme. Demitindo garotos de 13 anos. Vivendo o 11 de setembro. Estressado e cansado com todos depois de dias trabalhando.
Gostei de assisti-lo compartilhando isso, sem pedidos para clicar no sininho ou se inscrever, apenas lendo seu diário sobre um dos melhores filmes de sua carreira, um dos meus filmes favoritos.
Tem pelo menos duas cenas nesse filme que se tornaram inesquecíveis desde o primeiro instante em que vi, e algumas vezes geraram frutos na minha imaginação: o ET em cima do telhado e a cena no Brasil (claro). Uma vez, eu tomei uma cartela de benflogin pra ficar doidão (jovens pobres fodidos fazem cada uma) e alucinei vendo o ET no telhado do vizinho pelo vitrô da janela do banheiro. Esse dia foi louco, achei que estava sendo invadido e chamei a polícia para socorrer o vizinho que estava sendo feito de refém (ele não estava).
Enfim, que bom que não teve plot no vídeo do Shyamalan.
Este post é dedicado a Barbara, fãzona de Sinais tanto quanto eu.
]]>Quis aproveitar que ia sair da casa do meu amigo para ir à rodoviária e passar no cinema. Aproveitar enquanto ainda estava em São Paulo, com cinemas disponíveis. Meu amigo está com a saúde fragilizada, então tomamos cuidado para ele não ser infectado com nada — nos três primeiros dias na casa dele, fiquei de máscara. Queria mesmo era ele no cinema comigo. Já faz uns oito anos que não vamos ao cinema juntos. Não que ele faça muita questão de filmes, mas qualquer programa que não envolva hospital ele ia gostar.
Me despedi do meu amigo e fiquei feliz porque pude abraçá-lo depois de duas semanas juntos. Meia hora depois, estava entrando no cinema do shopping Bourbon carregando minha casa (uma mochila que parece meu casco de tartaruga de tão grande) e mais outras duas mochilas menores. Não lembro de ter viajado com tantas coisas há anos. Mas não queria perder a oportunidade de ir ao cinema e fui desse jeito mesmo. Vi o Homem-Aranha, e é tudo que já falaram. Peguei 3 cadeiras, uma para mim e outras duas para as mochilas. Tão bom ir ao cinema (ou fazer qualquer coisa) em horário de herdeiro.
Saí da sessão e fui para a Barra Funda, comprei a passagem e peguei o ônibus para a viagem de três horas e meia. Foi uma boa viagem, não li muito, não escutei muita música, não dormi nada, e passei boa parte do tempo só olhando para fora e assistindo aos meus próprios pensamentos passarem um atrás do outro. O motorista de um carro que eu peguei mais cedo reclamou dessas viagens: “Chega nunca”. Pois eu adoro.
Minha mãe e meu padrasto quiseram jantar à mesa, botar o papo em dia. Me contaram que o Zé morreu, o vizinho, um querido, sem parente algum. Batia no portão só para nos dar os ovos que as galinhas botavam. Tá cheio de ovo aqui, meu padrasto segue cuidando das galinhas e da cachorra que ficou para trás. Ela só chorava e não queria comer enquanto ele estava no hospital, até o dia em que ele morreu. Agora ela está bem.
Estranhamente, o Zé morreu naquele mesmo dia que eu contei, dias atrás, que foi um dia importante, de fins e inícios. Foi o dia do nascimento do meu sobrinho, o dia em que vendemos a casa em que eu cresci, o dia em que eu paguei a pós-graduação em escrita e foi o dia do eclipse.
Já íamos deitar, quando minha tia e meu tio chegaram da cidade da minha irmã. Dei aquele abraço que minha tia tanto adora e escutei os detalhes sobre meu sobrinho, que ainda não conheço. Também ouvi como está o comportamento do meu primo, recém-saído da prisão. Comemorei que ele está trabalhando com ela aos fins de semana, que continua sem carro e não está totalmente livre — bom para andar comedido. Mal saiu da prisão e já está com namorada nova, nova e novinha, novinha e já mãe de um recém-nascido. Não lembro qual foi a expressão que minha tia usou, recriminando com bom humor dele se engraçar logo com uma jovem com filho recém-nascido, mas lembro que fez piada consigo mesma logo em seguida. Pois ela é casada com um cara que se engraçou com ela quando era novinha e tinha filha recém-nascida. Meu tio é o pai da minha prima, mesmo sendo preto e ela ruiva, a ruiva mais branquela que conheço.
Meu tio está com câncer. Meu amigo, da saúde fragilizada, também está com câncer. Ambos souberam no ano passado. Meu amigo já passou por mais de 100 dias de quimio; meu tio, até hoje, não fez um exame decente.
Outro tio meu, o doidão da família, se aproximou, reclamando como sempre. Esse é rabugento. Estávamos em roda conversando, batendo frio e batendo o tempo na minha mente. Olhei para todos à minha volta e reparei como estão velhos. Todos eles. As rugas, os cabelos brancos e até a altura que diminuiu. Eu vou envelhecendo logo atrás.
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